História Sagrada - Do Antigo ao Novo Testamento (parte 2)

PARTE V - O TEMPO DOS REIS. DESDE SAUL ATÉ A DIVSÃO DO REINO DE ISRAEL

(1030 até 930 antes de Cristo)

47. Saul, primeiro rei de Israel

1. Israel pede um rei. - Quando Samuel envelheceu, constituiu a seus filhos juízes do povo de Israel. Eles, porém, não seguiram às normas do pai; deixavam-se subornar e falseavam a justiça. Por causa disso, os anciãos do povo vieram ter com Samuel, e disseram-lhe: “Dá-nos um rei, como o têm os outros povos!” O pedido desagradou a Samuel; mas o Senhor lhe disse: “Satisfaze o desejo deles, pois não é a ti que rejeitaram, mas a mim”

2. Unção de Saul. - Vivia nesse tempo um varão da tribo de Benjamim, chamado Saul. Não havia em todo Israel homem mais bem constituído do que ele; excedia em altura toda a assembleia. Num dia, em que as jumentas do pai tinham fugido, Saul foi-lhes à procura, acompanhado de um servo. Chegaram até a cidade, onde morava Samuel; Saul quis voltar, mas o criado lhe disse: “Aqui mora um homem de Deus; talvez ele saiba onde se acham as jumentas”. Entraram na cidade e Samuel veio a seu encontro; e logo que viu Saul o Senhor o advertiu: “Este é o homem escolhido para reinar sobre Israel”. Samuel dirigiu-se a Saul: “Não te preocupes por causa das jumentas, já foram encontradas. Para tua pessoa, porém, está reservado o melhor de quanto há em Israel”. Saul respondeu: “Acaso não pertenço eu à menor das tribos de Israel e não é minha família a última da tribo de Benjamim?” Mas Samuel tomou um frasco de óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul, e disse: “Por esta unção, o Senhor te consagra rei de seu povo, que hás de livrar do poder dos inimigos”. Em seguida Saul voltou para casa e nada revelou do que tinha acontecido. Desde aquele dia, o espírito do Senhor repousava em Saul. Tinha então 22 anos de idade.

3. Eleição de Saul pela sorte. - Tempos depois, Samuel convocou todas as tribos de Israel e disse: “Aproximai-vos por ordem de tribo e de família”. Ele consultou a sorte. Esta recaiu na tribo de Benjamim. Mandou aproximar-se essa tribo e desta vez a sorte designou a Saul. Não o encontraram entre os presentes e foram procurá-lo. Quando apareceu, Samuel o apresentou ao povo, dizendo: “Eis o que Deus escolheu! Não há, em todo o povo, quem seja igual a ele”. Todos, cheios de alegria, bradaram: “Viva o Rei!” Apenas alguns ímpios o desprezaram e disseram: “Porventura este nos salvará?” Mas Saul fazia como se não os ouvisse.

4. Vitória de Saul. - Um mês depois, os amonitas invadiram o país. Então o espírito do Senhor se apoderou de Saul, que convocou todo Israel ao combate. Os guerreiros apresentaram-se como se fossem um só homem. Saul surpreendeu com seu exército o acampamento inimigo e venceu completamente os amonitas. O povo, à vista da grande vitória, exclamou: “Quem são aqueles que disseram: Saul não reinará sobre nós? Queremos matá-los!” Saul, porém, interveio: “Hoje não se mata ninguém, pois o Senhor salvou Israel”.

48. Reprovação de Saul. Eleição de Davi

1. Saul desobedece. - Deus concedeu ainda a Saul muitas outras vitórias sobre os inimigos de Israel. Essas vitórias, porém, tornaram-no soberbo e desobediente a Deus. Um dia Samuel disse a Saul, em nome de Deus: “Vai castigar os amalecitas, passa-os todos ao fio da espada, sem poupar um só, e destrói tudo que lhes pertence”. Saul destroçou os amalequitas; poupou todavia Agag seu rei, e guardou para si os melhores rebanhos deles. Então Deus declarou a Samuel: “Sinto ter elevado Saul ao trono real, porque não cumpriu minhas ordens”.

2. Saul é reprovado. - Samuel saiu ao encontro de Saul e perguntou-lhe: “Porque não obedeceste ao Senhor?” Saul respondeu: “Obedecer ao Senhor: aprisionei Agag e matei todos os amalecitas. mas o povo poupou os melhores animais dos rebanhos para oferecê-los em sacrifício ao Senhor”. Replicou-lhe Samuel: “A obediência vale mais do que o sacrifício. Porque tu desprezaste as ordens do Senhor, também o Senhor te desprezou; não reinarás sobre Israel! Ele dará teu reino a outro melhor do que tu!” Ditas estas palavras, Samuel retirou-se muito triste. Daí por diante não viu mais Saul.

3. Sagração de Davi. - O Senhor disse a Samuel: “Até quando andarás triste por causa de Saul? Enche de óleo o vaso que levas e vai à casa de Isaí, em Belém. Escolhi um de seus filhos para rei, em vez de Saul”. Samuel foi a Belém. Aí ofereceu ao Senhor um sacrifício, convidando para ele Isaí e seus filhos. Vendo entrar o filho mais velho, perguntou a Deus: “É este o que colheste?” O Senhor lhe respondeu: “Não olhes a beleza da estatura, não foi este que escolhi. Os homens julgam pela aparência, mas Deus olha para o coração”. Isaí apresentou-lhe, um após o outro, seus seis filhos. Samuel lhe disse: “A nenhum destes o Senhor escolheu! São estes os teus filhos todos?” Respondeu Isaí: “Ainda resta Davi, que é o mais moço e está guardando as ovelhas”. Samuel disse: “Manda chamá-lo!” Quando Davi se aproximou, disse o Senhor a Samuel: “Levanta-te e unge-o, pois este é o escolhido”. Tomou então Samuel o chifre de óleo e ungiu Davi na presença de seus irmãos. Desde este momento, o espírito do Senhor abandonou Saul e transfundiu-se em Davi.

4. Davi na corte de Saul. - Saul era atormentado por um espírito mau, que o fazia cair em profunda tristeza. Por isso, seus criados lhe disseram: “Vamos procurar um homem que saiba tocar harpa; ele tocará em tua presença e ficarás aliviado!” Um dos criados informou: “Conheço Davi, filho de Isaí, que toca perfeitamente esse instrumento. É um rapaz valente, de bela figura e querido do Senhor”. Saul mandou buscá-lo. Gostou tanto dele que o nomeou seu escudeiro. Todas as vezes que o espírito mau atormentava o rei, Davi tocava harpa e Saul ficava aliviado. Saul, porém, ignorava que Davi tivesse sido sagrado rei.

49. Davi vence a Golias

1. Provocação de Golias. - Os filisteus, entretanto, tinham reaberto a guerra contra os israelitas e ocuparam o alto de uma montanha. Saul reuniu um exército e acampou na montanha fronteira. Entre os dois exércitos ficava um vale. Do acampamento dos filisteus saiu então um gigante, chamado Golias, que tinha seis côvados e um palmo de altura. Trazia na cabeça um capacete de metal; sua cota de malha, as perneiras e o escudo que lhe protegia os ombros, eram de pesado bronze. O cabo de sua lança era como de um rolo de tear. Assim armado, provocava o exército dos israelitas gritando: “Escolhei dentre vós um homem que venha com bater comigo! Se ele me matar, seremos vossos servos; mas, se eu o matar, sereis nossos servos!” De manhã e de tarde, durante 40 dias, o filisteu repetiu seu desafio, mas ninguém se atreveu a aceitar a luta. Saul e todo o povo de Israel estavam possuídos de grande temor.

