História Sagrada - Do Antigo ao Novo Testamento (parte 1)

PARTE I - Desde a criação do mundo até Abraão.

1. Criação do mundo

1. Deus faz o mundo do nada. - No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia; trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.

2. A obra dos seis dias. - Disse Deus: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita. Deus chamou à luz de dia e às trevas noite. Houve tarde e manhã - foi este o primeiro dia. Disse Deus: "Apareça o firmamento que separe as águas das águas!" E assim se fez. Deus chamou ao firmamento céu. Foi este o segundo dia. Disse Deus: "As águas que estão debaixo do céu se reúnam num só lugar e apareça a superfície enxuta terra e às águas reunidas deu o nome de mar. Disse Deus: "Produza a terra ervas, plantas e árvores frutíferas!" E assim se fez. Foi este o terceiro dia. Disse Deus: "Haja luzeiros no firmamento!" Assim se fez. Deus, portanto, formou o sol, a lua, as estrelas e colocou-os no firmamento para darem luz à terra e indicarem o tempo. Foi este o quarto dia. Disse ainda Deus: "Haja peixes na água e pássaros no ar!" No mesmo instante apareceram peixes e tudo quanto vive nas águas e também pássaros de diferentes espécies. Deus os abençoou e disse: "Crescei e multiplicai-vos!" Foi este o quinto dia. Enfim, disse Deus: "Produza a terra animais quadrúpedes e répteis!" E assim se fez. Em último lugar, Deus criou o homem. Foi este o sexto dia. Contemplando todas as criaturas, verificou que eram do seu agrado.

3. Deus instituiu o sábado. - No sétimo dia, Deus descansou de toda sua obra. Abençoou e santificou este dia.

2. Os Anjos

1. Deus cria os anjos. - Deus criou também, num mundo invisível, inumeráveis espíritos, chamados anjos. Dotou-os de excelentes dons naturais, pelos quais se tornaram muito superiores aos homens em perfeição; além disso, concedeu-lhes a graça santificante, que os fazia resplandecer em sobrenatural beleza e dignidade.

2. Deus submete os anjos à prova. - Todos os anjos, a princípio, eram bons e felizes. Como seres livres, capazes de praticar o bem e o mal, tiveram que passar por uma provação, para deste modo merecer a felicidade celeste. Muitos, porém, guiados por Lúcifer, não quiseram obedecer; pecaram, rebelando-se contra Deus. Houve então um grande combate. Miguel, à frente dos anjos fiéis, pelejou contra os rebeldes, que foram vencidos e precipitados no fogo do inferno. São os demônios ou espíritos maus.

3. Espíritos maus e espíritos bons. - Os demônios, vendo-se para sempre expulsos do céu, odeiam e invejam os homens. Procuram causar-lhes mal ao corpo e à alma, a fim de arrastá-los à desgraça eterna. Deus confirmou no bem os anjos fiéis, de modo que já não podem pecar, e os recompensou com a felicidade eterna; são eles amigos dos homens; por isso os protegem no corpo e na alma, roga por eles e os exortam a praticar o bem. Cada homem tem um anjo bom que o protege e o acompanha sempre: é o anjo da guarda.

3. Criação do homem

1. Deus cria Adão. - Quando Deus quis criar o homem, disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança! Dominará sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre todos os animais e sobre toda terra!" Em seguida criou o homem à sua imagem, isto é, à imagem de Deus; formou do barro um corpo humano e soprou-lhe no rosto o espírito da vida. Ao primeiro homem deu o nome de Adão, que significa: homem de barro.

2. Deus coloca Adão no paraíso e dá-lhe um preceito. - Deus tinha plantado um jardim de delícias, o paraíso. Fez crescer nele árvores de diversas espécies, belíssimas à vista e cujos frutos eram de agradável sabor. No meio do paraíso, destacavam-se duas árvores: a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal. Deus entregou ao homem esse formoso jardim para cultivar e guardar, e disse-lhe: "Podes comer os frutos de todas as árvores do jardim; só não comas do da árvore da ciência do bem e do mal; no dia em que comeres, morrerás!"

3. Deus cria Eva. - Depois disse Deus: "Não é bom que o homem fique só; façamos-lhe uma companheira semelhante a ele!" Mandou vir todos os animais à presença de Adão, para que lhe desse o nome. Este deu a cada um o nome conveniente, mas não encontrou auxiliar que lhe fosse semelhante. Fez então Deus com que Adão caísse em profundo sono; tomando-lhe uma das costelas, dela formou a mulher. Acordando Adão, Deus apresentou-lhe a mulher; e vendo-a, ele exclamou: "Eis o osso dos meus ossos e a carne de minha carne!" Adão deu à mulher o nome de Eva, que quer dizer: mãe de todos os viventes. Abençoou-os. Deus disse: "Crescei e multiplicai-vos, povoai a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre todos os animais e sobre toda terra!"

4. Os primeiros homens são felizes. - Os primeiros homens viviam muito felizes no paraíso, eram justos e santos, não conheciam incômodos nem sofrimentos. O fruto da árvore da vida preservava-os também da morte; andavam despidos e não se envergonhavam.

4. Pecado dos primeiros homens

1. Adão e Eva pecam. - O demônio invejava a felicidade dos homens e serviu-se da serpente para seduzir. A serpente, que era o mais astuto de todos os animais da terra, disse à Eva: “Por que vos proibiu Deus que comêsseis das frutas do paraíso?” Eva respondeu: “Podemos comer de todas; só da árvore que está no meio do paraíso que Deus ordenou que não comêssemos, nem nela tocássemos, senão morreríamos”. A serpente replicou: “De modo algum morrereis, e Deus sabe muito bem disso; ao contrário se dela comerdes, abrir-se-ão vossos olhos, sereis iguais a Deus, conhecereis o bem e o mal”. Achou então Eva que uma fruta tão bonita e atraente à vista também devia ser saborosa; colhendo uma, comeu-a. Em seguida, ofereceu-a ao marido, que se achava perto e que, para lhe ser agradável, também comeu. Logo se lhes abriu os olhos; conheceram que estavam nus e, para se cobrirem, fizeram tangas de folhas de figueira.

2. Deus castiga o pecado. - Quando ouviram a voz de Deus, esconderam-se debaixo das árvores do paraíso. Deus, porém, chamou: “Adão, onde estás?” Adão, tremendo, respondeu: “Ouvindo a voz do meu Senhor, tive medo, porque estava nu, e fui me esconder”. Observou-lhe Deus: “Quem te disse que estavas nu? Comestes da árvore proibida!” Adão replicou: “A mulher que me destes por companheira me ofereceu e eu comi”. Então disse Deus a Eva: “Por que fizestes isso?” Eva respondeu: “Foi a serpente que me enganou”. Deus amaldiçoou a serpente, dizendo: “Porque assim procedentes, serás maldita entre todos os animais! Andarás de rasto teu peito e comerás o pó da terra em todos os dias de tua vida. Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; ela te esmagará a cabeça e tu procurarás mordê-la no calcanhar”. Depois disse Deus a Eva: "Sofrerás muito por causa de teus filhos e ficarás debaixo da autoridade do marido!". Enfim, dirigindo-se a Adão, disse: "Porque preferiste obedecer à voz de tua mulher, seja a terra maldita por tua causa e produza doravante espinhos e abrolhos! Comerás o pão ganho com o suor de teu rosto, até que voltes à terra donde foste tirado, pois és pó e em pó te hás de tornar!". Após esta sentença, Deus fez túnicas de peles para Adão e Eva e, assim vestidos, os expulsou do paraíso, a fim de cultivarem a terra. À porta do paraíso colocou querubins com espadas flamejantes, para que impedissem o caminho da árvore da vida.

5. Caim e Abel

1. Caim e Abel ofereceram sacrifícios. - Adão e Eva tiveram muitos filhos e filhas. O primeiro chamava-se Caim; o segundo Abel. Caim era lavrador; Abel, pastor; as obras de Caim eram más; as de Abel, justas. Certo dia, ambos ofereceram um sacrifício ao Senhor; Caim ofereceu frutos da terra. Abel, as melhores ovelhas do seu rebanho. Deus agradou-se de Abel e de seu sacrifício, mas não lhe agradaram Caim e sua oferta.

2. Caim mata seu irmão Abel. - Por causa desta preferência, Caim ficou tão indignado que o semblante se tornou abatido. Deus repreendeu-o e disse-lhe: “Por que te irritas e por que razão teu semblante está abatido? Se praticares o bem, serás recompensado; mas se fizeres o mal, sem demora o castigo te baterá à porta; vence essa inclinação para o mal e domina-te!”. Mas Caim não atendeu à palavra do Senhor e continuou a guardar rancor no coração contra seu irmão. Um dia disse-lhe: “Vamos passear junto pelo campo?” Quando ficaram sós, Caim atirou-se sobre o irmão e o matou.

3. Deus castiga Caim. - Então perguntou Deus a Caim: “Onde está teu irmão Abel?” Caim respondeu: “Não sei; sou eu, porventura, o guarda de meu irmão? O sangue de teu irmão clama por mim, pedindo vingança. Serás amaldiçoado sobre a terra que bebeu o sangue de teu irmão; se cultivares, negar-te-á colheita, viverás errante e fugitivo sobre a terra”. Caim disse ao Senhor: “Meu crime é tão grande que não posso alcançar perdão, irei esconder-me da vossa presença e quem me encontrar matar-me-á”. O Senhor respondeu: “De forma alguma isto vai acontecer; ao contrário, quem matar a Caim será punido sete vezes!” Pôs-lhe Deus um sinal, para que ninguém o matasse: e Caim,desesperado, fugiu da presença de Deus e viveu errante e fugitivo sobre a terra.

4. Filhos de Deus e dos homens. - Em lugar de Abel, Deus concedeu a Adão e Eva outro filho, muito piedoso, chamado Set. Os descendentes de Set conservaram-se fiéis a Deus e foram chamados filhos de Deus; a estes pertencia Henoc; ele vivia com Deus e foi levado da terra sem sofrer a morte. Os descendentes de Caim tornaram-se maus e, por isso, receberam o nome de filhos dos homens. Deus concedeu aos homens longevidade. Adão alcançou a idade de 930 anos, durante 56 dos quais conviveu com o pai de Noé. O homem mais idoso foi Matusalém: tinha 969 anos quando faleceu.

6. O Dilúvio

1. Deus decreta o dilúvio. - Os filhos de Deus se aliaram aos filhos dos homens. Daí se enfraqueceu mais e mais a piedade e a corrupção tornou-se geral. Deus se arrependeu, então, de ter criado o Homem e disse: “Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, que é carne. Ainda por 120 anos se estenderão os dias e hei de exterminá-lo da face da terra”.

2. Noé constrói a arca. - Noé, porém, varão justo e piedoso, achou agrado perante o Senhor. Tinha três filhos: Set, Cam e Jafet. Deus disse-lhe: “Constrói uma arca de madeiras aplainadas com 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura; unte-a com breu por dentro e por fora. Na parte superior da arca farás uma janela e do lado uma porta; ela deverá ter interiormente três andares e muitos compartimentos pequenos. Sabe, mandarei um dilúvio que destruirá tudo o que vive sobre a terra. Contigo porém farei aliança: entrarás na arca com todos os teus”. Noé confiou na palavra de Deus e fez tudo o que ele tinha ordenado. Trabalhou cem anos na construção da arca, durante os quais pregava penitência. Os homens porém não entenderam a exortação; comiam, bebiam e celebravam casamentos.

3. Deus manda o dilúvio. - quando chegou o momento do dilúvio, disse o senhor a Noé: “Daqui a 7 dias farei chover 40 dias e 40 noites. Entra, pois, na arca com tua mulher, teus três filhos e suas esposas. Leva contigo, também, alguns casais de cada espécie de animais, com os mantimentos necessários”. Noé que já tinha a idade de 600 anos, cumpriu as ordens de Deus. Depois de terem todos penetrado na arca, Deus fechou-a por fora. Romperam-se, em seguida, todas as fontes do abismo; abriram-se as cataratas do céu e choveu torrencialmente durante 40 dias e 40 noites. As águas subiram cada vez mais esse e levaram até 15 côvados acima das mais altas montanhas. Pereceram nas águas todos os homens e todos os animais que não estavam na arca; esta, entretanto, se balançava tranquila sobre as ondas.

4. Noé sai da arca. - Durante 150 dias, as águas cobriram a terra. No fim deste tempo, Deus lembrou-se dos que estavam na arca; fez soprar um vento quente sobre a terra e as águas foram baixando pouco a pouco. No sétimo mês a arca pousou sobre um monte de Armênia; e no décimo apareceram de novo os cimos das montanhas. Decorridos mas 40 dias, Noé abriu a janela da arca e soltou um corvo, que não voltou; em seguida, fez sair uma pomba, que não encontrando onde pousar, tornou a entrar na arca; sete dias depois, deixou fugir novamente uma pomba; ela voltou à tarde, trazendo no bico um ramo de oliveira, cuja as folhas já estavam verdes. Reconheceu Noé, por este sinal, que as águas já tinham escoado; esperou, todavia, mais 7 dias e soltou outra pomba, que não regressou. Então disse Deus a Noé: “Sai da arca com os teus e com todos os animais”. Noé saiu, depois de ter habitado em um ano inteiro na arca.

7. Sacrifício de Noé. Filhos de Noé.

1. Noé oferece um sacrifício. - Ao sair da arca, Noé, cheio de gratidão, perdeu um altar e ofereceu a Deus um sacrifício. O senhor aceitou-o com prazer e disse: “Nunca mais amaldiçoarei a terra por causa dos homens; pois os pensamentos e as inclinações de seu coração vão para o mal desde sua juventude”. Depois abençoou a Noé e seus filhos, dizendo: “Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra! Faço hoje a minha aliança convosco e com vossa descendência; nunca mais um dilúvio devastar a terra. Eis o sinal da aliança: Quando Eu tiver coberto o céu de nuvens, aparecerá um arco; e, vendo-o, lembrar-me-ei da Aliança que mantenho convosco”.

2. Os filhos de Noé. - Noé, que era um lavrador, começou a cultivar a terra. Plantou uma vinha e espremendo os frutos, bebeu o suco; não conhecendo ainda a força do vinho, embriagou-se e adormeceu. Enquanto dormia em sua tenda, sucedeu ficar descomposto. Cam, pai de Canaã, correu a comunicar o fato a seus dois irmãos. Sem e Jafet, porém, tomaram um manto e, andando de costas, cobriram o pai, sem olharem para ele. Quando Noé, ao despertar, soube da ação de seus filhos, disse: “Maldito seja Cam, ele será escravo dos escravos de seus irmãos! Bendito seja o Senhor Deus de Sem! Dilate a descendência de Jafet e a faça morar nas tendas de Sem!” Noé viveu ainda 350 anos depois do dilúvio; e morreu na idade de 950 anos.

8. A Torre de Babel

1. Os homens querem construir uma altíssima torre. - Os descendentes dos filhos de Noé tornaram-se muito numerosos. Viviam juntos durante longo tempo a planície de Senaar, ao sul da Mesopotâmia; falavam todos o mesmo idioma. Afinal, porém, era forçoso separarem-se e dispersaram uns aos outros: “Vinde edifiquemos uma cidade e nela uma torre cujo cimo se eleve até ao céu! Façamos célebre nosso nome, antes que nos espalhemos por toda a terra”. Fabricaram então tijolos e começaram a construção. A Deus, porém, não agradou essa obra e, quando a torre já se erguia a uma grande altura, disse: “Confundamos-lhes de tal maneira a linguagem que não se entendam mais uns aos outros!” Assim se fez e os homens se viram obrigados a desistir da construção da cidade e da torre. A cidade teve o nome de Babel, que significa: confusão.

2. A idolatria. - Assim os homens se dispersaram pela terra; e pouco a pouco se foram esquecendo do único e verdadeiro Deus, tornando-se idólatras. Adoravam o sol, a lua e as estrelas, adoravam mesmo homens, animais estátuas feitas por suas mãos. Nos sacrifícios também cometiam crimes aviltantes, muitas vezes ofereciam aos ídolos vítimas humanas, principalmente crianças inocentes. Entre estes ímpios vivia um homem bom e justo, de nome Abrão; Deus escolheu-o para conservar e propagar por ele, assim como por seus descendentes, a verdadeira fé e a esperança na vinda do Salvador prometido.