2. Davi confia em Deus. - Logo no princípio da guerra, Davi teve de voltar para Belém. Foi apascentar o rebanho do pai, porquanto três irmãos mais velhos se achavam incorporados ao exército de Saul. Disse-lhe um dia o pai: “Leva pão a teus irmãos e vê como eles passam!” Quando chegou ao acampamento e ouviu o insulto de Golias, exclamou: “Quem é este filisteu que assim ousa insultar o exército de Deus vivo?” Em seguida foi ter com Saul e disse: “Eu, teu servo, vou pelejar contra o filisteu”. Saul observou-lhe: “Não podes pelejar contra o filisteu, porque és uma criança; ele, pelo contrário, é um guerreiro feito e amestrado nas armas desde sua mocidade”. Davi respondeu: “Teu servo guardava o rebanho de seu pai; quando se aproximava algum leão ou o urso e arrebatava-lhe um cordeiro, ia atrás dele, arrancava-lhe a presa eu matava. Melhor não será a sorte deste filisteu, pois o Senhor, que me salvou das garras desses animais, defender-me-á também dos golpes do filisteu!” Disse-lhe Saul: “Vai, meu filho; o Senhor está contigo!”

3. Vitória de Davi. - Saul mandou que Davi vestisse sua própria armadura. Mas foi impossível ao pobre pequeno pastor mover-se com tal peso. Largou as armas, empunhou seu cajado de pastor, apanhou no leito do rio cinco pedras bem lisas e meteu-as surrão. Com a funda na mão, dirigiu-se, em seguida, para o filisteu. Quando o Golias viu-o chegar, gritou com desprezo: “Sou, porventura, um cão, para que venhas contra mim armado de um bordão? Aproxima-te, que darei a comer tua carne às aves do céu!” Davi respondeu: “Tu vens a mim armado de espada, lança e escudo; eu, porém, venho em nome do Senhor dos exércitos”. Quando o filisteu avançou, Davi meteu rapidamente uma pedra na funda, fê-la girar e arremessou-a contra ele; a pedra acertou na fronte do gigante tão de rijo que abriu uma brecha. Golias, amortecido pela força da pedrada, tombou logo de bruços no chão. Davi, então, soltou sobre ele, tirou-lhe a espada e cortou-lhe a cabeça. Vendo os filisteus que seu mais valente soldado estava morto, deitaram a fugir. Os israelitas, gritando vitória, correram em sua perseguição; mataram muitos e saquearam o acampamento.

50. Ódio de Saul. Magnanimidade de Davi

1. Ódio de Saul. - Depois da vitória sobre os filisteus, Saul regressou com seu exército. Por toda parte as mulheres lhe vinham ao encontro cantando: “Saul matou mil, mas Davi matou dez mil”. Esta preferência irritou Saul, que disse: “Deram 10.000 a Davi e a mim só mil; que lhe falta senão o reino?” Desde esse dia, Saul tornou-se invejoso da glória de Davi e não o olhava com bons olhos. Pouco tempo depois, quando Davi tocava a harpa na presença do rei, Saul, por duas vezes, atirou contra ele sua lança, tentando prega-lo à parede; Davi, porém, esquivou-se aos golpes e nada sofreu. Jônatas, filho de Saul, amava muito a Davi. Esforçou-se para reconciliar seu pai com Davi. Saul, porém, encolerizou-se ainda mais e persistiu em matar Davi. Jônatas, por isso, avisou o amigo do perigo que corria, e Davi fugiu para o deserto, como alguns companheiros fiéis. Jônatas separou-se dele chorando: “Vai em paz - lhe disse - o que juramos em nome do Senhor, nós o cumpriremos!”

2. Magnanimidade de Davi. - Logo que Saul soube da fuga de Davi, perseguiu-o com 3. 000 homens. Certa noite, enquanto dormiam o general de Saul e seus guerreiros, Davi penetrou silenciosamente, com seu escudeiro Abisaí, no acampamento do rei. Entrou na própria tenda de Saul, que também dormia. Disse então Abisaí a Davi: “Hoje entregou Deus teu inimigo em tuas mãos; quero atravessá-lo com a lança”. Mas Davi replicou: “Não o mates! Quem estenderá sua mão, sem culpa, contra o ungido do Senhor?” Tomaram somente a lança e a taça do rei e retiraram-se, sem serem percebidos. Davi colocou-se no alto de um monte e bradou ao general de Saul: “Por que não guardaste melhor o rei, teu Senhor? Ora vê: onde estão sua lança e sua taça?” Saul reconheceu a voz de Davi e disse: “Pequei; volta, meu filho Davi! Não te farei mal algum, pois hoje poupaste-me a vida”. Davi, porém, continuou seu caminho e Saul voltou para casa.

51. Morte de Saul. Princípio do Reinado de Davi

1. Morte de Saul. - Os filisteus recomeçaram, no entanto, suas hostilidades contra Israel. Travou-se grande combate nos altos de Gelboé. Os israelitas foram derrotados; morreram muitos e, entre eles, Jônatas e dois de seus irmãos. O próprio Saul ficou gravemente ferido e pediu a seu escudeiro: “Desembainha a espada e acaba de matar-me” Hesitando escudeiro, Saul precipitou-se sobre sua própria espada e morreu. Ao receber a notícia de tão grandes desgraças Davi rasgou seus vestidos em sinal de dor e exclamou por entre lágrimas: “Montes de Gelboé, nunca mais desça sobre vós nem chuva nem orvalho já que lá pereceram os heróis de Israel! Ó Jônatas, meu irmão querido! Tu que eras as delícias de meu coração! Ah! Eu te amei como uma mãe a seu filho único”

2. Davi é proclamado rei. - Por ordem de Deus, foi Davi para Hebron. Os homens da tribo de Judá reconheceram-no como seu rei e deram-lhe a unção régia. Tinha nesse tempo trinta anos de idade. Viu-se obrigado a combater durante 7 anos os partidários de Saul e só depois da morte dos chefes desta facção vieram os anciãos das outras tribos de Israel para procurar Davi para o reconhecerem seu rei. À frente de seus guerreiros, marchou sobre Jerusalém e tomou de assalto a fortaleza de Sião. Escolheu essa cidade para sua residência e chamou-lhe a cidade de Davi. Daí empreendeu guerra contra as nações pagãs e Deus lhe deu a vitória sobre os inimigos.

52. Davi, o rei piedoso

1. A Arca da aliança é transportada para Sião. - A arca de Deus achava-se ainda em Cariatiarim, em casa de Abinadab. Davi mandou construir sobre o monte de Sião um suntuoso tabernáculo e foi buscar a arca com um cortejo de 30 mil homens. Foi colocada num carro novo, guiado por Oza, filho de Abinadab. No caminho espantaram-se os bois e a arca inclinou-se. Oza estendeu a mão sem o devido respeito, para sustentá-la, e caiu ferido de morte. Assustado, Davi mandou depositar a arca em casa de Obdedão, onde ficou três meses. Tendo Deus abençoado esse homem e toda a sua casa, Davi convidou todo Israel, a fim de transportar a arca para Jerusalém. Os sacerdotes carregaram-na e ofereciam, de seis em seis passos, um touro e um cordeiro em sacrifício. O próprio Davi marchava à frente dos sacerdotes, tocando harpa. Músicos e cantores o acompanhavam. O povo rejubilou, louvando ao Senhor. Assim foi transportada a arca e deposta no novo tabernáculo.

2. Organização do culto divino. - Davi depois organizou o serviço do culto no tabernáculo do Senhor. Distribuiu os sacerdotes em 24 classes, encarregando-as do serviço divino, cada uma por sua vez durante uma semana. Os levitas formavam também 24 classes; 4.000 levitas deviam executar cânticos sagrados e acompanhá-los com instrumentos. Esses cantos têm o nome de salmos e foram compostos, em sua maioria, pelo próprio Rei Davi.

3. Projeto de construção de um templo. - Davi propunha-se também a construir um templo ao Senhor. Disse o profeta Natan: “Estou morando numa casa de cedro, enquanto a arca de Deus está abrigada debaixo de umas peles!” Deus, porém, não quis que Davi construísse uma casa, por que sua mão tinha derramado muito sangue. Mandou-lhe dizer pelo profeta Natã: “Não serás tu que me construirás uma casa, mas, sim, teu filho. Firmarei seu trono para sempre!”