Parte II - Desde Abraão até Moisés

9. Vocação de Abraão

1. Deus ordena Abraão sair da sua pátria e faz-lhe promessas. - Abraão era descendente de Sem, filho mais velho de Noé; seu pai chamava-se Tará e seus irmãos Nacor e Arão. O último era pai de Lot. Abrão morava em Ur, da Caldéia, no meio de um povo idólatra, mas conservou-se fiel a Deus. O senhor apareceu-lhe e disse: “Sai de tua Pátria, de tua parentela, na casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrarei. Eu te farei pai de um grande povo: abençoar-te-ei e em ti serão abençoadas todas as nações da terra”.

2. Abrão obedece às ordens de Deus. - Abraão partiu imediatamente sem conhecer o lugar para onde Deus o queria conduzir. Foi para cidade de Harã, onde residiu durante 5 anos. Deus o conduziu depois para Canaã, o país que, em razão de sua fertilidade, era chamado “terra em que corria leite e mel”. Abraão tinha 75 anos quando lá chegou, acompanhado de sua mulher Sarai, seu sobrinho Lot, seus servos e seus rebanhos. Atravessou o país até Siquém e ali mesmo erigiu um altar ao Senhor. Deus apareceu-lhe de novo e disse: “Eis a terra que darei aos teus descendentes”. Abraão fixou residência perto de Betel, onde levantou também um altar ao Senhor.

10. Gênio pacífico e generosidade de Abrão. Sacrifício de Melquisedec.

1. Gênio pacífico de Abrão. - Abraão era muito rico; possuía muitos rebanhos e tinha ouro e prata em abundância. Lot também era senhor de muitos rebanhos. Os pastos, em breve, não bastaram para os rebanhos de ambos e travaram-se contendas entre os pastores de Abraão e Lot. Então disse Abrão ao sobrinho: “Não haja contendas entre mim e ti, nem entre meus e teus pastores, visto sermos irmãos; rogo que te separes de mim. Se fores para esquerda, seguirei para a direita; e se preferires a direita, irei para a esquerda”. Lot escolheu a região do Jordão que era formosa e fértil como o paraíso. Despediu-se de Abrão e foi habitar em Sodoma, cujos moradores, porém, eram muito maus e pecadores perante o Senhor. Depois que Lot se tinha separado Deus disse a Abrão: “Toda esta terra que vês, eu te darei a ti e a teus descendentes. Multiplicarei tua descendência tornando-a tão numerosa como pó da terra”. Abrão veio depois para Hebron, no vale de Mambré, onde ergueu um altar ao Senhor.

2. Melquisedec oferece em sacrifício pão e vinho. - Algum tempo depois, quatro reis estrangeiros invadiram aquele país, saquearam as cidades de Sodoma e Gomorra, levando entre os prisioneiros Lot com todos os seus haveres. Abrão, ao ter notícia do ocorrido, seguiu imediatamente, com 318 de seus criados, ao encalço daqueles reis, surpreendendo-os a noite e, destroçando seus guerreiros, retomou deles os espólios e libertou Lot e os demais prisioneiros. Quando Abrão voltava do combate, foi ao seu encontro Melquisedec, rei de Salém. Este ofereceu, em sacrifício de ação de graças, pão e vinho; pois era sacerdote do Altíssimo. Abençoou a Abrão e disse: “Bendito seja Abrão pelo Deus onipotente que criou o céu e a terra! Louvado seja Deus, o Altíssimo, que entregou os inimigos em tuas mãos!” Abrão deu-lhe a dízima dos espólios que fizera.

3. Generosidade de Abraão. - O rei de Sodoma agradecido pelo ato generoso de Abrão, disse-lhe: “Entrega-me as pessoas que libertaste e fica com tudo o mais que tomaste ao inimigo!”. Abraão respondeu: “Levanto minha mão para o Senhor, o Deus altíssimo; nada aceitarei de ti, nem sequer um fio de linho, nem um cordel de sapato. Não poderás nunca dizer: Por minha causa Abrão enriqueceu. Mas os homens que saíram comigo podem tomar a parte que lhes pertence”.

11. A aliança de Deus com Abrão

1. Deus recompensa a fé de Abrão. - Deus disse a Abrão: “Nada temas, Abrão; eu sou o teu protetor e enorme será tua recompensa”. Abraão replicou: “Senhor Deus, que me dareis? Morrerei sem filhos”. Em seguida o fez Deus sair de sua tenda e disse-lhe: “Levanta os olhos ao céu, e conte as estrelas, se podes! Tão numerosa será a tua descendência!” Abrão Acreditou nas palavras de Deus e Deus levou em conta a Fé de Abrão.

2. Deus estabelece sua aliança com Abrão. - Quando Abraão tinha 99 anos, apareceu-lhe novamente o Senhor e disse: “Eu sou o Deus onipotente, anda em minha presença e se perfeito!” Abraão prostrou-se com o rosto em terra e Deus lhe disse: “Daqui em diante teu nome não será mais Abrão, grande pai, mas Abraão, pai de muitas gerações. Estabeleço uma aliança entre mim e ti, estarei contigo e com tua descendência, mas haveis de servir unicamente a mim, vosso Deus! Em sinal desta aliança, circuncidareis todos os meninos, 8 dias depois do nascimento”.

3. Deus anuncia o nascimento de Isaac. - Deus disse ainda Abraão: “Doravante não chamará mais tua mulher Sarai, minha senhora, mas Sara, princesa; pois dela descenderão nações e reis de povos. Dentro de um ano dar-te-á um filho a quem chamarás Isaac!”

12. Hospitalidade de Abraão. Sua intercessão

1. Hospitalidade de Abraão. - Certo dia, Abraão estava sentado diante de sua tenda, à sombra de uma árvore, e era meio dia. Levantando os olhos, viu perto de si três homens. Pressuroso, foi-lhes ao encontro e, inclinando-se respeitosamente, disse: “Se obtive mercê diante de vossos olhos, entrarei na tenda de vosso servo! Descansai à sombra desta árvore, trarei também pão para vos confortar. Depois podereis seguir nosso caminho!” Eles responderam: “Faze como disseste!” Abraão entrou para o interior da tenda e disse a Sara: “Toma depressa farinha de trigo, prepara bolos para assar nas brasas!” E ele mesmo correu à manada, tomou o melhor novilho entregou a um servo a fim de que o preparasse. Em primeiro lugar, serviu-lhes manteiga e leite e, depois, o pão e o vitelo assado. Enquanto comiam, Abraão conservava em pé, para servi-los.

2. Abraão intercede por Sodoma. - Acabada a refeição, os viajantes tomaram a estrada de Sodoma. Abraão acompanhou-os em uma parte do caminho. Dois deles seguiram adiante. O Senhor permaneceu com Abraão e disse: “Os pecados de Sodoma e Gomorra tornaram-se gravíssimos e clamam por vingança”. Entrementes, os dois anjos se afastaram na direção de Sodoma. Abraão, compadecido aproximou-se e disse ao Senhor: “Castigareis o justo com o ímpio? Se houver em Sodoma 50 justos, não perdoareis a cidade, por seu amor?” Respondeu o Senhor: “Se encontrar em Sodoma 50 justos, pouparei toda a cidade em tua atenção”. Abraão continuou: “Uma vez que comecei, falarei a meu Senhor, apesar de ser pó e cinza; acaso, se faltarem em 5 para completar os 50, aniquilareis a cidade?” Disse o Senhor: “Não aniquilarei a cidade, se nela encontrar 45 justos”. Abraão insistiu: “Talvez não encontrareis mais de 40; que fareis então?” O Senhor respondeu: “Em atenção a estes 40, perdoarei”. Abraão continuou: “Não vos irriteis, Senhor, se falo ainda. Talvez lá encontrareis só 30 justos”. O Senhor disse: “Por causa desses 30 nada farei”. Abraão replicou: “Se lá houver 20 justos?” O Senhor respondeu: “Não destruirei a cidade”. “Eu vos conjuro, Senhor, não vos enfadeis se me atrevo a falar mais uma vez: talvez haja só 10?” O Senhor disse: “Devido a esses 10, perdoarei a todos”. Desapareceu então o Senhor e Abraão voltou para a sua tenda.

13. Destruição de Sodoma e Gomorra

1. Firmeza de Lot. - Lot morava ainda em Sodoma. Os moradores dessa cidade e dos lugares vizinhos viviam entregues aos excessos mais vis. Lot, porém, não participava de seus crimes. Conservava pura a sua vista, assim como seus ouvidos, causando-lhe grande mágoa a vida pecaminosa de seus concidadãos.

2. Lot hospeda os dois anjos. - Era já ao cair da tarde, quando os dois anjos chegaram a Sodoma. Lot estava sentado às portas da cidade. Logo que os avistou, foi-lhes ao encontro e inclinou-se respeitosamente, pedindo que pernoitassem em sua casa. Entraram. Lot preparou-lhes a ceia e eles se assentaram à mesa. Vieram, entretanto, os sodomitas e cercaram sua casa, dizendo: “Entrega-nos os estrangeiros que entraram em tua casa!” Não querendo aceder a seu desejo, já estavam a ponto de arrombar a porta. Mas os anjos feriram de cegueira sodomitas, de sorte que não puderam mais atinar com a porta.

3. Lot, impelido pelos anjos, retira-se da cidade. - Desde o clarear da aurora, os anjos insistiram com Lot, dizendo-lhe: “Faze sair da cidade todos aqueles que te pertencem, porque queremos destruir este lugar; o clamor de seus crimes atingiu o auge”. Lot saiu imediatamente para avisar os noivos de suas filhas; estes porém, zombaram dele e desprezaram sua advertência. Ao amanhecer, os anjos disseram a Lot: “Sai com tua mulher e tuas filhas para não pereceres com esta cidade culpada”. Como ele hesitasse, tomaram-no pela mão, e impeliram a sair com os seus. Fora das muralhas da cidade, disseram a Lot: “Salva tua vida e não olhes para trás; refugia-te na montanha”. Lot replicou: “Na montanha não posso refugiar-me. Ali perto, porém, encontra-se a cidade de Segor; não poderei esconder-me lá?” O anjo respondeu: “Seja; e, por tua causa, não destruirei essa cidade”. O sol nascia quando Lot entrou em Segor.

4. Deus arrasa as cidades perversas. - Nessa hora, Deus fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo. As cidades perversas ficaram arrasadas e todos os seus moradores pereceram. Desmoronou o solo sobre o qual se elevavam as cidades malditas, transformando-se num vasto lago de água mui salgada e betuminosa, em que nada pode viver. Por isso lhe deram o nome de Mar Morto. A mulher de Lot, infringindo a proibição dos anjos, olhou para trás, a fim de ver o incêndio, e logo, por castigo, ficou reduzida a uma estátua de sal. Abraão, de manhã cedo, foi ao lugar onde, na véspera, tinha conversado com Deus, e, olhando para o lado de Sodoma, viu a fumaça e as faíscas que subiam para o ar. Pouco tempo depois, deixou o vale de Mambré e foi morar em Bersabéia.

14. A prova de Abraão

1. Deus prova a Abraão. - Deus cumpriu a promessa feita a Sara. Passado um ano, nasceu-lhe um filho. Abraão, que tinha cem anos de idade, circuncidou o menino no oitavo dia, e deu-lhe o nome de Isaac. Quando Isaac já era crescido, Deus fez passar Abraão por uma prova. Disse-lhe uma noite: “Toma Isaac, teu filho único, que tanto amas, e oferece-mo em holocausto, na montanha que te indicarei”. Era o Monte Moriá, sobre o qual mais tarde foi edificado o Templo de Salomão.

2. Abraão obedece. - Sem replicar, Abraão levantou-se muito cedo, rachou lenha para holocausto, carregando com ela num jumento. Pôs-se depois a caminho, com dois criados e seu filho Isaac. No terceiro dia da viagem, reconheceu de longe a montanha indicada por Deus. Disse a seus servos: “Esperem-me aqui com o jumento até à volta, pois eu e meu filho vamos subir montanha, para lá adorar a Deus.” Pôs a lenha do sacrifício sobre os ombros de Isaac, enquanto ele mesmo levava o fogo e a faca. Durante a subida, disse Isaac: “Meu pai!” Abraão respondeu: “Que queres, meu filho?” Isaac replicou: “Aqui temos o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Abraão disse: “Deus saberá achá-lo, meu filho!”

3. Deus poupa Isaac. - Assim que chegaram, Abraão ergueu um altar, dispôs em cima a lenha, amarrou o filho, e deitou-o sobre o altar. Já tinha o braço levantado e a faca preparada para imolá-lo, quando apareceu os anjos e bradou: “Abraão Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui!” O anjo continuou: “Não faças mal ao menino! Agora estou certo de que temes a Deus e que por seu amor não pouparias teu filho único”. Abraão, volvendo os olhos, viu um cordeiro embaraçado pelos chifres num cipoal; ofereceu-o em holocausto, em vez de seu filho.

4. Deus recompensa a Abraão. - O anjo do Senhor tornou, então, a exclamar: “Juro por mim mesmo, diz o Senhor, que te hei de abençoar, pois que, para me obedeceres, não pouparias teu filho único. Multiplicarei tua descendência, fazendo a tão numerosa quanto as estrelas do firmamento e as areias das praias. Num de teus descendentes serão abençoadas todas as nações da terra”. Depois, Abraão e Isaac desceram, voltando com os servos para casa.

15. Casamento de Isaac. Morte de Abraão

1. Eliéser vai à Mesopotâmia. - Sara faleceu com a idade de 127 anos; Abraão chorou sua morte e sepultou-a numa caverna dupla, perto de Hebrom. Depois disse a Eliezer, seu administrador: “As mulheres de Canaã são ímpias; vai a terra de meus pais e procura para meu filho uma esposa temente a Deus”. O fiel servidor dirigiu-se, com dez camêlos carregados de objetos preciosos, para Harã, na Mesopotâmia. Ao entardecer, fez descansar os camêlos perto de um poço, junto à porta da cidade: já vinham chegando as mulheres para buscar água. O servo suplicou imediatamente: “Senhor, manifestai hoje vossa benevolência para com o meu senhor Abraão; eis as moças da cidade, que vêm buscar água. Direi a uma delas: Inclina teu cântaro, para que eu beba. Se ela me responder: Bebe e darei de beber também a teus camelos - será esta a escolhida por ti para esposa de Isaac.”

2. Eliéser se encontra com Rebeca. - Apenas Eliéser tinha acabado sua oração, apareceu uma donzela honesta e formosa, que trazia um cântaro no ombro. Desceu a fonte e encheu o cântaro; quando voltava, Eliéser lhe disse: “Dá-me de beber um pouco d’água”. Ela, abaixando o cântaro, disse: “Bebe, senhor!” Logo que ele acabou de beber, acrescentou a jovem: “Vou agora tirar água também para os camêlos”. Ágil e pressurosa, despejou o cântaro no bebedouro, voltou à fonte e apanhou água para todos os camelos. O servo contemplava-a, maravilhado, sem dizer palavra; depois que os animais beberam, recompensou-a com brincos e braceletes de ouro, perguntando ao mesmo tempo: “De quem és filha? Haverá em casa de teu pai bastante cômodo para hospedagem durante uma noite?” Ela respondeu: “Sou Rebeca, filha de Batuel e neta de Nacor; há em casa é bastante feno e palha, como a também cômodo para passares à noite”. Eliéser deu graças ao Senhor, dizendo: “Bendito seja Deus, que me guiou diretamente à casa do irmão do meu senhor”.

3. Eliéser em casa de Batuel. - Eliéser hospedou-se em casa de Batuel. Ao servir-se a refeição, disse: “Não tomarei coisa alguma antes de anunciar minha missão”. Quando Batuel e seu filho Labão ouviram do que se tratava, disseram ao mesmo tempo:”É a vontade de Deus. Aqui está a Rebeca, leva-a contigo”. A esta resposta, o servo de Abraão inclinou-se até a terra, adorando o Senhor; em seguida ofereceu ricos presentes a Rebeca. No dia seguinte, a mãe perguntou à sua filha: “Queres ir com este homem?” Ao que respondeu: “Quero, minha mãe!” Os pais abençoaram Rebeca, que partiu para Canaã. Isaac a introduziu na tenda de sua falecida mãe, recebendo-a por mulher; e dedicou-lhe tanto afeto que sua presença lhe moderou a dor causada pela perda de sua mãe.