53. Crime e arrependimento de Davi

1. Crime de Davi. - Em certa primavera, Davi tinha enviado o general Joab, com todo o exército, contra os amonitas, ficando ele em Jerusalém. Um dia, passeando ocioso no terraço de seu palácio, viu Betsabé, mulher de Urias, oficial que estava então na guerra. Mandou chamá-la e a introduziu à infidelidade contra o marido. Escreveu depois a Joab: “Coloca Urias no lugar mais perigoso da Batalha; é preciso que ele morra”. Joab cumpriu a ordem criminosa e Urias pereceu. Davi casou-se então com Betsabé. Esse ato de Davi desagradou ao Senhor.

2. Natã repreende Davi. - Por ordem de Deus, o profeta Natan foi ter com Davi e disse-lhe: “Numa cidade havia dois homens, um rico e outro pobre. O rico possuía ovelhas e bois em grande quantidade; o pobre tinha uma só ovelhinha. Criara-se em sua casa no meio de seus filhos, comia de seu pão, bebia de seu copo e dormia em seu regaço; ele lhe queria bem, como à sua filha. Um dia chegou um hóspede bem rico e este, para poupar seus bois e suas ovelhas, apossou-se da ovelhinha do pobre, mandou-a matar e deu-a ao visitante para comer”. Profundamente comovido, Davi exclamou: “Viva Deus! O homem que fez isto morrerá!” Natã replicou: “Esse homem mau és tu! Mandaste matar Urias e tomaste-lhe a mulher. Em castigo dessa má ação, graves desgraça hão de afligir tua família e de tua própria casa sairá o mal contra ti”.

3. Penitência de Davi. - Disse então Davi: “Pequei contra o Senhor!” Natã replicou: “Já que te arrependes, o Senhor perdoa o pecado. Mas teu filho morrerá!” O menino, atacado de uma grande doença, faleceu sete dias após: Davi aceitou o castigo com resignação e até sua morte não deixou de deplorar suas culpas. De Betsabé nasceu-lhe outro filho, a quem chamou Salomão. Deus amava Salomão e deu-lhe, por intermédio de Natã, o nome de predileto do Senhor!

54. Revolta e castigo de Absalão

1. Revolta de Absalão. - Davi tinha um filho chamado Absalão. Era o homem mais famoso de todos Israel; sua conformação a era perfeita, desde a planta dos pés ao cimo da cabeça. Tornou-se, por isso, orgulhoso e quis suplantar o pai. Mandou construir carros para si, dispunha de cavaleiros e de 50 homens de guarda. Assentado à porta da cidade, dizia aos que vinham pedir justiça: “Tua causa é boa; mas o rei não delegou ninguém para te defender. Ah! se eu fosse juiz, todos os cidadãos teriam seu direito defendido”. Quando alguém o saudava, ele estendia-lhe a mão, abraçando-o e beijando-o; aliciava assim, por meio da lisonja, muitos corações de Israel. Um dia, declarou a Davi: “Quero ir a Hebron, para cumprir uma promessa!” Davi lhe respondeu: “Vai em paz!” Absalão partiu para Hebron, organizando aí uma rebelião contra o rei; muitos acreditaram em suas palavras de adulador e o aclamaram rei. Constituiu um grande exército e, à frente do mesmo, se dirigiu contra Jerusalém, para depor do trono de seu pai.

2. Davi foge. - Um mensageiro correu a anunciar a Davi: “Israel segue unanimemente o partido de Absalão!” Davi disse a seus servos fiéis: “Levantai-vos e fujamos, porque não podemos escapar às mãos de Absalão! Apressai-vos, para que não nos apanhe e mande passar a fio de espada a cidade!” Atravessou a torre de Cedron e subiu, chorando e descalço, o monte das Oliveiras; dirigiu-se daí para o outro lado do rio Jordão. Em caminho encontrou um parente de Saul, chamado Semei, que começou a atirar pedras contra Davi e a maldizê-lo, gritando: “Fora, fora, homem sanguinário!” Então disse o irmão de Joab: “Quereis que vá cortar-lhe a cabeça?” Davi, porém, replicou: “Deixarei-o maldizer, porque Deus assim o permitiu. Talvez o Senhor considere minha aflição e recompense os males que hoje sofro”.

3. Castigo de Absalão. - Absalão entrou com seu exército em Jerusalém; depois perseguiu o pai, mas também este pôde reunir um pequeno exército, composto de homens fiéis e corajosos. Perante todos, recomendou a Joab e aos outros comandantes de tropas: “Conservai vivo meu filho Absalão!” Houve combate e o exército de Absalão foi desbaratado; ele próprio fugiu, montado em uma mula. Passando, em sua carreira, debaixo de um copado de carvalho, sua cabeleira se embaraçou nos galhos da árvore, ficando suspenso ao ar, ao passo que o animal continuava a correr. Os soldados relataram esse fato a Joab; este tomou três lanças e cravou-as no peito do malvado Absalão. Sepultaram o cadáver num buraco e cobriram-no com um montão de pedras.

4. Davi chora seu filho. - Um mensageiro levou a Davi a notícia do feliz êxito da batalha. O rei perguntou logo: “Absalão também está salvo?” O mensageiro respondeu: “Suceda a todos os inimigos de meu rei o que sucedeu a esse rapaz!” Davi, transpassado de dor, repetia, chorando: “Meu filho Absalão! Absalão, meu filho! Oxalá tivesse eu morrido em teu lugar. Absalão, meu filho! meu filho Absalão! Davi regressou depois a Jerusalém. Todas as tribos de Israel vieram apresentar-lhe homenagens e tornaram a reconhecê-lo como seu rei. Perdoou generosamente a Semei e a todos os outros que se tinham contra ele.

55. Profecias de Davi sobre o Redentor

Davi não era somente um rei poderoso: era também um grande profeta. Em seu livro de salmos anuncia claramente a divindade, os sofrimentos, a ressurreição, a ascensão e a realeza do Messias.

a) Adoração pelos reis do Oriente. - Os reis de Társis e das ilhas oferecer-lhe-ão dons, os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão presentes (Sl 71, 19).
b) Paixão do Redentor. - Deus, Deus meu, olha para mim. Por que me desamparaste? (Sl 21, 7). Eu sou verme e não homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe (Sl 21, 7). Todos aqueles que me viam, escarneciam de mim, falavam com os lábios e meneavam a cabeça. Esperou no Senhor, livre-o, salve-o, se é que o ama (Sl 21,8). Transpassaram minhas mãos e meus pés, contaram todos os meus ossos (Sl 21, 17). Repartiram entre si meus vestidos e lançaram sorte sobre minha túnica (Sl 21, 19).
c) Ressurreição. - Porque não deixarás minha alma no inferno, nem permitirás que teu santo veja a corrupção (Sl 15,10).
d) Ascensão. - Subiste ao alto, fizeste escrava a escravidão, recebeste dons para distribuíres aos homens (Sl 67, 19). Recitai salmos a Deus, que subiu a todos os céus, da parte do oriente (Sl 67, 34).
e) Divindade. - Disse o Senhor a meu Senhor: “Senta-te à minha direita; até que ponha a teus inimigos como escabelo de teus pés” (Sl 109, 1).
f) Reino do Redentor. - E dominará de mar a mar e desde o rio aos confins da redondeza da terra (Sl 71, 8).

56. Últimas exortações de Davi. Sua morte

1. Exortações de Davi. - Chegado ao termo de sua vida, Davi mandou dar a unção real a seu filho Salomão. Depois convocou os príncipes e nobres de seu reino e disse-lhes: “Guardai todos os mandamentos do Senhor! E tu, meu filho Salomão, por tua parte, serve a Deus de boa vontade, pois o Senhor perscruta todos os corações e penetra todos os pensamentos da alma. Se o procurares, encontrá-lo-ás; se o abandonares, ele te condenará para sempre. Eu tinha intenção de edificar uma casa para o Senhor e preparei tudo quanto era necessário. O Senhor, porém, me disse: Tu não me edificarás o templo, porque és homem de guerra e derramaste sangue. Edificá-lo-á teu filho Salomão, que eu escolhi para isso; ele será meu filho e eu serei para ele um pai. Se perseverar em meus mandamentos, consolidarei sua realeza para sempre”. Entregou depois a Salomão uma planta do futuro templo, dizendo: “Assim foi traçado pela mão de Deus em meu coração!” Disse finalmente a toda a assembléia: “A empresa é grande, pois não se trata de preparar a habitação de um homem, mas sim a de Deus. Enchei também, portanto, de dádivas vossas mãos para oferecê-las ao Senhor!” E todos ofereceram generosamente objetos valiosos. Davi alegrou-se e louvou a Deus, em união com toda assembéia.

2. Morte de Davi. - Davi faleceu, após um reinado de 40 anos. Foi sepultado na cidade de Davi. Seu filho Salomão ocupou, com dezoito anos apenas, o trono de Israel.

57. Oração e sabedoria de Salomão.

1. Oração de Salomão. - Salomão amava o Senhor e seguiu docilmente as instruções de seu pai. Uma noite o Senhor apareceu-lhe em sonho, dizendo: “Pede-me o que quiseres”. Salomão respondeu: “Fizeste-me rei de teu povo; mas eu ainda sou moço e sem experiência. Dá-me um coração dócil, a fim de que eu saiba governar teu povo e discernir entre o bem e o mal”. Essa oração agradou muito ao Senhor, que disse: “Já que não pedes vida longa, nem riquezas, nem a ruína de teus inimigos, mas apenas sabedoria, satisfarei o teu desejo e dar-te-ei um coração sábio e prudente como ainda nenhum rei possui antes de ti, nem outro o terá depois. Além disso, conceder-te-ei o que me não pediste: honras e riquezas. E, se observares meu mandamentos como teu pai os guardou, dar-te-ei também longa vida”.

2. Sabedoria de Salomão. - Certo dia, duas mulheres compareceram perante o rei. Uma disse: “Eu e esta mulher morávamos sós na mesma casa. Uma noite morreu seu filho, porque ela o abafou dormindo; levantou-se, durante meu sono, tirou meu filho e pôs no lugar dele a criança morta. De manhã, ao acordar, encontrei este a meu lado; mas, reparando bem quando clareou o dia, vi que não era meu filho”. A outra mulher interrompeu-a, dizendo: “Não foi assim como tu dizes; meu filho é que está vivo, o teu morreu”. A primeira replicou: “Estás mentindo! Meu filho vive; é o teu que está morto!” Assim brigavam as duas mulheres na presença do rei. Salomão ordenou: “Trazei uma espada!” E depois: “Cortai ao meio a criança viva e dai a metade a cada mulher”. Ao ouvir estas palavras, uma das mulheres sentiu o coração traspassado de dor e exclamou: “Por favor, ó rei, não mates a pobre criança; é preferível entregá-la viva àquela mulher”. Ao contrário, a outra mulher gritava: “Nem para mim nem para ti: Faça-se a partilha”. Então o rei sentenciou: “Dai à primeira destas mulheres a criança viva, porque ela é sua verdadeira mãe”

58. Construção e dedicação do templo

(1000 anos antes de Cristo)

1. Construção do templo. - No quarto ano de seu reinado, começou Salomão a construir um templo ao Senhor. Hirã, rei de Tiro, mandou-lhe hábeis artífices e o presenteou com tantos cedros do Líbano quantos desejou. Mais de 200.000 operários foram empregados para Jerusalém. O templo foi construído no monte Mória e como os materiais vinham aparelhados, não se ouvia durante a construção barulho de formão nem pancada de martelo. O teto e as paredes no interior do templo eram forradas de madeira de cedro dourada, sobre a qual estavam esculpidos querubins, palmas e flores variadas. Mesmo o pavimento era coberto de lâminas de ouro.

2. Descrição do templo. - O templo tinha 60 côvados de comprimento, 29 de largura e 30 de altura. Sua construção foi orientada pelo modelo do primitivo tabernáculo, tendo como este um átrio, um santo e um santo dos santos. No santo dos santos estava a arca da aliança. Ladeavam-na de dois querubins dourados, feitos de madeira de oliveira; suas asas abertas se tocavam por cima do propiciatório. No santo, que tinha 40 côvados de comprimento, via-se ao meio o altar dos perfumes. Em cada lado se achavam 5 mesas para os pães de proposição e 5 candelabros de 7 ramos; todos eram de ouro fino. Em roda do templo corriam dois átrios; um, no interior, reservado aos sacerdotes; outro, no exterior, para o povo. No átrio dos sacerdotes achava-se o altar dos holocaustos e a grande bacia, destinada às abluções dos sacerdotes, chamada “mar de bronze” (Capacidade de 480 hl).

3. Dedicação do templo. - No fim de 7 anos estava acabada a construção. Salomão convocou os príncipes e anciãos do povo para sua solene dedicação. Para essa solenidade escolheu a festa dos tabernáculos; os sacerdotes, em pomposo cortejo, transportaram a arca para o templo, colocando-a debaixo das asas dos querubins. Os levitas tocavam trombetas. E todos elevaram a voz e cantaram: “Louvai ao Senhor, porque é bom e sua misericórdia dura eternamente”. Logo que a arca chegou ao templo, uma nuvem envolveu a casa do Senhor. Salomão prostrou-se diante do altar dos holocaustos e, levantando as mãos para o céu, orou: “Senhor, Deus de Israel! O céu dos céus não vos pode conter; quanto mais esta casa que edifiquei! Rogo-vos, porém: quanto mais esta casa que edifiquei! Rogo-vos, porém: lançai sobre ela um olhar de misericórdia e ouvi todos aqueles que neste lugar onde orarem e sede-lhes propício. Quando vier para vosso povo fome, peste, guerra ou qualquer calamidade, e ele vos estender as mãos nesta casa, vós o ouvireis do céu o lugar de vossa morada”. Desceu então fogo do céu e consumiu as vítimas. Todos os israelitas, prostrados com o rosto em terra, adoraram o Senhor. Depois disto, apareceu o Senhor, outra vez, a Salomão, e disse-lhe: “Ouvi tua oração e escolhi esta casa para meu santuário. Meus olhos e meus ouvidos estarão sempre atentos a todos aqueles que aqui fizerem suas orações”

59. Glória e morte de Salomão

1. Riqueza e poder de Salomão. - Salomão construiu também para si um suntuoso palácio. O trono real, todo de marfim marchetado de ouro, era de tal beleza e preciosidade que não se igualava a nenhum no mundo. Os móveis, a baixela e outros utensílios domésticos eram de ouro finíssimo. Seus navios traziam dos países longínquos o ouros e os mais preciosos objetos de todas as espécies. Governava Salomão todos os povos que habitavam desde o rio Eufrates até às fronteiras do Egito. Viveu em paz com todas as nações vizinhas e cada israelita morava tranquilamente à sombra de suas vinhas e figueiras. Deste modo o rei excedia em riqueza a todos os reis da terra.

2. Fama de Salomão. - Salomão era também o mais sábio de todos os homens. Dissertava sobre todas as plantas e animais da terra e sua inteligência abrangia toda a natureza. O número dos cânticos que ele compôs é de 1005 e o dos provérbios 3000. Por isso, sábios e príncipes de todas as nações tinham desejo de conhecê-lo e admirar sua sabedoria; mesmo a rainha de Sabá veio de propósito de muito longe, a Jerusalém: quando viu a magnificência de todas as coisas e ouviu as palavras do rei, exclamou cheia de admiração: “Tua sabedoria e tuas obras são maiores do que a fama que chegou a meus ouvidos. Felizes teus súditos, que estão sempre perto de ti, ouvindo os primores de tua sabedoria!”

3. Declínio e últimos anos de Salomão. - Quando Salomão envelheceu, deixou que mulheres pagãs lhe corrompessem o coração. Estas o levaram à idolatria, a ponto de edificar templos a Moloc e a outros ídolos seus. Irritado, o Senhor mandou dizer-lhe: “Porque transgrediste meus mandamentos, darei teu reino a um de teus servos. Deixarei, todavia, uma parte para teu filho, em consideração de meu servo Davi” Ainda em vida de Salomão, irrompeu uma revolta entre o povo, porque o rei o oprimia com pesados tributos. Faleceu no meio dessas aflições, depois de ter reinado durante 40 anos.