16. Esaú e Jacó

1. Deus concede filhos a Rebeca. - Deus abençoou Isaac, por causa de Abraão, confirmando-lhe também as três grandes promessas feitas a seu pai. Isaac e Rebeca durante 20 anos não tiveram filhos. Afinal, Deus ouviu suas preces, e concedeu a Rebeca dois gêmeos; o primogênito tinha pele cabeluda e por isso lhe chamaram Esaú; o segundo recebeu o nome de Jacó. Esaú dedicou-se a caça e à agricultura; Jacó, de índole pacífica, tornou-se pastor. Isaac amava mais a Esaú, porque saboreava suas caças; Rebeca tinha maior afeição a Jacó, pois Deus lhe tinha revelado que o irmão mais novo havia de ser preferido ao mais velho.

2. Esaú vende seu direito de progenitora. - Certo dia, Jacó tinha preparado um prato de lentilhas: Esaú, ao voltar da caça, muito cansado, disse ao irmão: “Dá-me dessa comida vermelha, pois estou com muita fome”. Jacó respondeu-lhe: “Cede-me, em troca, teu direito de primogenitura!” Esaú replicou: “Estou aqui a morrer de fome; de que me serve a progenitora?” Jacó insistiu: “Jura-mo!” Esaú jurou; comeu, bebeu, e retirou-se para cuidar de seus negócios. Pouco lhe importava o ter vendido seu direito de primogenitura.

3. Jacó obtém astuciosamente a benção do pai. - Quando Isaac envelheceu, perdeu a vista. Julgando que sua morte estava próxima, mandou vir Esaú e disse-lhe: “Meu filho, estou velho e posso morrer de um dia para o outro; toma tuas armas, aljava e arco, e vai à caça. Logo que matares algum animal, prepara-me um prato como sabes que gosto; e abençoar-te-ei antes de morrer”. Esaú saiu logo, mas Rebeca tinha ouvido a promessa e disse a Jacó: “Meu filho, segue o meu conselho. Traze-me os dois melhores cabritos e vou preparar para teu pai um prato à seu gosto. Tu lho levarás e ele te abençoará”. Jacó respondeu: “Sabes, minha mãe, que Esaú é um homem peludo e eu tenho a pele macia; se meu pai me apalpar e perceber que o quis enganar, lançará sobre mim sua maldição, em lugar de benção”. A mãe já retrucou: “Sobre mim caia essa maldição, meu filho”. Jacó deixou-se persuadir e trouxe os dois cabritos. A mãe os preparou como se fosse caça, tomou as roupas de Esaú, ordenou a Jacó que as vestisse e depois cobriu-lhe as mãos e o pescoço com as peles dos cabritos. Assim disfarçado, Jacó levou a comida preparada para Isaac. “Meu pai!” Isaac perguntou: “Quem és tu, meu filho?” Jacó respondeu: “Sou Esaú, teu primogênito; fiz o que me ordenaste. Come agora de minha caça e abençoa-me!” Isaac replicou: “Como é que achaste a caça tão depressa, meu filho?” Jacó respondeu: “Foi a vontade de Deus”. Isaac disse: “Aproxima-te, meu filho; quero apalpar-te, para ver se és realmente meu filho Esaú!” Jacó aproximou-se. O pai, apalpando-o, disse: “A voz e de Jacó, mas as mãos são de Esaú!” E não o reconheceu. Depois de ter comido, abençoou a Jacó nestes termos: “Deus te conceda, por meio do orvalho do céu e da fertilidade da terra, Pão e Vinho em abundância! Serás o Senhor de teus irmãos e as nações se-te-ão submissas!”

4. Esaú não alcança a benção desejada. - Acabava apenas Jacó de sair, quando Esaú chegou da caça, dizendo: “Ergue-te, meu pai, e come da caça de teu filho, a fim de o abençoares”. Isaac perguntou: “Então, quem és tu?” Esaú respondeu: “Sou Esaú, teu filho primogênito”. Isaac ficou muito consternado e disse-lhe: “Teu irmão veio, com dissimulação, e ofereceu-me de comer. Abençoei-o e abençoado fica”. Esaú chorou, dizendo em altos clamores: “Abençoa-me a mim também, meu pai!” Comovido, Isaac consolou-o: “Terás tua parte na fertilidade da terra e no orvalho do céu: eis a tua benção!”.

17. Fuga de Jacó para a Mesopotâmia

1. Fuga de Jacó. - Esaú odiava a Jacó porque este lhe usurpara a bênção paterna e ameaçou matá-lo. Rebeca notou que a vida de Jacó perigava deu-lhe este conselho: “Foge, meu filho, para Harã e fica lá, em casa de meu mano Labão, até que se acalme a ira de teu irmão”. Jacó despediu-se de seus pais e seguiu logo viagem para Harã. Não tinha companheiro e só levava consigo um bastão.

2. A escada misteriosa. - Depois que o sol se pôs, Jacó, fatigado de viagem, apoiou a cabeça sobre uma pedra da estrada e adormeceu. Em sonhos viu uma escada que da terra se elevava até o céu e os anjos de Deus desciam e subiam por ela. No alto estava o Senhor, que disse a Jacó: “Eu sou o Senhor, Deus de Abraão e de Isaac. Eu te darei à tua descendência a terra em que repousas. Teus descendentes serão numerosos como o pó da terra. Serei teu protetor por onde andares e reconduzir-te-ei a este país”.

3. Jacó faz um voto. - Ao despertar Jacó exclamou: “Em verdade o Senhor está neste lugar e eu não sabia. É realmente aqui a casa de Deus e a porta do céu!” Logo ao clarear do dia tomou a pedra que lhe servira de travesseiro, ergueu-a como monumento de sua visão e derramou óleo por cima; a este lugar deu nome de Betel, Isto é: casa de Deus. Depois fez um voto, dizendo: “Se Deus me proteger nesta viagem e me reconduzir à casa de meu pai, erguerem aqui um altar ao Senhor e pagarei a décima parte de tudo quanto me der”.

4. Jacó em casa de Labão. - Jacó continuou a viagem e chegou à casa de Labão. Perto da cidade, e encontrou pastores que davam de beber aos rebanhos. Perguntou-lhes: “Conheceis, porventura, Labão?” E eles o informaram: “Claro que o conhecemos! Olha: aí vem Raquel, sua filha com o rebanho do pai”. Ela ocorreu logo a casa para avisar o pai, que veio pressuroso ao encontro de Jacó e o levou consigo. Passado algum tempo, Labão interrogou a Jacó: “Acaso, por seres meu irmão, hás de servir-me de graça? Dize-me, que pagamento queres?” Jacó amava muito a Raquel. Respondeu a Labão: “servir-te-ei sete anos, para me dares Raquel por esposa”. Quando, porém, tinham passado os 7 anos, Labão enganou Jacó, dando-lhe por esposa a filha mais velha, de nome Lia. Para se casar com Raquel, havia de servir mais sete anos a Labão. Cedendo aos pedidos do sogro, demorou-se depois deste casamento ainda seis anos em sua casa, cuidando dos rebanhos. Deus multiplicou os bens de Labão por causa de Jacó: favoreceu também a este, concedendo-lhe avultadas riquezas.

18. Volta de Jacó. Morte de Isaac.

1. Jacó recebe ordem de voltar. - Quando Labão viu que Jacó enriquecera, teve-lhe inveja, e procurava continuamente prejudicá-lo. Diz então Deus a Jacó: “Volta para tua pátria; eu estarei contigo”. Jacó pôs-se a caminho, com sua família e seus rebanhos. Depois de longa jornada, chegou ao rio Jordão, limite de Canaã; daí enviou mensageiros a Esaú, para obter dele não acolhimento amistoso. Os mensageiros voltaram para preveni-lo: “Esaú vem a teu encontro, com 400 homens”. Muito assustado, Jacó exclamou: “Ó Senhor não sou digno dos benefícios que me concedeste; transpus um dia o Rio Jordão, possuindo somente um bastão, e volto agora com família, grandes rebanhos e outros haveres consideráveis. Salva-me das mãos de Esaú, meu irmão”.

2. Jacó recebe o nome de Israel. - no dia seguinte, levantou-se Jacó muito cedo; antes de amanhecer, fez prosseguir na marcha toda a sua gente; ele, porém, ficou atrás. Eis que um homem se pôs a lutar com ele até ao amanhecer. Vendo, porém, que não podia vencer Jacó, tocou-lhe o nervo da coxa, que logo secou. Então disse-lhe: “Deixa-me, porque já despertou a aurora”. “Não te largarei sem que me abençoes”. O homem misterioso abençoou-o, dizendo: “Para o futuro não te chamarás mais Jacó, mas sim Israel, Isto é, guerreiro de Deus, Por que lutaste valorosamente com Deus”. Mas, desde aquela ocasião, Jacó coxeava, porque lhe ficara paralisado o nervo da perna.

3. Esaú reconcilia-se com Jacó. - Ao romper do dia aproximou-se Esaú com 400 homens; Jacó foi ao seu encontro e inclinou-se sete vezes até a terra. Esaú, por sua vez, correu para seu irmão, abraçou-o beijou-o e chorou de alegria. Quando viu as crianças, perguntou: “A quem pertencem?” Jacó respondeu: “São os filhos que Deus me deu”. Todos também se aproximaram e inclinaram-se diante de Esaú. Este não quis aceitar os presentes trazidos, mas Jacó tanto insistiu que afinal os aceitou. Separaram-se depois os dois irmãos reconciliados.

4. Jacó cumpre seu voto. - Jacó foi para Siquém, onde se estabeleceu. Lembrou-se então de seu voto e foi para Betel, onde Deus lhe aparecera, erigiu um altar e ofereceu sacrifícios. Algum tempo depois, na proximidade de Belém, faleceu Raquel, sua esposa. Visitou também, no Vale do Mambré, seu pai Isaac, que viveu ainda 23 anos depois da volta de Jacó, falecendo com 180 anos de idade. Esaú e Jacó sepultaram-no em Hebron.

19. José é vendido por seus irmãos.

1. Os filhos de Jacó. - Jacó teve 12 filhos e uma filha. Os nomes dos filhos são: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Neftali, Gad, Issacar, Zabulon, José e Benjamim. Os dois últimos eram filhos de Raquel. A filha chamava-se Dina.

2. Os irmãos odeiam a José. - Aos 16 anos de idade, José guardava os rebanhos em companhia com os irmãos. Certo dia percebeu José e seus irmãos praticavam uma ação detestável e acusou-os perante o pai. Jacó amava mais a José que a todos os outros e mandou fazer para ele uma túnica de diversas cores; esta predileção do pai por José causou inveja aos outros filhos, que começaram a odiar o irmão e nunca mais lhe falaram com amizade.

3. Os sonhos de José. - Sucedeu também contar José a seus irmãos dois sonhos que tivera. Disse-lhes: “Escutai meu sonho: parecia-me que estávamos atando feixes de trigo no campo; de repente, meu feixe ergueu-a e pôs-se em pé; os vossos todos o rodearam e se inclinaram diante dele!” Ao que replicaram os irmãos: “Queres, sem dúvida, vir a ser nosso rei?!” E ele contou assim outro sonho: “Vi o sol, a lua e onze estrelas inclinarem-se diante de mim”. Seu pai repreendeu-o: “Que quer dizer esse sonho? Porventura eu, tua mãe e teus irmãos teremos de prostrar-nos, em terra, em tua presença?” Por causa destes sonhos, cresceu ainda mais a inveja dos irmãos. O pai, porém, guardou na memória o caso.

4. José vendido pelos irmãos. - Certa vez, os irmãos de José, apascentando os rebanhos, afastaram-se até Siquém, bem longe da casa paterna; Jacó disse então a José, que tinha ficado com ele: “já faz muito tempo que não tenho notícias de teus irmãos; vai ver como vão eles e seus rebanhos”. José partiu imediatamente. Quando os irmãos avistaram de longe, disseram uns aos outros: “Lá vem o sonhador! Matemo-lo e diremos depois que uma fera o dilacerou. Veremos então de que valem seus sonhos”. Rubem, porém, o mais velho de disse-lhes: “Não mancheis vossas mãos com seu sangue; é preferível lança-lo nesta cisterna!” Sua intenção era retirá-lo dali, quando seus irmãos estivessem longe, e restituído ao pai. Logo que José se aproximou dos irmãos, despiram-no da túnica e o atiraram uma cisterna velha, sem água. Depois, assentados para comer, viram passar uma caravana de negociantes estrangeiros, que iam para o Egito. Traziam os camelos carregados de diversas mercadorias. Disse Judá aos irmãos: “Que lucro teríamos em matar nosso irmão? É melhor vendê-lo; assim não mancharemos de sangue em nossas mãos; afinal, sempre é nosso Irmão”. Concordaram nisto. Tiraram o José da cisterna e venderam no por 20 moedas de prata; os negociantes os levaram, como escravo, para o Egito.

5. Jacó chora a perda de José. - Ruben não estava presente quando isto sucedeu. Ao voltar não encontrou mais o Irmão na cisterna; rasgou as vestes, em sinal de dor, exclamou: “Que será de mim? O menino desapareceu!” Mas os outros não fizeram caso de seus lamentos; mataram um cabrito, molharam em seu sangue a túnica de José e enviaram-na ao pai, com este recado: “achamos esta túnica; Vê se não é teu filho José”. O pai reconheceu-a imediatamente e exclamou, soluçando: “É a túnica de José; uma fera cruel dilacerou meu filho”. Jacó rasgou então suas vestes, cobriu-se de luto e chorou por muito tempo a perda de seu filho amado. Os outros filhos vieram consolá-lo; Jacó porém não quis consolação, e dizia: “Descerei à região dos mortos, para perto de meu filho”.

20. José em casa de Putifar e na prisão.

1. José estimado por seu amo. - No entanto, chegando os negociantes ao Egito, venderam José a Putfar, comandante da guarda real. O Senhor velava por José, em cujas mãos tudo prosperava. Putifar estimava-o e confiou-lhe a administração de sua casa. Em atenção a José, Deus abençoou o egípcio, multiplicando-lhe os bens, tanto em casa como no campo.

2. José resiste à tentação. - A mulher de Putifar era má e pretendeu seduzir José. Este, porém lhe disse: “Como poderei praticar tão grande injustiça e pecar contra meu Deus?” Apesar disso, ela não deixava de tenta-lo diariamente com palavras. Mas tudo debalde. Certo dia, José estava a serviço dentro do Palácio; nessa ocasião, a esposa de Putifar, achando-se sozinha em casa, seguro-o pelo manto para o reter; José, porém, deixou-lhe nas mãos o manto e fugiu.

3. José no cárcere. - Furiosa, a pérfida mulher gritou então por socorro, dizendo aos criados que acudiram: “Este malvado hebreu queria seduzir me! Pus-me a gritar e ele fugiu, deixando-me seu manto”. Quando o marido voltou a casa, ela mostrou-lhe o manto, repetindo a calúnia. Putifar, dando crédito narração, ficou muito irado e mandou prender José no cárcere. Mesmo na prisão, o Senhor protegeu a José e fê-lo granjear o afeto do carcereiro-mor, que lhe confiou a vigilância de outros presos.