60. Divisão do reino

1. Separação das 10 tribos. - Após a morte de Salomão, os chefes das tribos vieram procurar Roboão, seu filho, e disseram-lhe: “Teu pai nos sobrecarregou de tributos muito pesados. Alivia um pouco esse fardo e servir-te-emos”. Roboão respondeu: “Voltai daqui a três dias!” Em em seguida consultou os velhos conselheiros de seu pai, os quais lhe disseram: “Se tu agora atenderes ao pedido do povo e usares de palavras benignas, ele ficará sendo teu servo para sempre”. Mas Roboão desprezou este conselho e seguiu o dos moços que conviviam com ele, respondendo ao povo: “Meu pai vos impôs um jugo pesado e eu tornarei ainda mais pesado; meu pai vos castigou com correias e eu hei de açoitar-vos com escorpiões”. Então o povo exasperou-se e disse: “Que nos importa Roboão?” E logo dez tribos proclamaram rei a Jeroboão, um dos principais servidores de Salomão. Somente as duas tribos de Judá e Benjamin permaneceram fiéis a Roboão. Desde então o povo hebraico ficou dividido em dois reinos.

2. Os reinos de Israel e de Judá. - O reino constituído pelas dez tribos tomou o nome de Israel e as duas tribos restantes formaram o reino de Judá. O reino de Israel teve por capital Siquém e mais tarde Samaria; a capital de Judá ficou sendo Jerusalém. Os dois reinos viveram quase sempre em guerra um contra o outro; seus reis, na maioria, foram maus, e entregavam-se à idolatria. Arrastaram também o povo ao culto dos ídolos e a todas as espécies de vícios. Para corrigir e melhorar os reis e o povo, Deus enviou-lhes profetas, que pregavam a penitência, anunciavam castigos iminentes e produziam muitos traços de vida do Salvador. Deus fez muitos milagres por seu intermédio, comprovando assim sua missão divina.

PARTE VI - DESDE A DIVISÃO DO REINO ATÉ AO CATIVEIRO DE BABILÔNIA

(930 até 587 antes de Cristo)

A - O REINO DE ISRAEL

(930 até 722 antes de Cristo)

61. Jeroboão

1. Jeroboão perverteu o seu povo. - O rei Jeroboão refletiu intensamente: “Se o povo foi ao templo de Jerusalém, para lá oferecer sacrifícios ao Senhor, voltará para roboão e me abandonará”. Para impedir isto, mandou erigir dois bezerros de ouro, um em Betel, outro em Dan. Depois disse ao povo: “Eis aqui os deuses que vos libertaram do Egito. Não torneis mais a ir a Jerusalém”. Ele mesmo foi ao altar do bezerro em Betel e ofereceu sacrifícios, induzindo assim um povo à idolatria.

2. Castigo de Jeroboão. - À vista de tais crimes, Deus enviou a Jeroboão um profeta, que o advertiu: “Porque fizeste deuses falsos e me rejeitaste, mandarei graves males sobre tua casa e a exterminarei”. Assim aconteceu. Pouco tempo depois, toda a casa de Jeroboão tinha desaparecido.

62. O profeta Elias

1. Elias e acab. - Acab foi um dos reis mais depravados de Israel. Tomou por esposa uma mulher pagã chamada Jezabel, e erigiu um templo ao deus Baal. Mandou matar os sacerdotes do Senhor e chamou para seu país 450 sacerdotes de Baal. Por ordem de Deus, o profeta Elias apresentou-se diante do rei e disse-lhe: “Tão certo como Deus existe, não haverá orvalho nem chuva em Israel enquanto eu não mandar!” Irritou-se Acab por causa dessas palavras e atentou contra a vida de Elias.

2. Elias na torrente de Carit. - O Senhor ordenou a Elias: “vai esconde-te nas margens do Carit. Beberás da água da torrente e os corvos levar-te-ão alimento”. Elias obedeceu-lhe. Bebia da torrente e todos os dias, de manhã e de tarde, os corvos lhe traziam pão e carne. Algum tempo depois, porém, a torrente secou. O Senhor disse então ao profeta: “Vai a Sarepta, no país dos sidônios, porque dei ordem aí a uma viúva que te sustentasse”.

3. Elias em Sarepta. - Elias pôs-se a caminho. Às portas da cidade encontrou uma viúva que ajuntava gravetos. Pediu-lhe a água para beber e um pedaço de pão. A viúva replicou: “Tão certo como existe Deus, não tenho pão, mas apenas um punhado de farinha num vaso e um pouco de óleo eu na ânfora. Estou juntando alguns gravetos; irei depois preparar esse pouco para mim e meu filho; e em seguida esperaremos a morte!” Elias animou-a: “Não tenhas receio! Prepara-me, primeiramente, com a farinha, um pequeno bolo, e depois cozinharás para ti e teu filho. Porque assim ou prometeu o Senhor: A farinha do vaso não se acabará e o azeite da ânfora não diminuirá até ao dia que o senhor enviar chuva à terra”. Ela fez o que Elias mandara. Desde esse dia, a farinha não diminuiu no vaso e a ânfora de óleo nunca mais se esvaziou. Algum tempo depois, o filho da viúva adoeceu e morreu. Elias implorou ao Senhor: “Deixai que a alma deste menino volte ao corpo!” O Senhor ouviu sua súplica, e o menino ressuscitou. Diz então a mulher ao profeta: “Agora conheço que és um homem de Deus e que a palavra do senhor está em tua boca”

63. O sacrifício de Elias

1. Proposta de Elias. - Já havia passado três anos e seis meses sem que caísse uma gota de chuva. Então disse o Senhor a Elias: “Vai apresentar-te a Acab, pois vou de novo derramar chuva sobre a terra”. Elias foi e disse a Acab: “Reúne todo o povo de Israel e os sacerdotes de Baal no Monte Carmelo!” Acab assim procedeu e ele mesmo subiu ao monte. Quando todos se achavam reunidos, Elias falou ao povo: “Até quando vacilareis para os dois lados? Se o senhor é o verdadeiro Deus, adorai-o; se é Baal, segui o seu culto”. O povo não respondeu uma só palavra. Elias continuou: “Dêem-me dois bois! Os sacerdotes de Baal escolherão um, reparti-lo-ão em postas, dispô-lo-ão sobre o altar, mas sem meter fogo debaixo. Eu tomarei o outro boi, colocá-lo-ei sobre a lenha, mas também não hei de atear fogo. Em seguida invocareis vossos deuses e eu invocarei o nome do meu Senhor. Aquele Deus que enviar fogo do céu para consumir o sacrifício será o verdadeiro”. Todos aprovaram: “A proposta é excelente!”

2. Dois sacrifícios. - Os sacerdotes de Baal trouxeram um boi, imolaram-no e puseram a carne sobre o altar. Depois dançaram ao redor, clamando desde a manhã até ao meio-dia: “Baal, ouvi-nos”. Mas ninguém lhes respondeu. O profeta zombava deles, dizendo: “Gritai mais alto! Baal talvez esteja conversando, ou almoçando; talvez ande viajando ou esteja dormindo. Gritai para acordá-lo”. Eles gritavam cada vez mais alto, fazia um em si incisões, em honra de seu deus, até ficarem cobertos de sangue. Mas a resposta não chegava nunca. De tarde, disse Elias ao povo: “Vinde comigo”. Tomou 12 pedras, erigiu com elas no altar, fez um rego ao redor, retalhou o boi e colocou as postas sobre a lenha. Mandou em seguida derramar tanta água sobre a vítima e a lenha, que eu rego se encheu. Depois que levou as mãos ao céu e orou: “Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, mostrai hoje que sois o verdadeiro Deus e eu vosso servo. Ouvir minha oração!” No mesmo instante caiu fogo do céu e consumiu o holocausto, a lenha e as pedras: chegou a secar até a água que estava no rego. Vendo esse milagre, o povo prostrou-se em terra e exclamou: “Só o Senhor é Deus! Só o Senhor é o verdadeiro Deus!”