4. José explica dois sonhos. - sucedeu que o copeiro-mor e o padeiro-mor do rei Faraó foram metidos na mesma prisão. Quando José, certa amanhã, foi ter com eles, encontrou-os muito abatidos. Perguntou-lhes: “Porque estais tão tristes?” Responderam: “Tivemos esta noite um sonho e não há quem o possa explicar”. José replicou: “Porventura não pertence a Deus a explicação? Contai-me o que sonhaste”. Disse o copeiro-mor: “Vi diante de mim uma videira com três sarmentos. Estes rebentaram pouco a pouco, cresceram e deram enfim cachos maduros. Tomei as uvas, espremi-as na taça de Faraó e deixei-lhe para beber”. José respondeu: “Os três sarmentos significam três dias, no fim dos quais o rei te restabelecerá em teu ofício e lhe tornarás a apresentar a taça como antes. Mas lembra-te de mim; pede ao rei que me liberte dessa prisão, porque estou aqui inocente”. Vendo o padeiro-mor que José tinha interpretado sabiamente o sonho do copeiro-mor, narrou-lhe também seu som: “Sonhei que levava três cestos na cabeça; no cesto de cima havia toda qualidade de delicados pastéis; os pássaros, porém, revoavam ao redor e comiam deles”. José respondeu: “Os três cestos representam três dias, depois dos quais Faraó te mandará cortar a cabeça e pendurar teu cadáver numa forca. As aves do céu comerão tua carne”. Tudo aconteceu como José tinha predito; o copeiro-mor, porém, em sua felicidade, esqueceu-se de José.

21. José na corte do Faraó.

1. Os sonhos do Faraó. - Dois anos mais tarde, o faraó teve também um sonho. Parecia-lhe estar à beira do rio Nilo; eis que da água saiam 7 vacas formosas e gordas, que pastavam à margem; apareceram, após, sete vacas magras e feias, que devoravam as gordas; nisto o rei acordou. Tornou, porém, a adormecer e teve outro sonho. Viu nascer do mesmo colmo sete espigas belas e cheias de grãos; depois nasceram também sete espigas a raquíticas e coxas, que engoliram as primeiras. Em seguida despertou o Faraó e, logo ao amanhecer, mandou convocar todos os sábios e adivinhos do Egito; mas nenhum deles lhe soube esclarecer essas visões.

2. José explica os sonhos de Faraó. - Só então foi que o copeiro-mor se lembrou de José e disse a Faraó: “No cárcere está um moço Hebreu que, há tanto tempo, explicou com toda exatidão meu sonho e o do padeiro mor”. Faraó mandou logo chamar a José. Antes, porém, de o levarem a presença do rei, apararam-lhe os cabelos e a barba e mudaram-lhe a roupa. Faraó lhe disse: “tive dois sonhos e ninguém daqui os pôde interpretar. Ouvi dizer que sabes dar boas explicações”. José respondeu: “Só Deus, e não eu, pode dar ao rei o que deseja”. Faraó referiu os sonhos e José lhe disse: “Ambos os sonhos têm a mesma significação. As sete vacas gordas e as sete espigas cheias anunciam 7 anos de grande fartura em toda a terra do Egito. As sete vacas magras e as sete espigas vazias representam 7 anos de carestia, que seguirão os de fartura e absorverão todas as colheitas. A fome devastará, então, todo o país. Escolha, pois, faraó um ministro sábio e ativo, quem mandará armazenar em grandes celeiros reservas de trigo, durante os anos de fertilidade, a fim de que haja provisão para o tempo da Fome”.

3. José nomeado primeiro-ministro do rei. - Este conselho agradou tanto a Faraó, que disse a José: “Tu mesmo serás esse ministro; pois onde poderei achar outro que seja tão sábio e previdente como tu? Faço-te, portanto, vice-rei de todo o Egito; todo o meu povo obedecerá às suas ordens; só eu, no trono, estarei acima de ti”. Tirou, em seguida, seu anel e o enfiou no dedo de José. Mandou que o revestissem deu uma túnica de finíssimo linho e por-lhe ao pescoço um colar de ouro. Depois fê-lo passear em triunfo pelas ruas da cidade, no segundo carro real. À frente do préstito iam arautos, que gritavam, a sua passagem: “De joelho, todos, Pois é o vice-rei de todo o Egito!” O faraó deu-lhe também um nome egípcio, o que significa: salvador do mundo. José tinha 30 anos de idade quando começou a governar o Egito.

22. Primeira viagem dos irmãos de José ao Egito.

1. Jacó manda os filhos ao Egito. - Vieram os sete anos de fartura e José mandou reservar enorme quantidade de trigo nos celeiros de todas as cidades do país. Chegaram também os anos de carestia e sobreveio a fome. O povo foi ter com o faraó, pedindo pão. O rei respondeu: “Ide a José, e fazei o que ele vos disser’”. José mandou abrir os celeiros e vendeu aos egípcios e aos povos vizinhos o trigo armazenado. Também na terra de Canaã havia falta de mantimentos. Ao saber Jacó que se vendia trigo no Egito, disse a seus filhos: “Ide comprar trigo, para que não venhamos a morrer de fome”. Partiram então os dez irmãos mais velhos de José. Jacó não deixou ir Benjamin, receando que lhe acontecesse alguma desgraça na viagem.

2. José põe à prova os irmãos. - Quando os filhos de Jacó chegaram ao Egito, foram levados à presença de José. Inclinaram-se diante dele, até o chão, sem o reconhecerem; José, porém, os reconheceu logo e, fingindo-se estranho, Interpelou-os duramente: “Donde vindes?” Responderam: “Da terra de Canaã e queremos comprar trigo”. “É mentira! - replicou José. - Sois espiões; viestes para explorar os pontos fracos do país”. Trêmulos de medo, eles protestaram: “Não, senhor! Somos 12 Irmãos; o mais moço ficou em casa em companhia do pai e o outro… desapareceu”. José replicou-lhes: “Já vos disse: sois espiões!” E mandou prendê-los. No terceiro dia, chamou-os a sua presença e disse-lhes: “Quero ver se dizeis a verdade; um de vós fique preso como refém; levem os outros para casa o trigo comprado. Voltem depois, trazendo-me aqui o irmão mais moço”. Disseram então os irmãos uns aos outros: “Merecidamente sofremos isto, porque pecamos contra nosso irmão. Vimos a aflição de sua alma, quando nos pedia compaixão, mas não o atendemos!” Os irmãos não suspeitavam de que José os compreendesse, porque só lhe falava por intérpretes. Ele, todavia, entendeu tudo e ausentou-se por alguns momentos para chorar, vendo que os irmãos estavam arrependidos. Depois voltou e, à vista dos irmãos, mandou meter em ferros a Simeão. Ao mesmo tempo, ordenou a seus servos que enchessem os sacos de trigo e ocultassem dentro de cada um deles o dinheiro do pagamento. Além disso, deu-lhes mantimentos para viagem. Após esses preparativos, os irmãos partiram, com os jumentos carregados de trigo.

3. De volta a Canaã. - De regresso, em casa, contaram ao pai tudo o que lhes tinha acontecido e que na próxima viagem deviam levar também Benjamim. Ao esvaziar os sacos, os irmãos ficaram muito admirados, porque cada um encontrou seu dinheiro na boca do saco. O pai disse-lhes: “Por vossa culpa, perco todos os meus filhos! José desapareceu, Simeão está preso e ainda quereis levar-me Benjamim! Não! Meu filho não partirá convosco! Pode acontecer alguma desgraça e esse pesar levar-me-ia à sepultura”.

23. Segunda viagem dos irmãos de José ao Egito.

1. Os irmãos partem com Benjamim. - Acabada a provisão dos mantimentos, Jacó disse aos filhos: “Voltai ao Egito, para comprar trigo”. Judá respondeu: “Aquele homem que vendeu o trigo declarou-nos sob juramento: Não volteis à minha presença, se não trouxerdes convosco vosso irmão mais moço. Deixa que eu leve Benjamim e partiremos: eu me responsabilizo por ele”. Afinal disse o pai: “Já que é preciso, seja; levai também convosco o dinheiro que encontrastes nos sacos; talvez fosse posto ali por engano. Deus onipotente vos torne propício aquele homem, a fim de que deixe voltar convosco Simeão e meu querido Benjamim!”. Os irmãos levaram consigo, além de presentes valiosos, o dobro do dinheiro, e encaminharam-se para o Egito.

2. José acolhe bem os irmãos. - Chegaram felizmente ao Egito, com Benjamim. Ao vê-los, José disse a seu mordomo: “Manda entrar essa gente em meu palácio e prepara um banquete, pois hão de jantar comigo”. O mordomo obedeceu. Assustados, os irmãos diziam uns aos outros: “É por causa do dinheiro encontrado em nossos sacos que nos fazem entrar aqui. Querem sujeitar-nos violentamente à escravidão”. Procuravam, por isso, justificar-se com o mordomo. Mas ele lhes disse: “Não tenhais receio: vosso dinheiro me foi entregue por inteiro”. Em seguida apresentou-lhes Simeão. Logo que José entrou, inclinaram-se até ao chão e ofereceram-lhe os presentes. José saudou-os afavelmente e perguntou: “Nosso pai, teu cervo, ainda vive e está de saúde”. Quando viu Benjamim, perguntou: “É este o irmão mais moço? Deus te abençoe, meu filho!” Não pôde por mais tempo dominar sua comoção e saiu, chorando. Depois de lavado o rosto, voltou, e disse aos criados: “Sirva-se o jantar!” À mesa, cada um dos irmãos teve o lugar conforme sua idade, o que lhes causou admiração justificada. A Benjamim foram servidos alimentos em proporção cinco vezes maior que aos outros. Todos comeram e beberam alegremente, em companhia do vice-rei.

3. A taça de prata. - Depois do banquete, José ordenou ao mordomo: “Enche-lhes de trigo os sacos e põe por cima o dinheiro de cada um. No saco do mais moço esconde também minha taça de prata”. Na manhã seguinte, apenas tinham saído da cidade, chamou José o mordomo e ordenou-lhe: “Persegue esses estrangeiros e dize-lhes: Por que pagastes o bem com o mal, vindo aqui com ladrões? A taça que furtastes é do meu senhor!” O mordomo assim fez. Assustados, os irmãos responderam: “Não é possível; nunca nenhum de nós roubou coisa alguma; aquele com quem estiver a taça, seja castigado de morte; e nós seremos teus escravos!” Descarregaram logo os sacos dos jumentos, abrindo cada um o seu. O mordomo revistou todos e achou a taça no de Benjamim. Então eles rasgaram suas vestes e, carregando novamente os jumentos, voltaram à cidade, prostrando-se por terra na presença de José. Este perguntou-lhes: “Por que procedestes assim?” Judá respondeu: “Que havemos de dizer? Deus encontrou iniquidade em nós e por isso nos castiga. Seremos todos teus escravos!” Ao que José replicou: “Longe de mim tal injustiça! Aquele que furtou a taça, este será meu escravo; vós outros podeis voltar em paz para casa de vosso pai!” Judá aproximou-se então de José, dizendo: “Senhor, eu me tornei responsável pelo menino, porque o pai não o queria deixar sair de casa; se ele não voltar agora, nosso velho pai morrerá de tristeza. Ficarei, pois como teu escravo, em lugar do menino; mas deixa-o voltar com seus irmãos”.

4. José dá-se a conhecer. - Então José não se pôde conter mais. Mandou que saíssem da sala todos os egípcios e, estando a sós com os irmãos, começou a soluçar, bradando: “Eu sou José! Vive ainda meu pai?” Os irmãos, possuídos de terror, não puderam responder uma única palavra. José, porém,, falou-lhes amigavelmente: “Aproximai-vos de mim! Eu sou José, vosso irmão, que vendestes aos egípcios. Mas não temais! Não é por vontade vossa que me acho aqui, mas por desígnio de Deus, que me fez vice-rei de todo o Egito. Apressai-vos agora em ir ter com meu pai e conduzi-o até cá; eu me encarregarei de seu e de vosso sustento, pois restam ainda cinco anos de forme”. Então abraçou a Benjamim, chorando de alegria; Benjamim também chorava. Beijou e abraçou a cada um dos irmãos, sempre lacrimoso. Só então tiveram coragem para lhe falar.

5. Os irmãos voltaram. - Também Faraó teve notícia de que os irmãos de José tinham chegado. Alegrou-se e disse a José: “Manda vir para o Egito teu pai com toda a sua família e dá-lhes a melhor parte do país!” Por ordem do rei, José deu aos irmãos carros e presentes valiosos. À despedida aconselhou-lhes: “Não brigueis em caminho”.

24. Viagem de Jacó para o Egito. Morte de Jacó e José

1. Jacó parte para o Egito. - Ao chegarem os irmãos a casa, anunciaram ao pai: “Teu filho José ainda vive: é vice-rei de todo o Egito”. Ouvindo estas palavras, pareceu a Jacó que acordava dum profundo sono e não quis acreditar neles. Mas, vendo os carros e os ricos presentes que José lhe mandara, reanimou-se e disse: “Nada mais tenho que desejar, pois meu filho José ainda vive. Irei vê-lo antes de morrer”. Jacó partiu com tudo quanto possuía. Nos confins de Canaã ofereceu um sacrifício ao Senhor. De noite Deus falou-lhe numa visão: “Eu sou o Deus fortíssimo de teu pai; não temas ir ao Egito. Lá farei de ti um grande povo e reconduzirei um dia teus descendentes para a terra que prometi”. Jacó continuou a viagem e chegou ao Egito com toda a família, em número de 70 pessoas.

2. Jacó com José. - Judá foi adiante para anunciar a chegada do pai. Imediatamente José deu ordem de preparar seu carro e saiu a seu encontro. Logo que o avistou, desceu do carro e abraçou-o, derramando lágrimas de alegria. O pai disse a José: “Agora morrerei contente, porque vi ainda uma vez teu rosto”. Depois o apresentou ao rei, que lhe perguntou: “Quantos são os anos de tua vida” Jacó respondeu: “Os dias de minha peregrinação sobre a terra são 130 anos, poucos e trabalhosos, e não se comparam com a longa vida de meus pais”. Jacó abençoou o rei e despediu-se. José deu ao pai e aos irmãos a melhor região, a terra de Gessen, onde continuaram a viver como pastores.

3. Morte de Jacó. - Jacó viveu ainda 17 anos no Egito. Estando para morrer, vieram visitá-lo José e seus dois filhos Efraim e Manassés. Disse-lhe Jacó: “Teus dois filhos são considerados como meus: hão de herdar da mesma maneira como Rubem e Simeão. Faze-os chegar perto de mim, para que os abençoe!” José assim procedeu e Jacó os abraçou e abançoou, dizendo: “Deus, que me sustentou desde minha mocidade até este dia, o anjo que me livrou de todos os filhos e netos em torno de seu leito, dando uma benção especial a cada um. A mais preciosa, porém, recebeu-a Judá, a quem disse: “A ti, Judá, teus irmãos te louvarão; tua mão vencerá todos os teus inimigos. O cetro não sairá de Judá até que venha aquele que deve ser enviado e que é o enviado das nações”. Enfim recomendou a todos: “Sepultai-me ao lado de meus pais, na terra de Canaã”. Foram estas suas últimas palavras e morreu. José inclinou-se sobre o rosto de seu pai, chorando e beijando-o. Depois mandou embalsamar o corpo, dando-lhe sepultura na caverna dupla, perto de Hebron. José, os irmãos e muitos egípcios notáveis acompanharam o préstito fúnebre até Canaã.

4. Morte de José. - Os irmãos receavam que este, depois da morte do pai, os quisesse castigar pelo mal que lhe haviam feito. Por isso vieram pedir-lhe perdão em memória do pai. José acolheu-os benignamente, dizendo: “Vós intentastes fazer o mal, mas Deus o converteu em bem. Não temais. Sustentar-vos-ei e a vossos filhos”. Chegou José à idade de 110 anos, conhecendo netos e bisnetos. Sentindo aproximar-se o fim da sua vida, disse aos irmãos: “Deus conduzir-vos-á ao país que sob juramento prometeu a Abraão, Isaac e Jacó. Ao partirdes, levai convosco também meus ossos!” Dito isto, faleceu. Governara durante 80 anos o Egito. Os irmãos embalsamaram-lhe o corpo e o puseram num sarcófago.

25. O santo homem Jó.

1. Jó teme a Deus na prosperidade. - No tempo dos patriarca, vivia na Arábia, na terra de Hus, um varão temente a Deus, chamado Jó. Tinha sete filhos e três filhas; era muito rico e feliz. Possuía muitas centenas de ovelhas, camelos, bois, jumentos e numerosos criados. Gozava, por isso, de grande consideração em todo o Oriente. Seus filhos banqueteavam-se em suas casas, cada um em seu dia, e convidavam as três irmãs a tomarem parte. Depois de passado os dias do banquete, Jó oferecia holocausto em desagravo, porque - dizia - “talvez tenham ofendido a Deus em seus corações”.

2. Jó é resignado na graça. - Para experimentar o santo varão, Deus permitiu a satanás que o prejudicasse à vontade em seus bens, mas não tocasse em sua pessoa. Um dia, quando Jó estava descansando em sua tenda, veio um mensageiro e contou-lhe: “Tribos inimigas invadiram tuas terras, levaram ovelhas e bois, camelos e jumentos e mataram os pastores; somente eu escapei para te trazer a nova”. Estava ainda falando, quando chegou outro portador, dizendo: “Caiu fogo do céu e consumiu teus rebanhos e pastores: só eu pude escapar e vim trazer esta notícia”. Enquanto falava, entrou o terceiro portador, que disse: “Teus filhos e tuas filhas comiam e bebiam em casa do irmão mais velho; de repente, levantou-se um violentíssimo furacão. A casa estremeceu em todos os recantos e desabou sobre teus filhos, que ficaram sepultados debaixo das ruínas. Só eu pude fugir, para anunciar-te o desastre”. Então Jó, em sinal de grande pesar, rasgou seus vestidos e, prostrado por terra, adorou a Deus, dizendo: “O Senhor deu, o Senhor tirou: conforme quis o Senhor, assim aconteceu. Bendito seja teu santo nome!”

3. Jó é paciente na enfermidade. - Fora permitido ainda a satanás estender sua mão à própria pessoa de Jó. Feriu-o de lepra horrível, desde a planta dos pés até ao alto da cabeça; Jó assentado num monturo, com cacos de telhas raspava o pus de suas feridas. Ninguém o socorria, nem consolava; pelo contrário, sua própria esposa zombava dele, dizendo: “Ainda permaneces em tua piedade? Blasfema contra Deus e morre”. Jó replicou-lhe: “Falas como louca; se recebemos bens das mãos de Deus, por que não havemos de aceitar os males?”

4. Os amigos de Jó o desprezam. - Três amigos de Jó, sabendo de sua desgraça, o vieram visitar e consolá-lo, mas não o reconheceram, tão horrivelmente estava desfigurado. Possuídos de espanto e dor, rasgaram seus vestidos e romperam em altos clamores: durante 7 dias e 7 noites nenhum deles lhe dirigiu uma só palavra. Finalmente, Jó, gemendo sob sua grande dor, disse-lhes: “Compadecei-vos de mim, pelo menos vós, meus amigos, porque me feriu a mão do Senhor”. Eles, porém, lançaram-lhe em rosto que certamente merecera aquelas aflições por seus pecados. Jó protestou sua inocência, consolando-se com a esperança na ressurreição da carne. “Sei que meu Redentor vive e que no último dia hei de ressuscitar da terra! Serei de novo revestido de minha pele, e em minha própria carne verei a Deus. Sim, eu o verei; meus próprios olhos o contemplarão. Tal é a esperança que conservo em meu coração”

5. Jó é recompensado por Deus. - Depois que jó proferiu estas palavras, o Senhor apareceu num turbilhão e disse aos três amigos: “Acendeu-se minha cólera contra vós, porque vossas palavras foram injustas. Oferecei em expiação um holocausto: e Jó, meu servo, intercederá por vós!” Assim fizeram; e o Senhor se compadeceu deles, por causa da oração de Jó. Deus restituiu a Jó o duplo de seus haveres; deu-lhe também uma nova família, com 7 filhos e 3 filhas. Jó viveu ainda 140 anos, chegando a ver os filhos de seus filhos até à quarta geração.

PARTE III - O Tempo de Moisés

(1300 até 1230 antes de Cristo)

26. Nascimento e salvação de Moisés

1. Os egípcios oprimem Israel. - Os filhos de Israel multiplicaram-se tão rapidamente no Egito, que, dois séculos depois da morte de José, já formavam um povo numeroso. E este aumento de estrangeiros no país inquietou, porém, o novo rei, que ignorava os benefícios prestados por José. Disse ele aos egípcios: “O povo de Israel tornou-se maior e mais forte que nós; sejamos avisados e oprimamo-lo”. Ordenou, por isso, que os inspetores de serviço sobrecarregassem os israelitas dos trabalhos mais pesados nas fábricas de tijolos e na construção de cidades e fortalezas. Quanto mais os oprimiam, porém, tanto mais numerosos se tornavam. Afinal, decretou Faraó: “Lançai ao Rio Nilo todos os meninos que nasceram dos israelitas”.

2. Moisés é salvo. - Um homem da casa de Levi tinha desposado uma moça de sua tribo. Ela deu-lhe um filho; a mãe o escondeu durante três meses em sua casa. Não podendo ocultá-lo por mais tempo, tomou uma cestinha de junco, calafetou-a com resina e pez, deitou nela a criança e foi expô-la, no meio dos caniços, à margem do rio Nilo; a irmã da criança ficou espreitando de longe o que aconteceria Naquele mesmo dia, a filha do Faraó veio ao rio para tomar banho. Viu a cestinha no meio dos caniços e mandou uma criada buscá-la. Quando a abriu, achou dentro um formoso menino a chorar. Teve pena dele e exclamou: “Coitadinho! é de certo um menino dos israelitas!” Nesse momento a irmã do pequeno aproximou-se e perguntou: “Queres, senhora, que vá chamar uma mulher israelita para criar o menino?” Respondeu a princesa: “Sim, vai!” A moça correu chamar a própria mãe. A filha de Faraó disse-lhe: “Toma este menino e cria-o para mim; eu te pagarei o trabalho!” A mãe levou o menino e o criou. Quando estava crescido, entregou-o a filha de Faraó, que o adotou e disse: “Deve chamar-se Moisés, porque foi salvo das águas”. Moisés foi instruído em todas as ciências dos egípcios.

27. Vocação de Moisés

1. Moisés foge. - Em meio das honras da corte, onde foi educado, não esqueceu Moisés a infelicidade de seus irmãos, que cada vez mais se viam oprimidos. Chegado à idade de 40 anos, tomou corajosamente sua defesa. Presenciou, certo dia, como um egípcio maltratava a um israelita; indignado, assassinou o malfeitor. Faraó, quando o soube, mandou procurar Moisés para o matar. Este, porém, fugiu para Madiã, onde permaneceu durante 40 anos, em casa do sacerdote Jetro, guardando-lhe os rebanhos.

2. Deus lhe aparece. - Certo dia, Moisés levou o rebanho pelo deserto até o monte Horebe. Ali viu um espinheiro que ardia em chamas sem se consumir. Moisés aproximou-se para ver de perto o fenômeno. Mas uma voz, que saia do meio da chama, bradou: “Moisés, não te aproximes! Descalça os sapatos, porque o lugar onde estás é sagrado! Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”. Então Moisés cobriu o rosto, porque não se atrevia a olhar para o Altíssimo. O Senhor continuou: “Vi a aflição do meu povo no Egito e ouvi seu clamor. Quero libertá-lo do poder dos egípcios e conduzi-lo para o país onde correm rios de leite e mel. Vai, pois, a Faraó e livra o povo de Israel da escravidão”.

3. Moisés recusa-se. - Moisés disse: “Quem sou eu para ir a Faraó e fazer saírem do Egito os israelitas?” Deus respondeu: “Estarei contigo”. Moisés replicou: “Os filhos de Israel perguntar-me-ão: Como se chama aquele que te mandou? Que devo responder-lhes?” Disse Deus: “Eu sou o que sou: Dize-lhes, portanto, aquele que é mandou-me a vós”. Moisés replicou: “Mas não me acreditarão e dirão: O Senhor não apareceu”. Deus perguntou-lhe: “Que tens na mão?” Moisés respondeu: “Um bastão”. Ordenou-lhe Deus: “Atira-o em terra”. Moisés assim fez e o bastão se converteu em cobra. Moisés fugiu dela, mas o senhor lhe disse: “Estende tua mão e pega pela cauda”. Assim o fez e a cobra voltou a ser bastão. Outra vez, disse Deus: “Mete a tua mão no seio!” Ao retirá-la estava coberta de lepra. “Torna a metê-la no seio” - continuou o Senhor. Moisés obedeceu e a mão ficou curada. Deus disse em seguida: “Apresentar-lhes-ás estes sinais e dar-te-ão crédito”. Outra dificuldade opôs Moisés: “Senhor, não tenho facilidade de falar”. O Senhor lhe replicou: “Quem formou a boca do homem? Quem fez o mudo e o surdo? Aquele que vê e o que é cego? Não fui eu? Vai, pois. Ensinar-te-ei o que tiveres de dizer”. De novo se escusou: “Rogo-vos, Senhor, enviar aquele que quereis enviar!” Então Deus se irritou contra Moisés e disse: “Aarão, teu irmão, é eloquente: ele falará em teu nome e tu farás os milagres perante o povo”.

4. Moisés e Arão no Egito. - Moisés regressou para o Egito. Por ordem de Deus, Aarão foi ao seu encontro. Moisés referiu-lhe os desígnios do Senhor. Logo que chegaram, reuniram os filhos de Israel; Aarão expôs tudo que Deus tinha ordenado a Moisés, e este, por sua vez, fez os milagres. O povo lhes deu crédito e adorou o Senhor.

28. As dez pragas do Egito

1. Moisés e Aarão ante Faraó. - Moisés e Arão apresentaram-se a Faraó e falaram-lhe: “Eis o que diz o Senhor, Deus de Israel: Deixa partir meu povo a fim de que ofereça sacrifícios no deserto”. Respondeu Faraó: “Quem é esse Senhor, para que eu deva obedecer às suas ordens? Não o conheço, nem deixarei partir Israel” E ordenou que o povo fosse oprimido com maior violência. Moisés exortou o Senhor, que disse: “Verás agora o que farei a Faraó. Os egípcios conhecerão que sou eu o Senhor!” Moisés e Arão voltaram de novo a Faraó. Aarão atirou em terra seu bastão, que se mudou em cobra. Faraó chamou seus magos, que fizeram outro tanto por meio de suas artes mágicas. Contudo, a cobra de Arão engoliu as outras. O coração de Faraó continuou endurecido.

2. Dez pragas. - Então Deus fez cair sobre Faraó e sobre o povo do Egito dez grandes pragas, que assolaram terrivelmente aquela nação, por causa de sua insubmissão às ordens de Deus.

  1. Toda a água se converteu em sangue. Ninguém podia bebê-la e os peixes nela pereceram.
  2. Saíram das águas inumeráveis rãs, que penetraram nas casas e foram encontradas até na cama e na comida do Faraó.
  3. Grandes nuvens de mosquitos deixaram-se cair sobre os homens e animais e os molestaram com mordeduras.
  4. Vieram enxames de moscas perigosas, em tal quantidade que invadiram a terra em todas as casas, causando tormentos atrozes.
  5. Uma epidemia dizimou o gado dos egípcios.
  6. Bexigas e úlceras dolorosas cobriram homens e animais.
  7. Medonha chuva de pedra destruiu as colheitas e matou os rebanhos que pastavam nos campos.
  8. Inumeráveis bandos de gafanhotos pousaram sobre o país, devorando tudo o que o granizo tinha poupado.
  9. Trevas espessas cobriram todo o Egito durante três dias; todavia onde os israelitas moravam era dia claro.

Faraó, acabrunhado por estas desgraças, mandou chamar imediatamente Moisés, pedindo-lhe: “Parti; fiquem somente vossos rebanhos! Moisés respondeu: “Todos os rebanhos hão de partir conosco; nem uma só unha de gado aqui ficará”. Então novamente se endureceu o coração de Faraó. Encolerizado, exclamou: “Retira-te e não apareças mais diante dos meus olhos, senão morrerás!” Moisés retrucou: “Sucedera como ordenaste; mas escuta o que diz o Senhor: Ainda farei cair mais uma praga sobre faraó e sua gente.

  1. À meia-noite, morreram todos os primogênitos dos egípcios e haverá tristeza em todo o país; mas entre os israelitas não se ouvirá ganir um cão. Conhecereis assim quão maravilhosa distinção o Senhor faz entre os egípcios e os filhos de Israel”.

29. O cordeiro pascal e a saída do Egito

1. O cordeiro Pascal. - Moisés reuniu o povo de Israel, advertindo-o: “Ao décimo dia deste mês cada chefe de família tome um cordeiro, que seja de um ano e sem defeito. No dia catorze, pela tarde, matá-lo-á sem quebrar-lhe um osso sequer. Com o sangue tingireis os portais e as soleiras de vossas casas. Comereis, nessa mesma noite, sua carne assada ao fogo, com pão ázimo e alfaces amargas. Mas comê-la-eis à pressa e como quem vai de viagem: de cinta posta, calçados nos pés e bordão na mão; porque esta é uma páscoa, Isto é: a passagem do Senhor. Nesta noite mandarei meu anjo matar todos os primogênitos dos egípcios; vendo, porém, o sangue na porta de vossas casas, passará adiante sem vos atingir”.

2. A saída. - Os israelitas fizeram o que o Senhor tinha ordenado. Pela meia-noite, o anjo do Senhor matou todos os primogênitos dos egípcios, desde o primogênito do Faraó até o primogênito da escrava. Morreram também os primogênitos dos animais. Ergueu-se então um imenso grito de dor em todo o Egito, porque não existia casa em que não houvesse algum morto. Faraó mandou chamar Moisés e Aarão ainda nesta mesma noite, e rogou-lhes: “Ide-vos embora com vosso povo e vossos rebanhos e, ao partir, abençoai-me”. Os egípcios também apressaram o povo de Israel, dizendo: “Saí imediatamente, senão morreremos todos”. Então os israelitas partiram do Egito em número de 600 mil guerreiros, sem contar as mulheres e as crianças. Com eles partiram também muitos egípcios; Moisés levou o sarcófago que continha os restos mortais de José. Deus ordenou ainda aos israelitas: “Todo primogênito, tanto dos homens quanto dos animais, ser-me-á consagrado. Guardai a lembrança deste dia, em que minha mão poderosa vos tirou do Egito. Cada ano, do dia 14 deste mês, todo chefe de família matará, à tarde, um cordeiro, sem lhe quebrar osso algum, e o comerá em família. Celebrareis esta festa durante 7 dias e durante eles só comereis pão ázimo”.

30. A passagem do Mar Vermelho

1. Os israelitas atravessam o mar. - Deus mesmo mostrou aos israelitas o caminho que deviam seguir. Caminhava diante deles, durante o dia, em uma coluna de nuvens, que durante a noite brilhava como fogo. Assim chegaram ao Mar Vermelho, onde acamparam. Faraó arrependeu-se, entretanto, de ter deixado partir os israelitas. Perseguiu-os, por isso, com carros de guerra e com todo o seu exército; alcançou-os à tarde, perto do Mar Vermelho. Os filhos de Israel, quando viram que tinham pelas costas os egípcios em frente do mar, apavorados imploraram ao Senhor. Moisés, porém, os acalmou: “Não temais. O Senhor combaterá por vós”. Eis que se levantou uma coluna de nuvens e colocou-se entre os egípcios e os israelitas. Do lado destes, a nuvem era luminosa; do lado oposto, porém, tão escura que os egípcios, durante a noite, não puderam chegar até aos israelitas. Moisés, por ordem de Deus, estendeu então o bastão sobre o mar. Logo as águas se dividiram e levantaram dos dois lados, como paredes. Os israelitas atravessaram o mar a pé enxuto.

2. Os egípcios morrem Afogados. - Ao romper do dia, os egípcios teimaram em perseguir os israelitas até o meio do mar aproveitando-se da mesma passagem. Então saíram relâmpagos e trovões da coluna de nuvens. Os egípcios, cheios de medo, reclamaram: “Fujamos dos israelitas, porque o Senhor peleja contra nós”. Mas Deus disse a Moisés: “Estende tua mão sobre o mar”. E ele é assim fez e as águas se juntaram de novo, cobrindo todo o exército de Faraó; nem um só dos egípcios escapou. foi assim que neste dia o Senhor salvou o povo de Israel das mãos dos egípcios. O povo, à vista de tão grande milagre, temeu o poder divino, afirmando sua confiança nele e em seu servo Moisés. E todos entoaram um canto de louvor ao Senhor.