3. A chuva. - Elias mandou matar todos os sacerdotes de Baal. Depois subiu ao monte Carmelo e, inclinando-se por terra, orou. Levantou-se então do outro lado do mar uma tênue nuvenzinha, que foi crescendo progressivamente. Dentro em pouco, o céu escureceu e choveu copiosamente.

64. Aparição de Deus no monte Horebe

1. Elias foge. - Acab referiu a Jezabel tudo que Elias fizera. Esta enfureceu-se e ameaçou matar o profeta. Elias, receoso, fugiu para o deserto; deitou-se, fatigado, debaixo dum junipero e pediu a morte, porque se persuadiu que todos os israelitas tinham caído na idolatria. À sombra desta moita, adormeceu. Eis que o anjo do Senhor o tocou e lhe disse: “Levanta-te e come; porque ainda te resta fazer uma longa viagem”. Elias acordou review perto de si pão e água. Levantou-se, comeu e bebeu; e, fortalecido por este alimento, caminhou 40 dias e 40 noites, até ao monte Horeb. Aí escondeu-se numa caverna.

2. Deus lhe aparece. - certo dia ouvi uma voz que dizia: “Sobe o monte, pois o Senhor ali passará”. Levantou-se logo um turbilhão; entretanto, Deus não se achava nele. Em seguida um tremor abalou a terra; mas também neste não se encontrou o Senhor. Depois brilharam chamas; o Senhor, porém, não estava no fogo. Finalmente, apareceu-lhe o Senhor sob o sussurro do mar branda viração, e consolou-o: “Reservei para mim, em Israel, sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal. Por isso, volta e unge Eliseu, que será profeta em teu Lugar!”

3. Vocação de Eliseu. - Elias voltou. Encontrou Eliseu arando um campo com 12 juntas de bois. Elias atirou-lhe o manto sobre os ombros; imediatamente, Eliseu despediu-se de seus pais e seguiu a Elias.

65. A vinha de Nabot

1. Nabot é apedrejado. - Houve naquele tempo um homem chamado Nabot, que possuía uma vinha perto do palácio do rei. Acab propôs-lhe: “Cede-me tua vinha, pois quero aumentar com ela os jardins de meu palácio; dar-te-ei outra melhor ou, se preferes, pagar-te-ei o valor”. Nabot respondeu: “Deus me livre de vender a herança de meus pais!” Acab encolerizou-se, voltou para casa, e, atirando-se ao leito, despeitado, não quis comer. Jezabel aproximou-se dele, dizendo: “És em verdade um rei poderoso! Levanta-te e come. Vou já obter a vinha”. Em seguida escreveu, em nome de acabe, aos anciãos da cidade: “Convidai dois homens patifes que levantem falso testemunho contra Nabot e digam: Ele blasfemou contra Deus e contra o rei. Depois levai-o fora da cidade e mandai-o apedrejar”. Os anciãos cumpriram a ordem. Dois malvados realizaram o plano; o inocente foi apedrejado e os cães lamberam-lhe o sangue.

2. Acab e Jezabel são castigados. - Jezabel declarou a Acab: “Nabot está morto; toma posse de sua vinha”. Em caminho encontrou-se cara a cara com Elias, que lhe disse: “Mataste Nabot e usurpaste bens alheios; neste mesmo lugar onde os cães lamberam o sangue de Nabot, Lamberão também o teu que devorarão Jezabel”. Aconteceu o que Elias predissera. Três anos depois, Acab, mortalmente ferido numa batalha contra os sírios, foi trazido para casa em seu carro, falecendo à noite; quando levaram o carro, os cães vieram lamber o sangue. Jezabel, por ordem do novo rei, foi atirada à rua, da janela do palácio; o corpo foi esmagado pelas patas dos cavalos e os cães disputaram entre si os pedaços ensangüentados de seu cadáver.

66. Elevação de Elias ao céu

1. Elias é elevado ao céu. - Chegou a ocasião que Deus tinha determinado para retirar Elias da face da terra. Elias foi para Jericó em companhia de Eliseu e aí resolveu: “Fica aqui, pois Deus me enviou para o Jordão!” Mas Eliseu não se quis separar dele; e juntos prosseguiram até as margens do Jordão. Elias dobrou seu manto e com ele tocou nas águas, que se dividiram, podendo assim os dois ministros de Deus atravessar o rio a pé enxuto. Na margem oposta, disse Elias a seu discípulo: “Pede-me o que quiseres antes que seja afastado de ti”. Eliseu respondeu: “Peço que teu duplo poder, de milagre e profecia, se infunda em mim”. Elias respondeu: “Difícil coisa pediste; todavia, terás o que desejaste”. Enquanto continuavam seu caminho, apareceu um carro ardente, puxado por cavalos de fogo, sendo Elias arrebatado ao céu num turbilhão. Eliseu olhava e gritava: “Meu pai, meu pai! Eis o carro de Israel e seu condutor!”

2. Eliseu atravessa o rio Jordão. - quando Eliseu não viu mais o profeta, de dor rasgou as vestes; tomou o manto que Elias deixara cair e bateu com ele nas águas do Jordão, que ele é deram passagem. Vendo este milagre, os discípulos dos profetas disseram: “O espírito de Elias repousa em Eliseu”. Foram-lhe ao encontro e inclinaram-se diante dele, até o chão.

67. Milagres de Eliseu

1. Eliseu torna salubre a água. - Quando Eliseu veio a Jericó, disseram-lhe os habitantes: “Esta cidade é boa para morada, mas a água é insalubre” Elizeu respondeu: “Trazei-me um vaso novo com sal”. Trouxeram-lho. Ele foi a fonte e lançou nela o sal. As águas tornaram-se saudáveis.

2. Eliseu castiga o desrespeito. - De Jericó, Eliseu foi a Betel. Um bando de meninos pagãos pôs-se a gritar em tom de vaia: “Ó calvo, ó careca, sobe!” Voltou-se Eliseu e ameaçou-os em nome do Senhor. no mesmo instante dois ursos saíram do mato e dilaceraram 42 rapazes.

3. Eliseu cura um leproso. - Naamã, general do exército do sirius, estava atacado de lepra. Uma moça de Israel, ao serviço de sua mulher, sugeriu: “Se meu senhor fosse visitar o profeta, em samaria, ele o curaria!” ouvindo isto, Naamã foi a Samaria, com ricos presentes; seu carro parou a porta da casa de Eliseu. O Profeta mandou dizer-lhe pelo criado: “Vai lava-te sete vezes no Jordão e tua pele ficará limpa”. Naamã magoou-se com esta recepção, protestando: “Pensei que o profeta viesse ao meu encontro, invocando o nome de seu Deus, e me curasse. Porventura não são as águas dos rios da Síria melhores do que todas as de Israel?” Seus criados, porém, intervieram: “Pai, seu profeta tivesse ordenado alguma coisa difícil, fá-la-ias certamente; com muito maior razão, pois, deve seguir seu conselho, quando apenas te aconselhou: Lava-te e ficarás limpo!” Naamã desceu então para o Jordão, mergulhou nele sete vezes e ficou inteiramente curado. Depois voltou a Eliseu e disse-lhe: “Na verdade reconheço agora que em todo mundo não há outro Deus senão o Deus de Israel. Rogo-te que receba uma oferta deste teu servo”. Mas Eliseu não aceitou coisa alguma.

4. Eliseu castiga seu servo Giezi. - Quando Naamã ia já a alguma distância, o criado de Eliseu, chamado Giezi, correu ao encalço dele. O sírio, ao avistá-lo, desceu do carro e caminhou para ele. Giezi falou-lhe: “Meu amo manda dizer: Acabam de chegar dois discípulos de profetas: dá-lhes um talento de prata e dois vestidos de festa!” Naamã entregou-lhe dois talentos e dois vestidos. Giezi, voltando a casa, escondeu os presentes, apresentando-se depois a seu amo. Eliseu perguntou-lhe: “Donde vens, Giezi?* Este respondeu: “Teu servo, senhor, não saiu de casa”. Replicou-lhe Eliseu: “Acaso não estava presente em espírito, quando aquele homem desceu do carro e te saiu ao encontro? Tens agora dinheiro e vestidos; também a lepra de Naamã se transmitir a ti e a todos os teus descendentes”. E Giezi retirou-se coberto de lepra dos pés à cabeça.