31. Os milagres do deserto

1. Deus melhora as águas amargas. - Depois de terem atravessado o Mar Vermelho, os israelitas continuaram a marcha e entraram num vasto deserto. Andaram durante três dias sem achar a água; finalmente encontraram uma fonte mas a água era tão amarga que não podiam beber. O povo começou a murmurar contra Moisés: “Que havemos de beber?” Moisés pediu conselho a Deus. Ele lhe indicou certa madeira, que lançada na água a tornou doce e potável.

2. Deus alimenta o povo com codornizes e maná. - Um mês depois, faltavam os víveres aos israelitas. Tornaram a murmurar contra Moisés e Arão: “Oxalá tivéssemos morrido no Egito! Lá nos sentávamos junto às panelas de carne e tínhamos pão à vontade”. O Senhor disse a Moisés: “Ouvi as queixas dos israelitas. Dizer-lhes: Logo comereis carne e amanhã vos fartareis de pão”. Sucedeu que a tarde vieram codornizes em grandes bandos; cobriam todo o acampamento e deixavam-se apanhar facilmente. Ao amanhecer, o solo estava coberto de inumeráveis grãozinhos brancos, à semelhança de geada. Quando os filhos de Israel os viram, exclamaram: “Manhu?” (Que é isso?) Moisés respondeu: “Este é o pão que o Senhor nos dar para comer. De manhã cada um colha a provisão para esse dia. No sexto dia recolhereis porção para dois dias; pois no sábado nada encontrarei”. Assim o fizeram. Apanhavam maná, uns mais, outros menos, mas cada um recolhia quanto podia comer. Moisés lhe disse ainda: “Ninguém guarde alimento para o dia seguinte”. Alguns, porém, não lhe deram ouvidos; tendo guardado maná para o outro dia, acharam-no estragado e cheio de bichos. Só o maná guardado para o sábado não se deteriorava. Com este pão celeste Deus alimentou os israelitas durante 40 anos, até que chegaram a terra prometida. O sabor do maná era agradável como o de favos de mel.

3. Deus faz brotar água dum rochedo. - Algum tempo depois, tornou a faltar água. O povo murmurou de novo contra Moisés: “Porque nos fizestes sair do Egito? Queres deixar-nos morrer de sede neste deserto?” E ameaçaram apedrejá-lo. Moisés dirigiu-se a Deus, que ele disse: “Vai ao monte Horebe e bate no rochedo com teu bastão”. Moisés obedeceu e logo brotou no rochedo tamanha abundância de água, que todo o povo matou a sede.

4. Josué derrota os amalequitas. - Enquanto os israelitas se detinham neste lugar, foram atacados pelos amalecitas. Moisés enviou Josué para combatê-los; e ele subiu ao Monte Horebe para orar. Enquanto Moisés rezava, de braços erguidos para o céu, os israelitas venciam; mas, logo que os deixava cair, os amalecitas ganhavam terreno; por isso os dois companheiros de Moisés, vendo que ele já estava cansado, lhe sustentavam os braços até a noite. Josué derrotou completamente os inimigos.

32. Promulgação dos dez mandamentos

1. O povo prepara-se. - 48 dias depois da saída do Egito, os israelitas chegaram ao pé do Monte Sinai. Mandou Então Deus a Moisés: “Anuncia aos israelitas: Vós mesmos vistes o que fiz aos egípcios, para proteger-vos. Conduzir-vos como uma águia conduz seus filhos sob as asas; se guardardes minha aliança, sereis meu povo escolhido”. Moisés repetiu ao povo as palavras de Deus. Todos responderam ao mesmo tempo: “Faremos tudo o que o senhor mandar”. Em seguida o senhor disse a Moisés: “Recomenda ao povo que se santifique hoje e amanhã, que lave seus vestidos e esteja preparado, pois no terceiro dia descerei à vista de todos no Sinai. Põe estacas ao redor do Monte para que ninguém suba. Mas, quando ressoarem as trombetas aproximem-se todos!” Moisés executou tudo o que o senhor lhe tinha ordenado.

2. Os dez mandamentos. - Na manhã do terceiro dia, começou a relampejar e trovejar. Uma nuvem espessa cobriu o monte e o estrondo das trombetas tornou-se cada vez mais forte. Então Moisés fez avançar o povo até ao pé do monte. O povo tremia de medo, pois toda a montanha estremecia até a base e lançava fogo e fumaça pelo cume. E Deus falou do meio das chamas:

“I. - Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás deuses falsos a meu lado; nem esculpirás imagens para as adorar.
II. - Não pronunciarás em vão o nome do Senhor, teu Deus.
III. - Lembra-te de santificar o dia do sábado.
IV. - Honrarás teu pai e tua mãe, a fim de víveres muito tempo sobre a terra.
V. - Não matarás.
VI. - Não cometerás adultério.
VII. - Não furtarás.
VIII. - Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.
IX. - Não desejarás a mulher do teu próximo.
X. - Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem seus campos, servos, servas, bois, jumentos, nem coisa alguma que lhe pertença.”

O povo cheio de terror, afastou-se do monte e disse a Moisés: “Fala-nos tu próprio, que queremos escutar-te; mas não nos fale o Senhor, porque poderíamos morrer”. Moisés respondeu: “O Senhor desceu do céu, para que vós temais e não pequeis”. O povo depois regressou ao acampamento.

3. Aliança entre Deus e o povo. - Moisés escreveu as palavras do senhor num livro, erigiu um altar e sacrificou vítimas, lendo em seguida, na presença do povo, o que tinha escrito, e todos prometeram a uma voz: “Faremos tudo o que o Senhor ordenou”. Tomou então Moisés do sangue das vítimas, aspergiu com ele o povo e o livro, declarando: “Este é o sangue da aliança que o Senhor contraiu conosco”.

4. As duas pedras da lei. - Deus ordenou a Moisés: “Sobe ao monte! Quero dar-te os mandamentos escritos em duas lápides!” Moisés subiu e aí ficou ouvindo a Deus durante 40 dias e 40 noites, sem comer nem bebe. Além dos mandamentos gravados em duas pedras, Deus comunicou-lhe ainda muitas outras ordens para o povo de Israel.

33. O bezerro de ouro

1. Idolatria do Povo. - O povo, vendo que Moisés se demorava tanto tempo no monte, insurgiu-se contra a Aarão, intimando-o: “Faze-nos um deus que marche à nossa frente; quanto a Moisés, ninguém sabe o que é feito dele”. Aarão respondeu: “Ide tirar os brincos de vossas mulheres e de vossas filhas, e trazei-mos aqui”. Eles assim procederam. Com essas jóias Aarão fabricou um bezerro de ouro. Os israelitas disseram: “Eis o deus que nos fez sair do Egito!” Ofereceram sacrifícios a estes ídolo, comeram e beberam, folgaram e dançaram, à moda dos pagãos.

2. Deus irrita-se; Moisés intercede. - O Senhor disse a Moisés: “Desce, pois teu povo pecou. Fez um bezerro de ouro para o adorar. Deixa que se acenda contra ele o furor de minha indignação! Vou aniquilá-lo; mas far-te-ei chefe de um grande povo”. Moisés, porém, intercedeu em favor dos israelitas: “Tende compaixão do povo e perdoai-lhe sua maldade!”. Então Deus você deixou a placar e desistiu do castigo prometido.

3. Moisés Castiga os idólatras. - Moisés desceu do monte, trazendo na mão as duas tábuas da lei. Chegando perto do acampamento, enxergou o bezerro de ouro e os grupos de dançarinos. Possuído de violenta cólera, quebrou as tábuas da lei, arremessando-as por terra. Apanhou depois o bezerro, reduzindo-o a pó. Misturou esse pó com água e obrigou o povo a bebê-la. Adiantou-se então até à entrada do acampamento e disse: “Para meu lado, os que ainda são do Senhor!”. Todos os filhos da tribo de Levi permaneceram fiéis. Moisés lhes ordenou: “Tomai as espadas! Passai pelo acampamento de porta em porta e matar a todos os que encontrardes em idolatria!”. Cumpriram a ordem, matando neste dia cerca de 23 mil homens.

4. Deus renova a aliança com o povo. - No dia seguinte, Moisés tornou a subir ao monte, e pediu perdão para o povo infiel: “Perdoai, Senhor, ao povo este grande crime ou, senão, riscai também meu nome do livro dos viventes!”. Deus atendeu à oração de Moisés e renovou os mandamentos, pela segunda vez, em duas outras pedras. Moisés permaneceu ainda no monte 40 dias e 40 noites, sem comer nem beber. Ao descer tinha o rosto tão resplandecente que os israelitas não ousavam aproximar-se dele. Quando queria falar ao povo, velava o rosto com um véu e somente o desvendava quando falava com Deus.

34. O tabernáculo

1. O povo disposto a sacrifícios. - Moisés reuniu o povo e disse: “Escolhei vossos melhores presentes a fim de oferecê-los, de boa vontade, ao tabernáculo do Senhor”. Todos se apressaram em fazer jóias de ouro e prata, pedras preciosas e estofos de valor. Moisés confiou a execução da obra a dois hábeis artistas, que construíram o tabernáculo e fizeram os utensílios sagrados conforme os modelos indicados pelo Senhor. Durante a construção, todas as manhãs, o povo trazia novas ofertas, a tal ponto que Moisés se viu obrigado a dizer-lhes: “Basta! já há mais do que é preciso!”

2. O tabernáculo. - O tabernáculo era uma tenda portátil de 30 côvados de comprimento, 10 de largura e 10 de altura. Três lados eram de tábuas de acácia, revestidas de ouro; a fachada era construída por uma cortina preciosa, o teto era formado de peles e ricos tapetes. Uma cortina artisticamente tecida de seda azul, púrpura e escarlate, dividia o interior da tenda em duas partes. A parte anterior que era de 20 côvados * de comprimento, chamava-se santo; o espaço atrás da cortina era denominado santo dos santos. Ao redor do tabernáculo havia um átrio de 100 côvados de comprimento e 50 de largura. Era cercado por uma cortina de linho fino, de cinco côvados de altura, que estava dependurada entre as colunas de acácia, fincadas de cinco em cinco côvados.

  • Um côvado tem 44 centímetros.

3. Utensílios sagrados.
a) No santo dos santos. - No santo dos santos foi colocada a arca da aliança. Tinha 2 1/2 côvados de comprimento, 1 1/2 de largura, e outro tanto de altura. Era de madeira de acácia e revestida, por dentro e por fora, de ouro finíssimo. A parte superior, feita de puro ouro, chamava-se propiciatório, e era de madeira especial o trono de Deus na terra. Daí manifestava-se sua presença e dava suas ordens a Moisés. Dois querubins de ouro, postos na frente um do outro, cobriam a arca, com suas asas estendidas. Dentro da arca depositaram as duas tábuas da lei e uma urna com maná. Assim, era a arca um testemunho da aliança estabelecida entre Deus e os israelitas.

b) No Santo. - No santo achava-se, ao lado esquerdo, o candelabro dos sete bicos, fabricado de ouro puro e cujas sete luzes ardiam continuamente. Ao lado direito, ficava a mesa dos “pães da proposição”, também coberta de ouro. Em cima dela estavam colocados 12 pães ázimos, de farinha mais fina, que deviam renovar-se em cada sábado. Ao meio, diante da cortina dos santosanto dos santos, achava-se o altar dos perfumes, feito de madeira de acácia e coberto de ouro mais fino; aí queimava-se todos os dias, pela manhã e à noite, um incenso precioso, composto de 24 essências.

c) No átrio. - No átrio via-se o altar dos holocaustos, de madeira acácia recoberta de bronze, sobre o qual se imolavam as vítimas dos sacrifícios; ao lado estava uma grande bacia de bronze, para abluções dos sacerdotes.

4. Consagração do tabernáculo. - Quando a obra ficou concluída, Moisés ungiu com óleo o tabernáculo e todos os utensílios do culto. Nesta ocasião a coluna de nuvens desceu sobre a tenda sagrada e a glória do Senhor encheu. Todas as vezes que a nuvem se levantava, os israelitas se punham em marcha e a acompanhavam; e, quando ela baixava, armavam suas tendas.

35. Sacerdotes e levitas

1. Consagração dos sacerdotes. - Para exercer o ministério do tabernáculo, Deus escolheu a tribo de Levi. Moisés investiu seu irmão Aarão das funções de sumo sacerdote e designou para sacerdotes os filhos dele e seus descendentes. A dignidade de sumo sacerdote ficava ligada para sempre à primogenitura. Os restantes membros da tribo auxiliavam os sacerdotes no serviço divino e chamavam-se levitas. Antes de exercerem as funções religiosas, deviam ser consagrados. Por isso, Moisés conduziu Aarão e seus filhos a presença do povo e revestiu-os das vestes sacerdotais. Também derramou óleo santo sobre a cabeça de Arão e ungiu os filhos dele. As vestimentas dos sacerdotes no exercício de suas funções eram: 1) um calção de linho; 2) uma túnica de linho branco, que descia até aos calcanhares; 3) uma cinta; 4) um turbante de mesmo tecido. Por cima desses ornamentos sacerdotais o sumo sacerdote trazia quatro outros: 1) uma veste de bisso azul-escuro; ela descia do ombros até aos joelhos, e era guarnecida, em toda a orla, de campainhas de ouro, que alternavam com romãs; 2) o umeral, tecido de linho fino, entremeado de fios de ouro. Tinha duas partes, presas sobre os ombros por duas pedras preciosas; a parte inferior estava fixa por meio de fitas; 3) o peitoral, que trazia por cima do umeral. Por fora era cravejado de 12 pedras preciosas, em cada uma das quais se lia o nome de uma das tribos; 4) em cima do turbante dos sacerdotes comuns, o sumo sacerdote trazia uma placa de ouro com estas palavras: Consagrado ao Senhor.

2. Funções sacerdotais. - O sumo sacerdote era chefe eclesiástico dos filhos de Israel. Cabia-lhe a direção dos sacerdotes e a administração geral do culto divino; só ele podia entrar no santo dos santos e oferecer os sacrifícios na solenidade das expiações. Os sacerdotes tinham de oficiar nos sacrifícios ordinários, rezar pelo povo, dar-lhe a bênção, instruí-lo na lei e preparar tudo para as funções sagradas.

3. Sustento dos sacerdotes. - Para o sustento dos sacerdotes e levitas deviam as 12 tribos pagar em cada ano o dízimo. Destinava-se ao mesmo fim uma parte de certos sacrifícios.

36. Os sacrifícios

1. Ofertas. - Moisés, por ordem de Deus, regulou as diversas espécies de sacrifícios. Uns eram cruentos; incruentos outros. Para os sacrifícios cruentos escolhiam-se bois, ovelhas e outros animais puros e sem defeito. Quem queria oferecer deste sacrifícios, apresentava a vítima na entrada do tabernáculo; impunha as mãos sobre a cabeça do animal matando em seguida. Os sacerdotes recolhiam o sangue em vasos e o derramavam em redor do altar. Depois acendiam o fogo para consumir a vítima total ou parcialmente. Os sacrifícios incruentos consistiam em ofertas de trigo, pão ázimo, vinho, azeite, óleo e incenso.

2. destino dos sacrifícios. - Em relação ao seu destino, os sacrifícios eram holocaustos, expiatórios e pacíficos. Nos holocaustos, a vítima era totalmente consumida pelo fogo. Tinha por fim reconhecer o soberano o domínio de Deus, adorando-o, e representava, ao mesmo tempo, a inteira entrega de sua pessoa o supremo Senhor. Nos expiatórios, que se ofereciam em expiação das faltas contra Deus, só se queimavam as partes gordas do animal; o resto da vítima ficava para alimentação dos sacerdotes. Os sacrifícios pacíficos visavam agradecer os benefícios recebidos ou pedir novos favores. Também nestes se queimavam as gorduras; o resto era repartido entre o sacerdote e o ofertante. Depois do sacrifício, os ofertantes preparavam no próprio átrio um banquete para si e suas famílias, durante o qual se consideravam como amigos e hóspedes de Deus.