5. Eliseu glorificado na Sepultura. - Muito dos milagres operou ainda Eliseu. Mesmo na sepultura, Deus o glorificou. Depois de sua morte, o país de Israel foi invadido por salteadores, que certo dia surpreenderam alguns homens que estavam a enterrar um morto ao lado do sepulcro de Eliseu. Estes em sua angústia, atiraram o cadáver sobre o do profeta; e apenas o morto tocou nos ossos dele, voltou à vida e levantou-se.

68. O Profeta Jonas

1. Jonas foge. - Depois da morte de Eliseu, Deus o substituiu pelo profeta Jonas, a quem ordenou: “Vai pregar penitência na grande cidade de Nínive, pois sua malícia chegou ao cúmulo”. Jonas procurou fugir ao Senhor; e em Jope embarcou num navio que partia para Társis. O Senhor, porém, desencadeou um violento temporal e o navio correu o risco de ir a pique. Os marinheiros imploravam auxílio de seus deuses e atiraram ao mar a carga para aliviar o navio. Jonas se tinha deitado no fundo do navio e dormia. O piloto despertou-o, dizendo: “Como podes dormir com tamanho perigo? Levanta-te e invoca teu Deus, para não nos afundarmos!” Os marinheiros disseram uns aos outros: “Lancemos sortes para saber quem é o culpado desta desgraça”. Recorreram, pois, ao sorteio que denunciou o Jonas. O Profeta confessou seu pecado e disse: “Atira-me ao mar, pois foi por minha causa que vos sobreveio esta tempestade. Os marinheiros lançaram Jonas no mar. No mesmo instante as águas se acalmaram. O senhor fez vir um enorme peixe, que engoliu Jonas, conservando-o no ventre durante três dias e três noites. Pediu o profeta que o Senhor o salvasse; Deus o atendeu e o peixe lançou-o na praia.

2. Penitência de Nínive. - O Senhor disse novamente a Jonas: “Vai a Nínive pregar penitência”. Jonas obedeceu. Andou pela cidade, bradando: “De hoje a 40 dias, Nínive não existirá mais!” Os ninivitas acreditaram em Deus, vestiram-se de cilícios e jejuaram. O próprio rei fez penitência, convidando o povo a acompanhá-lo; e Deus reconhecendo sua contrição, apiedou-se dele e desistiu do tremendo castigo com que o havia ameaçado.

3. Misericórdia de Deus. - Jonas saiu da cidade e, assentando num abrigo, esperava a destruição da cidade. Quando notou que Deus poupara a cidade, ficou muito contrariado, desejando até a morte. Deus fez crescer um arbusto para dar-lhe sombra, o que lhe causou grande satisfação. Na noite seguinte, enviou Deus um verme, que picou a planta na raiz, e ela mirrou. O sol batia agora em cheio sobre a cabeça de Jonas; e ele sentiu tão grande desconforto que tornou a pedir a morte. Deus observou-lhe então: “Jonas, tu te afliges tanto por causa de um arbusto que não plantaste e que uma noite nasceu e pereceu na outra; eu não hei de ter pena de Nínive, cidade tão vasta, onde vivem mais de 120 mil homens, que ainda não sabem distinguir sua mão direita da esquerda, sem falar na multidão de animais?”

69. O fim do reino de Israel

1. Cativeiro da Assíria. - Os israelitas não cessavam de pecar contra o Senhor. Entregues à idolatria, adoravam o bezerro de ouro, prestavam culto à Baal e imolavam seus filhos e suas filhas a Moloc. O Senhor os repreendeu pela voz Dos profetas Oséias e Amós; mas eles não os escutavam; mostrarvam-se recalcitrantes, como seus antepassados. Caiu finalmente sobre eles o castigo que os profetas muito tempo antes lhes haviam anunciado. Salmanasar, rei da Assíria, atacou-os com um grande exército, apoderou-se da Samaria. Os israelitas, em sua maioria, foram levados cativos para a Assíria; assim terminou o reino de Israel, após uma existência de 253 anos.

2. Os samaritanos. - o rei dos assírios enviou para o país devastado moradores pagãos, que se misturaram com os poucos israelitas restantes no país. Desta união resultou o povo dos samaritanos. Ao culto dos Ídolos pagãos ajuntaram o culto do Deus verdadeiro, em cuja honra tinham levantado um templo no monte Garizim, perto de Siquém (400 anos antes de Cristo). Os samaritanos eram desprezados pelos judeus e permaneceram sempre seus amigos.

70. O piedoso Tobias

1. Piedade de Tobias. - Entre os israelitas cativos na assíria, vivia um homem piedoso chamado Tobias. Desde a mais tenra idade fugia da companhia dos ímpios e observava fielmente a lei do Senhor. Em todas as grandes solenidades, ia à Jerusalém, para adorar o Senhor. Enquanto os outros israelitas comiam dos alimentos dos pagãos, ele nunca se manchou com tal pecado.

2. Tobias ama o próximo. - Por isso, Deus fê-lo achar proteção e mercê diante do rei, que o deixava andar livremente pelo país. Tobias visitava os cativos, consolava-os e os exortava a prática do bem; repartiu com eles quase todos os seus haveres e emprestou, em Ragés, dez talentos de prata * há um homem chamado Gabelo. Quando Salmanasar morreu, subiu ao trono seu filho Senaqueribe. Este odiava os judeus; mandou matá-los em grande número e proibiu que fossem enterrados seus cadáveres. Tobias, temendo mais a Deus do que ao rei, escondia em sua casa os cadáveres dos assassinos e sepultava-os durante a noite. O rei soube disso e deu ordem para matá-lo, confiscando-lhe todos os bens. Mas 45 dias depois, o rei morreu e Tobias pôde continuar sua piedosa tarefa.

3. Tobias sofre com paciência. - Certa vez, Tobias voltou muito cansado para casa; encostando-se a uma parede, debaixo de um ninho de andorinhas, adormeceu. Durante o sono, o excremento ainda quente desses passarinhos caiu-lhe nos olhos. Desde esse dia ficou cego. Seus parentes e amigos zombavam dele, dizendo: “Que te vale agora teres dado esmolas e sepultado os defuntos?” Tobias, porém, lhes respondeu com brandura: “Não faleis assim, pois somos filhos dos santos e esperamos a vida eterna”.

4. Honestidade de Tobias. - Ana, sua mulher, começou desde então a trabalhar como tecedeira, ganhando para o sustento da família. Certo dia trouxe ela para casa um cabritinho, com que a tinha presenteado. Tobias ouvindo os balidos do animal, disse: “Olha que não seja furtado esse animal! Nós não devemos comer nem sequer tocar em coisa alguma furtada”. A esposa, ao ouvir essas palavras, enraiveceu-se e repreendeu-o asperamente. Tobias, sem responder-lhe, suspirava e orava.

5. Conselhos a seu filho. - Tobias teve um filho, que recebeu nome igual ao do pai. Educou-o desde a infância no temor de Deus e no horror ao pecado. Julgando que estava próximo à morte, chamou-o para junto de si e disse-lhe: “meu filho, quando Deus tiver levado minha alma, sepulta meu corpo. Honra tua mãe em todos os dias de tua vida, lembrando-te dos muitos e grandes incômodos a que teve sujeita por tua causa; quando ela morrer, dá-lhe sepultura ao meu lado. Traze sempre Deus presente no coração, em todos os dias de tua vida, e guarda-te de consentir jamais num só pecado. Preserva-te especialmente de toda impureza. Não permitas que em tempo algum domine a soberba teus afetos ou tuas palavras, porque nela tem origem toda perdição. Dá esmolas conforme tuas posses. Se tiveres muito, dá com generosidade; se tiveres pouco, dá esse pouco, contanto que seja sempre de boa vontade. Não faças a outrem o que não queres que te façam. Não desanimes meu filho. É verdade que vivemos em pobreza, mas seremos muito ricos, se temermos a Deus, evitarmos o pecado e praticarmos o bem”. O filho respondeu: “Meu pai, farei tudo o que me recomendaste”.