3. Tempo do sacrifício. - No átrio era oferecido em holocausto diariamente, pela manhã e à tarde, um cordeiro, enquanto no santo se queimavam incenso e outras substâncias aromáticas. Para os sábados e dias de festa Deus tinha determinado sacrifícios especiais; além dos sacrifícios prescritos, os israelitas ofereciam em certas ocasiões dádivas espontâneas.

37. O sábado, as festas e o tempo sacrificado

1. O Sábado. - Os israelitas guardavam em cada semana o sábado. Deus havia ordenado ao povo: “Seis dias trabalharás e farás neles o que precisares; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. Neste dia não farás nenhuma obra servil, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu criado, nem tua criada, nem teu boi, nem teu jumento, nem o hóspede que te estiver em tua casa. Quem trabalhar neste dia será castigado de morte!”

2. As três grandes solenidades. - Além do sábado, os israelitas tinham de celebrar, em cada ano, três grandes festas: a da páscoa, a de pentecostes e a dos tabernáculos. Nestas três solenidades todos os varões israelitas, desde a idade de 12 anos, deviam se apresentar diante do Senhor, visitando o tabernáculo e oferecendo sacrifícios.

a) Festa de Páscoa. - A páscoa era celebrada durante seis dias, em memória da saída do Egito. No primeiro dia, cada chefe de família devia matar um cordeiro sem defeito e comê-lo em família, à semelhança da saída do Egito. Durante o tempo Pascal só era permitido comer pão ázimo.

b) Festa de Pentecostes. - Esta realizava-se 50 dias depois da páscoa, em memória da promulgação da lei, ao pé do Sinai. Também tinha por fim dar graças a Deus pela colheita dos cereais que se acabava de fazer.

c)Festa dos tabernáculos. - A festa dos tabernáculos se efetuava no outono, em memória das peregrinações do povo pelo deserto. Era a mais jubilosa de todas. Durante sete dias os israelitas habitavam em tendas cobertas de Ramos.

3. Dia da expiação. - Cinco dias antes da festa dos tabernáculos era o grande dia da expiação. Um jejum rigoroso e outras obras de Penitência eram de obrigação. De manhã cedo oferecia um touro por seus próprios pecados e pelos dos sacerdotes; depois um carneiro pelos pecados do povo. Com o sangue dessas vítimas aspergia o propiciatório da arca e todos os santos dos santos. Em seguida impunha as mãos sobre a cabeça de um bode, transferindo-lhe assim simbolicamente os pecados do povo, e mandava enxotá-lo para o deserto.

4. Ano sabático e jubilar. - De cada sete em sete anos e de 50 em 50 havia um dedicado ao Senhor. Aquele chamava-se ano sabático; este, ano de jubileu. Durante eles era proibido cultivar os campos e cobrar dívidas. No ano de Jubileu, além disso, os escravos israelitas eram restituídos à liberdade e os bens vendidos voltavam, sem remuneração, aos possuidores primitivos ou aos herdeiros.

38. Os exploradores

1. Moisés manda reconhecer o país. - Os israelitas demoraram-se um ano inteiro perto do monte Sinai. Quando a nuvem se levantou por cima da tenda sagrada, puseram-se em marcha e chegaram à fronteira meridional de Canaã. Por ordem de Deus mandou Moisés 12 homens para explorar o país. Entre esses se achavam Josué e Caleb. Ao cabo de quarenta dias, voltaram os exploradores, trazendo consigo magníficos frutos do país. Dois homens carregavam, numa vara posta aos ombros, um cacho de uvas assim como romãs e figos. Dez dos exploradores disseram: “É realmente um país onde corre leite e mel; mas os habitantes são poderosos e têm grandes cidades, cercadas de fortes muralhas. Vimos lá gigantes, ao lado dos quais parecíamos apenas gafanhotos”.

2. O povo revela-se contra Moisés. - Ouvindo notícias tão assustadoras, o povo começou a revoltar-se contra Moisés: “Ah! se tivéssemos morrido no Egito! Melhor para nós seria voltarmos para lá! Vamos escolher um chefe para que nos reconduza!” Debalde Josué e Caleb procuravam apaziguar os rebeldes, dizendo: “Não temais os moradores do país! Deus está conosco e ele nos conduzirá a terra prometida”. Mas toda a multidão gritava cada vez mais alto e queria apedrejar os dois.

3. Deus castiga o povo. - Esse tumulto irritou muito o Senhor, que declarou a Moisés: “Por quanto tempo ainda esse povo iníquo há de murmurar contra mim? Quero exterminar-lo; a ti; porém, farei chefe de um povo maior e mais nobre”. Moisés interpôs suas súplicas: “Perdoa Senhor seu pecado segundo tua grande misericórdia” O Senhor respondeu: “Por causa de tua prece, e o perdoarei. Mas dize-lhe: O que ele desejou há de suceder-lhe. Todos aqueles que, ao saírem do Egito, tinham 20 anos ou mais, nem um só entrará na terra prometida, exceto Josué e Caleb. Seus filhos errarão pelo deserto durante 40 anos, até que se tenham consumido os cadáveres dos pais. Pelos 40 dias, que lhes bastavam para explorar o país, expiarão seus crimes durante 40 anos” Moisés transmitiu ao povo todas as palavras do Senhor. Os dez exploradores mentirosos, que tinham amotinado o povo, caíram mortos repentinamente à vista de todos.

39. Castigos de Deus no deserto. Vara de Arão

1. O blasfemador. - Dois israelitas brigaram no acampamento. Um deles proferiu pragas e blasfêmia contra Deus. Conduzido à presença de Moisés, este consultou o Senhor, que lhe disse: “Quem blasfema contra o nome de Deus, é réu de morte! Todo o povo o apedreje!” Levaram o blasfemador para fora do acampamento e o puniram conforme a ordem de Deus.

2. O profanador do sábado. - Surpreenderam, certa vez, um homem apanhando lenha em dia de sábado. Levaram-no a Moisés, que mandou metê-lo na prisão, até que Deus desse a conhecer o modo como deveria ser castigado. Disse Deus a Moisés: “Seja punido com a morte! Todo o povo o apedreje”. Conduziram-no para fora do acampamento e o apedrejaram.

3. Os revoltosos de Coré. - Algum tempo depois sublevaram-se, contra Moisés e Aarão, 250 homens nobres, tendo à sua frente o levita Coré e dois homens da tribo de Rúben, Datã e Abirão. Interrogavam a Moisés: “Por que vos elevais acima do povo do Senhor? Toda Assembleia é santa”. Moisés respondeu: “Deus mesmo o julgará!” No dia seguinte, dirigiu-se com Aarão para as tendas dos três promotores da rebelião e disse ao povo: “Retirai-vos daqui, porque, se estes morrerem de morte natural, não sou eu o enviado de Deus!” No mesmo instante, abriu-se a terra debaixo dos pés dos revoltosos e os engoliu vivos, com suas famílias e seus bens.

4. A vara de Arão. - Depois o Senhor ordenou a Moisés: “Venha cada chefe da tribo com um bastão que designarás com o nome do respectivo dono. Sobre o bastão de Levi, escreverás o nome de Aarão. Depois depositarás todos diante da arca da aliança. O bastão daquele que escolhi para o sacerdócio reverdecerá”. Moisés cumpriu a ordem do Senhor. No dia seguinte, ao entrar no tabernáculo, achou reverdecido o bastão de Aarão. Tinham brotado dele folhas e rebentos flores e frutos. O povo assim reconheceu que Aarão era o sacerdote escolhido por Deus. Moisés depositou a vara de Aarão na arca, como testemunho contra os filhos rebeldes de Israel.

5. Desconfiança de Moisés e Aarão. - Sobreveio de novo aos israelitas grande falta d’água. Murmuraram contra Moisés e Aarão, dizendo: “Por que nos trouxestes para este deserto, onde nem há água para beber?” Moisés e Aarão, prostrados com o rosto em terra, clamaram ao Senhor. Este disse a Moisés: “Toma teu bastão e convoca a assembléia. Assistido por Aarão, falarás ao rochedo, na presença do povo, e o rochedo dar-vos-á de sua água”. Moisés reuniu o povo e disse: “Escutai, incrédulos e rebeldes! Poderemos acaso fazer brotar deste rochedo água para nós?” Levantou o bastão e bateu duas vezes no rochedo: a água jorrou logo em grande abundância. Mas esta dúvida de Moisés e Arão desagradou o Senhor, o que lhes disse: “Porque desconfiastes de mim, não haveis de introduzir o povo na terra prometida!”. Pouco tempo depois faleceu Aarão. Foi pranteado durante 30 dias. Por ordem de Deus, Moisés revestiu das vestes sacerdotais Eleazar filho primogênito de Aarão.

6. A serpente de bronze. - Os israelitas, cansados das longas peregrinações, aborreceram-se do maná e disseram a Moisés: “Este alimento miserável já nos causa repugnância”. Para lhes castigar a ingratidão, Deus enviou serpentes venenosas, cujas mordeduras queimavam como fogo. Muitos foram mordidos e morreram. O povo dirigiu-se então a Moisés, para dizer-lhe: “Pecamos contra o Senhor; pede-lhe que nos livre destas serpentes”. Moisés intercedeu pelo povo e Deus condescendeu: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a no alto de um poste. Todo aquele que foi mordido e olhar para ela, será curado”. Moisés assim o fez; e todos aqueles que se sentiam mordidos e olhavam para a serpente de bronze tinham a vida salva.

40. O Profeta Balaão

1. Benção e profecia de Balaão. - Completavam-se enfim os 40 anos de peregrinação pelo deserto, quando os israelitas chegaram à fronteira da terra prometida. Aproximaram-se da margem oriental do Rio Jordão, para daí entrarem em Canaã. Todas as nações pagãs, que lhes recusavam a passagem, eram derrotadas a fio de espada. Deste modo, conquistaram quase todo o território dalém Jordão e acamparam depois na planície de Moab, em frente a Jericó. Balac, rei dos moabitas, assustou-se muito quando soube da marcha vitoriosa dos israelitas, porque se sentia fraco para resistir. Valeu-se, pois, de outras armas. Mandou a Balaão, célebre adivinho, que morava na Mesopotâmia, emissários com esta mensagem: “Chega-nos do Egito, um povo numeroso que ocupa todo o país. Vem amaldiçoar esse povo, que talvez eu consiga assim derrotá-lo expulsá-lo de meu país!” Balaão pôs-se a caminho. O rei veio-lhe ao encontro e o levou sucessivamente ao cume de três montes diversos, donde se podia avistar todo o acampamento dos israelitas. Balaão sempre se esforçava para amaldiçoar o povo, mas Deus o obrigava a abençoar os israelitas. Por fim, profetizou ainda, exclamando: “Como são belos teus pavilhões, ó Jacó! Como são belas as tuas tendas, ó Israel! Eu o vejo, mas não agora; eu o contemplo, mas não de perto. Uma estrela sairá de Jacó, um cetro se levantará de Israel, e esmagará os príncipes de Moab”.

2. Conselho de Balaão. - Ouvindo estas palavras, o rei protestou, cheio de indignação: ”Chamei-te para amaldiçoares meus inimigos e tu os abençoaste três vezes. Vai-te!” Balaão respondeu: “Não posso alterar a palavra do Senhor. Mas antes de me retirar, escuta meu conselho: Seduze o povo à idolatria e Deus o entregará em tuas mãos”. Balac seguiu o conselho, fazendo celebrar uma festa em honra dos deuses dos moabitas. Os israelitas assistiram a ela, adoraram os falsos deuses e cometeram muitos outros crimes de idolatria. Deus, indignado, flagelou Israel com uma praga, que fez perecer 24 mil homens. Por fim, os israelitas venceram os inimigos. Entre os mortos foi encontrado também em Balaão.

41. Últimas exortações e morte de Moisés

1. Exortações de Moisés. - Quando Moisés chegou ao fim de sua carreira, Deus lhe disse: “Impõe as mãos a Josué, na presença de todo o povo, a fim de que todos dora em diante lhe obedeçam!” Moisés assim fez e em seguida falou ao povo, nestes termos: “É aqui neste deserto que vou morrer; não atravessarei o Jordão. Vós passareis e entrareis na posse deste belo país que lá se estende. Não esqueçais a aliança que com o Senhor fizestes. Escuta, Israel: o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda tua alma e de todas as tuas forças. Contai a vossos filhos o que o Senhor praticou em vosso benefício e ensinai- lhes seus mandamentos! Eis que vos proponho hoje a bênção e a maldição. Se cumprirdes todos os mandamentos do Senhor, sereis abençoados nas cidades e nos campos; serão abençoados vossos filhos, abençoadas as lavouras e os rebanhos; se, porém, não ouvirdes a voz do Senhor, cairá sobre vós a maldição”. Ele concluiu: “Deus suscitará no meio dos vossos irmãos um profeta, que será como eu: é a ele que escutareis!”

2. Morte de Moisés. - Depois de ter proferido estas palavras, Moisés abençoou as doze tribos de Israel e subiu ao monte Nebo. Deus mostrou-lhe daí todo o país de Canaã: “Eis a terra que prometi a Abraão, a Isaque e a Jacó. Tu a vês agora com teus olhos, mas não entrarás nela”. Moisés faleceu lá mesmo, na idade de 120 anos. Deus preparou-lhe uma sepultura e até hoje ninguém soube o lugar. Todo o povo de Israel chorou-o por espaço de 30 dias. Um profeta semelhante a Moisés, com quem Deus falasse face a face, nunca mais existiu em Israel.

PARTE IV - O tempo de Josué e dos juízes desde a entrada na Terra Prometida até Saul

(1230 até 1030 antes de Cristo)

42. A entrada de Josué na terra prometida

1. O povo atravessa o Jordão. - Após a morte de Moisés, disse o Senhor a Josué: “Levanta-te e manda o povo atravessar o rio Jordão, para entrar na terra que lhe quero dar! Como estive com Moisés, assim estarei contigo”. Josué deu ordem ao povo de pôr-se em marcha. Na frente iam os sacerdotes, levando aos ombros a arca da aliança. Logo que os sacerdotes meteram os pés no rio, a água que vinha da nascente parou e ergueu-se como uma montanha, enquanto a água que já tinha passado se escoou para o Mar Morto. Ficou, assim, livre a passagem aos israelitas. Os sacerdotes tomaram lugar com a arca no meio do rio, deixando desfilar a pé enxuto todo o povo. Chegados também os sacerdotes à margem oposta, as águas do rio continuaram a correr como dantes. Em seguida acamparam os israelitas perto de Jericó, onde festejaram a páscoa e pela primeira vez comeram frutos do país. Desde então não caiu mais do céu o maná.

2. Conquista de Jericó. - Jericó era cidade cercada de fortes muralhas e bem munida. O Senhor disse a Josué: “Eis que trago em tuas mãos Jericó, seu rei e seus soldados. Durante 6 dias seguidos todos os guerreiros darão uma volta ao redor da cidade, uma vez por dia. No sétimo dia, porém, todos darão sete voltas, enquanto os sacerdotes, diante da arca, tocarão as trombetas. Na última volta, todo o povo bradará fortemente, e no mesmo instante desabarão por si mesmas as muralhas da cidade. Cada um, então, penetrará no lugar em que estiver!” Os israelitas fizeram como o Senhor lhes ordenara e conquistaram Jericó. Por ordem de Deus, mataram todos os habitantes e incendiaram a cidade.

3. Conquista de todo o país. - Para conquistar todo o país, Josué teve de guerrear ainda muitos povos, que se alinharam contra Israel. Mas Deus estava com ele e concedeu-lhe vitória sobre todos os inimigos. O número dos Reis derrotados foi de 31. Muitas vezes Deus auxiliou Josué de maneira milagrosa. numa ocasião 5 reis confederados entraram em campo contra Josué, em frente da cidade de Gabaão; Josué atacou-os de improviso e os perseguiu.
Receando que viessem a noite sem ter derrotado completamente os inimigos, dirigiu-se a Deus e pediu que fizesse parar o Sol e a Lua. E eis que o Sol e a Lua ficaram imóveis até que os israelitas conseguiram vitória total.

4. Josué partilha o país. - O país conquistado foi repartido por sorte entre as tribos de Israel. Cada tribo obteve assim o quinhão que Deus lhe quis conceder. Efraim e Manassés, filhos de José, receberam cada um sua porção completa, conforme Jacó tinha determinado no leito de morte. Somente aos descendentes de Levi não coube porção alguma, porque se sustentavam das oferendas e dos dízimos das colheitas, que cobravam às demais tribos. Foram-lhes designadas também, para sua residência no território das diversas tribos, 48 cidades. O tabernáculo foi levantado em Siló, terra da Tribo de Efraim. Entraram assim os israelitas na posse da terra que Deus prometera a seus pais.

5. Morte de Josué. - Antes de morrer, Josué reuniu ainda uma vez todas as tribos em Siquém, onde estavam sepultados os restos mortais de José, e falou-lhes: “Lembrai-vos dos benefícios que Deus vos concedeu e guardai e seus preceitos. Evitai a convivência com idólatras e não façais nenhuma aliança com eles. Conservai-vos fiéis ao Senhor, vosso Deus, para que ele combata em vosso favor. Se abandonardes o Senhor para servir a deuses falsos, ele fará cair sobre vós todas as desgraças. Escolhei hoje a quem quereis servir!” O povo respondeu: “Ao Senhor, nosso Deus, serviremos e observaremos seus mandamentos”. Assim Josué renovou solenemente a aliança entre Deus e os filhos de Israel. E aos 110 anos de idade faleceu.

43. Os juízes. Gedeão.

1. Os juízes. - Depois da morte de Josué, os israelitas esqueceram-se da aliança feita com Deus. Em vez de destruírem os altares dos ídolos, prestavam culto às falsas divindades; travavam relações íntimas com os idólatras e casavam-se até com mulheres pagãs. Deus entregou-os, por isso, às mãos de seus inimigos, de modo que a uma opressão seguia-se logo outra. Invocavam então novamente ao Senhor, e pediam-lhe perdão de seus crimes. Deus ouvia a súplica dos infelizes; suscitava no meio deles homens cheios de fé e de energia, chamados juízes, que os libertavam de seus opressores. Houve 15 juízes em Israel, sendo os mais notáveis: Gedeão, Sansão, Heli e Samuel.

2. Vocação de Gedeão. - Para castigar as infidelidades dos israelitas, Deus entregou-os, por 7 anos, ao jugo dos madianitas. Estes vinham, todos os anos, no tempo da colheita, destruíram as plantações e roubavam os produtos. Em certa ocasião invadiram o país com um exército de 135.000 homens. Os israelitas, cheios de terror, esconderam-se em cavernas e clamavam por socorro ao Senhor. Apareceu o anjo do Senhor a Gedeão, quando este debulhava trigo, e saudou-o: “O Senhor está contigo, valente herói! És tu quem livrará Israel das mãos dos madianitas!” Gedeão objetou: “Como libertarei Israel? Minha família é a última da tribo de Manassés e eu o último da casa de meu pai”. O anjo lhe afirmou: “O Senhor está contigo e derrotarás os madianitas como se fosse um só homem”; e desapareceu. Animado pelo espírito do Senhor, Gedeão tocou a trombeta e trinta e dois mil homens vieram pôr-se ao seu lado.

3. Gedeão e o sinal. - Antes de sair a campo, Gedeão pediu um sinal a Deus, dizendo: “Estenderei eira esta lã de carneiro; se amanhã houver orvalho somente na lã, conservando-se em volta dela enxuto o terreno, reconhecerei por esse sinal que salvarei Israel por minhas mãos”. No dia seguinte, espremendo a lã, encheu uma grande taça de água; e o terreno em redor se achava enxuto. Disse Gedeão ainda a Deus: “Não vos irriteis, Senhor, se pedir novo prenúncio. Desejo que desta vez somente a lã fique seca, enquanto a terra em redor se umedeça de orvalho”. Foi satisfeito o pedido de Gedeão.

4. O exército de Gedeão. - Gedeão partiu, dirigindo-se contra os midianitas; Deus porém, lhe observou: “Há gente demais contigo. Não alcançarás, assim, a vitória sobre os madianitas, para que Israel não se glorifique, dizendo: — Salvei-me por minhas próprias mãos. — Manda apregoar pelo acampamento: Quem estiver com medo, volte!” Voltaram 22 mil homens, ficando somente 10 mil. O senhor continuou: “Ainda é demais! Leva-os à fonte. Põe de um lado os que beberem no côncavo da mão; e do outro os que se ajoelharem para beber”. Só houve 300 que beberam no côncavo da mão. Disse Deus: “Com estes 300 quero salvar Israel; manda todos os outros para suas casas”.

5. Vitória de Gideão. - Gideão dividiu os 300 homens em três grupos. Deu a cada guerreiro uma trombeta e uma bilha vazia, que continha um archote, e disse-lhes: “Fazei o mesmo que me virdes fazer!” Pela meia-noite, Gedeão e sua gente aproximaram-se, por três lados diferentes do acampamento inimigo. De repente, tocou a trombeta, quebrou a bilha, e agitando o archote, gritou: “A espada do Senhor e de Gedeão!” Os 300 homens fizeram o mesmo. Espalhou-se, então, extraordinária confusão em todo o acampamento dos madianitas; gritavam, desempenhavam suas espadas, matando-se uns aos outros, e fugiam. De 135 mil homens, voltaram apenas 15 mil para seu país. Os guerreiros de Israel disseram a Gedeão: “Sejas nosso rei porque nos salvaste!” Gedeão respondeu: “Nem eu, nem meu filho, mas o Senhor seja vosso rei!”

44. Sansão

1. Nascimento de Sansão. - De novo, os filhos de Israel procederam mal e o Senhor os submeteu durante 40 anos à opressão dos filisteus. Nesse tempo, vivia na tribo de Dan um casal que não tinha filhos. Apareceu-lhes o anjo do Senhor, dizendo: “Tereis um filho, que deverá ser consagrado ao Senhor, desde sua infância. Não beberá vinho nem outra bebida alcoólica; nem comerá alimento algum impuro e a tesoura não lhe cortará os cabelos!” Nasceu o filho primogênito e deram-lhe o nome de Sansão; o menino desenvolveu-se abençoado por Deus.

2. Força de Sansão. - Já crescido, era de uma força admirável. Um dia, foi a uma cidade dos filisteus; e ali um leão um novo arremessou-se de repente contra ele, rugindo furiosamente. O espírito do Senhor se apossou então de Sansão, e este despedaçou a fera, como se fosse um cabritinho. Outra vez apanhou 300 raposas, amarrou-as duas a duas pela cauda, acendendo um facho entre elas, e soltou-as nas searas dos filisteus. O trigo, as vinhas e os olivais, tudo foi devorado pelo incêndio. Os filisteus, cheios de raiva, vieram em grande número para prendê-lo; amarraram-no com cordas novas e fortes; mas Sansão arrebentou, como se fossem fios de linha. Apanhou depois uma queixada de jumento, que se achava ali no chão, e com ela derrotou mil filisteus. Noutra ocasião, dirigiu-se Sansão à cidade de Gaza, onde pernoitou. Os filisteus, sabendo disso, trancaram as portas da cidade, para matá-lo na manhã seguinte. Sansão, depois de ter dormido até meia-noite, levantou-se, pôs em fuga os guardas, agarrou os dois portais com seus batentes e transportou tudo, às costas, para um monte próximo.

3. Sansão é preso. - Mais tarde, Sansão casou-se com uma mulher dos filisteus, de nome Dalila. Esta insistia para que lhe revelasse o segredo de sua força. Por fim, Sansão disse: “Eu sou consagrado a Deus desde a mais tenra infância. Por isso nunca se pôs tesoura na minha cabeça. Se cortassem minha cabeleira, tornar-me-ia fraco como qualquer outro homem”. A mulher traidora, enquanto ele dormia, mandou cortar-lhe as sete tranças de seus cabelos. No mesmo instante, ele perdeu a antiga força. Os filisteus apoderaram-se dele, vazaram-lhe os olhos e o levaram amarrado para Gaza. Em sua prisão Sansão era obrigado a mover uma pedra de moinho.

4. Morte de Sansão. - Os cabelos de Sansão iam, no entanto, crescendo e voltaram-lhe as forças. Um dia, os filisteus deram uma grande festa em honra do ídolo Dagão. Os chefes do povo, com 3 mil pessoas, estavam reunidos no templo pagão. Acabado o banquete, queriam um divertir-se. Mandaram buscar Sansão, para que tocasse e cantasse em presença deles, para os divertir. Sansão disse ao menino que eu levava pela mão: Leva-me para junto das duas colunas que sustentam todo o edifício”. Depois invocou o Senhor, dizendo: “Senhor, dá-me força ainda uma vez”. Em seguida agarrando as colunas, uma com a direita, outra com a esquerda, sacudiu-as com força. No mesmo instante, o templo desabou, esmagando sob suas ruínas toda a assembleia. Assim Sansão matou mais inimigos por ocasião de sua morte do que durante toda a vida.

45. Rute

1. Rute acompanha Noemi. - No tempo dos juízes fez-se sentir a fome em Canaã. Por esse motivo, um homem de Belém emigrou, com sua mulher e seus dois filhos, para o país de Moab. Ele se chamava Elimelec, e sua mulher Noemi. Depois de sua morte, os dois filhos casaram-se com mulheres moabitas. Uma chamava-se Orfa, a outra Rute. Decorridos 10 anos, faleceram os dois filhos. Então Noemi resolveu voltar para sua terra; as noras acompanharam-na. Depois de caminharem por algum tempo juntamente, Noemi disse-lhes: “Voltai para casa de vossos pais; o Senhor vos recompense o muito que por mim e por meus filhos fizestes”. Orfa deixou-se convencer, despediu-se da sogra e voltou. Rute, ao contrário, respondeu: “A qualquer parte aonde fores, irei também eu; onde morares, morarei também eu; teu povo é meu povo, teu Deus, meu Deus! Onde tu morreres, aí quero eu também morrer”. Ambas chegaram a Belém, no tempo em que se fazia a ceifa da cevada.

2. Rute cuida de Noemi. - Rute disse à sogra: “Queres que sai ao campo, para respigar?” Noemi respondeu: “Vai, minha filha!” Guiada pela mão de Deus, Rute entrou no campo de um homem rico, chamado Booz, da família de Elimelec. Este, no correr do dia, veio ao campo e, vendo Rute, perguntou aos ceifeiros: “Quem é esta moça?” informaram-lhe: “É a moabita que voltou com Noemi; anda no campo já desde cedo e é incansável no trabalho”. Booz disse a Rute: “Minha filha, fica aqui e junta-te a meus trabalhadores. Se tiveres sede, vai beber na talha deles e, quando for hora de comer, vem e come com eles, pois contaram-me todo o bem que fizeste a tua sogra. O Deus de Israel te dar a recompensa completa!” Depois recomendou aos segadores: “Deixai cair de propósito algumas espigas para que ela não tenha vergonha de as apanhar”. Rute fez como Booz lhe recomendara e respigou até ao fim da tarde. Quando bateu depois as espigas com uma vara, tinha cerca de três medidas de cevada. Levou-as à sogra, com o resto de sua refeição.

3. Booz casa-se com Rute. - Depois da colheita, disse Booz a Rute: “Todos reconhecem que és uma mulher virtuosa: quero casar-me contigo”. Recebeu-a por esposa. O Senhor abençoou essa união, dando-lhes um filho de nome Obed. Este foi o pai de Isaí, e Isaí de Davi, de quem descende o salvador.

46. Eli e Samuel

1. Nascimento de Samuel. - Os últimos juízes de Israel foram Heli e Samuel. Heli era ao mesmo tempo juiz e sumo sacerdote e morava em Siló, onde se achava a arca da aliança. Nessa época, vivia na montanha de Efraim um levita, chamado Élcana, com sua mulher Ana. Não tinham filhos, todos os anos iam a Siló sacrificar ao Senhor e adorá-lo. Um dia Ana fez o seguinte voto: “Senhor, Deus dos exércitos, se me deres um filho, eu prometo vo-lo consagrar, para toda a sua vida”. Atendeu o Senhor esta prece e deu-lhe um filho, a quem pôs o nome de Samuel, isto é, obtido de Deus pela oração. Quando o menino chegou a idade de 3 anos, a mãe o levou a Heli para que servisse a Deus no tabernáculo. Samuel cresceu ali e tornou-se agradável aos olhos de Deus.

2. Os filhos de Heli. - Heli tinha dois filhos, Ofni e Fineés. Eram homens perversos, apesar de sacerdotes do Altíssimo. Quando vinham oferecer sacrifícios, roubavam para si porções a que os sacerdotes não tinham direito e cometiam outras ações abusivas no lugar sagrado, dando assim escândalo ao povo. Heli repreendia-os por isso, mas não os castigava. Deus mandou-lhe dizer: “Por que respeitas mais teus filhos do que a mim? Eis, Ofni e Fineés morrerão no mesmo dia.

3. Deus fala a Samuel. - Samuel dormia no átrio do tabernáculo. Certa noite, o Senhor o chamou: “Samuel, Samuel!” Este levantou-se depressa e foi ter com Heli. “Eis-me aqui; não me chamaste?” Heli respondeu: “Não te chamei; volta e dorme!” Ele voltou e adormeceu. Outra vez o chamou o Senhor: “Samuel, Samuel!” O menino tornou a correr ao dormitório de Heli e lhe disse: “Aqui estou, não me chamaste?” Heli disse: “Não te chamei; vai dormir sossegado”. O Senhor chamou a Samuel pela terceira vez, e Samuel levantou-se e foi apresentar-se a Heli, dizendo: “Eis-me aqui; não me chamaste?” Heli compreendeu então que era a voz do Senhor, e disse: “Torna a deitar-te. Se ouvires chamar ainda, responde: Fala, Senhor, teu servo escuta!” Samuel foi e adormeceu. O Senhor veio novamente chamá-lo: “Samuel, Samuel!” Este respondeu: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” O Senhor então lhe disse: “Hei de castigar a Heli e a seus filhos, pois ele sabia que estes praticavam ações indignas e não nos puniu”. Na manhã seguinte, perguntou Heli a Samuel: “Que te disse o Senhor? Peço-te que nada me ocultes!” Samuel contou-lhe tudo. Heli respondeu: “Ele é o Senhor, faça-se a sua vontade!”

4. Castigo de Deus. - Pouco tempo depois, os filisteus atacaram os israelitas, que foram derrotados. Mandaram então buscar a arca da aliança, a fim de assim vencerem os inimigos. Vendo a arca, os israelitas rejubilaram. Apesar disso, foram vencedores os filisteus. Os israelitas perderam no combate 30 mil homens. Os dois filhos de Heli também foram encontrados entre os mortos e a própria arca da aliança caiu nas mãos dos inimigos. Um mensageiro trouxe a Heli esta triste notícia. Logo que ele falou da arca de Deus, Heli, desmaiado, caiu da cadeira para trás, partiu a nuca e morreu. Os filisteus transportaram a arca a Azot, para o templo de seu deus Dagão. O ídolo, porém, à vista da arca, ruiu por terra e sobrevieram a todo o país grandes castigos. Os filisteus ficaram amedrontados. Obedecendo ao conselho de seus sacerdotes e adivinhos, colocaram a arca no carro novo, puxado por dois animais, que foram diretamente para Betsamés, no país de Israel. Deus feriu de morte repentina muitos de seus habitantes, porque tinham olhado com curiosidade e sem reverência para a arca. Os levitas levaram-na depois para Cariatiarim e puseram-na em casa de Abinadab.

5. Salvação de Israel. — Após a morte de Heli, Samuel ficou sendo o juiz de Israel. Reuniu o povo e disse: “Se vos converterdes de todo o coração ao Senhor, ele vos libertará do poder dos filisteus”. Os israelitas jejuaram, confessando: “Pecamos contra o Senhor”. Samuel ofereceu sacrifícios pelo povo. Então o Senhor fez cair uma violenta tempestade, que espalhou a confusão entre os inimigos. Estes foram derrotados e não ousaram transpor a fronteira enquanto viveu Samuel.

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