71. Viagem de Tobias, o moço

1. Partida de Tobias com o Anjo. - Tobias disse ainda a seu filho: “Emprestei a Gabelo, de Ragés, dez talentos de prata; é preciso agora que vás cobrar esse dinheiro!” O jovem Tobias procurou então um companheiro para a longa viagem. Encontrou-o num moço de bela aparência, que para isso se ofereceu. Era o Anjo Rafael, mas Tobias não o conheceu. Dirigiram-se ambos à presença do pai. Logo que Tobias soube que o moço estava disposto a acompanhar seu filho, disse-lhe: “Pois fazei boa viagem! Deus seja convosco no caminho e seu anjo vos acompanhe! Tobias despediu-se de seus pais. Partindo com o anjo. O cão correu atrás deles.

2. Proteção do anjo. - A tarde do primeiro dia chegaram ao rio Tigris. Quando Tobias quis lavar os pés no rio, investiu-o um grande peixe para devorá-lo. Tobias, assustado, gritou: “Senhor, ele já me agarrou!” O anjo disse: “Não te assustes; segura-o pelas guelras e puxa-o para fora!” Tobias assim o fez. E o anjo continuou: “Estripa-o, mas guarda o coração, o fel e o fígado, porque sem pregam como remédio”. Depois assaram a carne do peixe, para comê-la na viagem.

3. Casamento de Tobias. - Continuaram a viagem e chegaram a uma cidade. O Anjo advertiu Tobias: “Aqui mora um de teus parentes, chamado Raguel; ele tem uma filha de nome Sara; pede-a a seu pai; ele consentirá em seu casamento contigo”. Hospedaram-se pois em casa de Raguel, que os acolheu com prazer. Quando Tobias se deu a conhecer, Raguel lhe disse: “Deus te abençoe, pois és filho de melhor dos homens”. Tobias pediu então Sara para esposa e o pai lha concedeu. Tobias disse a Sara: “Somos filhos de Deus e não devemos unir-nos segundo o costume dos gentios, que não o conhecem”. Passaram, por isso, os três primeiros dias em oração; enquanto as núpcias se celebravam, o anjo foi a Ragés e cobrou a dívida de Gabelo. Decorridos 15 dias, Tobias disse a Raguel: “Peço-te que me deixes partir, pois sei que meu pai e minha mãe estão preocupados por minha causa”. Então Raguel deu-lhe a metade de seus bens, abençoou ambos e disse: “O anjo do Senhor seja convosco e vos conduza felizes ao lar paterno”. Tobias e Sara partiram. Quando chegaram ao meio do caminho, o jovem Tobias, apertando o passo, adiantou-se com seu guia.

4. Volta de Tobias e cura do pai. - Os pais de Tobias começaram, entretanto, a entristecer-se por causa da demora do filho. A mãe subia todos os dias até o alto de uma colina, donde se podiam avistar as estradas a longa distância. Finalmente, um dia viu apontar seu filho ao longe. Correu depressa a avisar seu marido: “Aí vem nosso filho”. Chegou primeiro, fazendo festa com a cauda e saltando de alegria, o cão que acompanhara os viajantes. Guiado pela mão de um menino, o pai foi pressurosamente reconhecer seu filho. Pai e mãe o abraçaram, chorando de alegria. Em seguida o filho, a conselho do anjo, esfregou os olhos do ancião com o fel do peixe. Desprendeu-se-lhe dos olhos uma película branca e o velho Tobias recuperou a vista. Então todos deram glória a Deus e o pai disse: “Louvado sejais, Senhor, Deus de Israel! Vós me destes a enfermidade e me restituístes a saúde, mil graças vos dou, porque posso ver outra vez meu filho.” Sete dias depois chegou Sara com suas criadas, rebanhos, camelos e dinheiro. Fizeram uma grande festa e todos louvarão o Senhor com boas disposições e muita alegria.

5. O anjo dá-se a conhecer. - Tobias contou a seu pai todo o bem de que era devedor a seu companheiro de viagem. Chamando-o à parte, pediram-lhe que se dignasse aceitar a metade de tudo quanto tinham trazido. Revelou-se então o anjo e disse: “Louvai ao Senhor do céu e da terra e rendei-lhe graças, porque usou de misericórdia para convosco. A oração, o jejum e a esmola valem mais que todos os tesouros. Todos que cometem pecados e iniquidades são inimigos de sua alma”. Depois, dirigindo-se ao pai, continuou: “Quando oravas, apresentei tuas orações ao Senhor; porque eras agradável a ele, foi necessário que a provação te experimentasse. Agora Deus me enviou para te curar, porque eu sou o anjo Rafael, um dos sete que estão sempre diante do Senhor”. Ouvindo estas palavras, ficaram atônitos e prostraram-se em terra. Mas o anjo lhes disse: “A paz esteja convosco; não tem mais! Bendizei ao Senhor e cantai-lhe louvores”. Dito isto, desapareceu. O velho Tobias, cheio de gratidão, exclamou: “Dai graças ao Senhor, filhos de Israel, e louvai-o perante as nações, porque ele vos espalhou entre os povos que o não conhecem, para que vós publiqueis suas maravilhas e lhes façais saber que não há outro Deus todo poderoso senão ele”.

6. Morte de Tobias. - Depois destes acontecimentos, o velho Tobias e viveu ainda 42 anos, e cresceu, de dia a dia, no temor de Deus. Tinha 102 anos de idade, quando morreu. Após a morte de sua mãe, Tobias, o moço, partiu para a casa de seus sogros, a fim de cuidar deles em sua velhice. Ele também chegou a uma idade avançada e viu os filhos até à quinta geração. Faleceu na idade de 99 anos. Todos os seus parentes e descendentes perseveraram numa vida santa e foram bem aceitos por Deus e pelos homens.

B. - O REINO DE JUDÁ

(930 até 587 antes de Cristo)

72. O rei roboão e seus sucessores

1. Roboão. - O rei roboão cultuou algum tempo o Senhor. Todos os sacerdotes e levitas que se achegavam no reino de Israel vieram residir na Judeia. Também muitos homens piedosos de Israel não deixaram de ir a Jerusalém para adorar o verdadeiro Deus em seu templo. Mais tarde, Roboão e seu povo abandonaram a lei do Senhor, entregando-se à idolatria e a todas as iniquidades dos gentios. Por isso, Deus os entregou às mãos de seus inimigos; o rei do Egito invadiu o país tornando-o seu tributário.

2. Ozias. - Também o rei Ozias, um dos sucessores de Roboão, praticou durante muitos anos o que era justo aos olhos de Deus e governou prosperamente. Mas a felicidade inclinou-o ao orgulho. Certo dia, entrou no templo, para oferecer um sacrifício de perfumes. Opôs-se-lhe o sumo sacerdote, dizendo: Não te “compete a ti, ó rei, queimar incenso ao Senhor”. Ozias irritou-se e ameaçou o sacerdote com o turíbulo. No mesmo instante e à vista de todos, atacou-o a lepra é dela ficou coberto até a morte, como sinal visível do castigo de Deus.

3. Ezequias. - Ezequias foi um rei piedoso, segundo o coração de Deus. Fez tudo o que agradava ao Senhor; destruiu os ídolos retornou a celebrar as festas do Senhor com toda a solenidade. Por isso, Deus o recompensou e o auxiliou até por meios sobrenaturais. Durante seu reinado, Senaquerib, rei dos assírios, veio à frente do poderoso exército e sitiou Jerusalém. Ezequias, diante desse perigo, foi ao templo e implorou auxílio divino; e eis que na noite seguinte um anjo do Senhor matou 185 mil homens do acampamento dos assírios. A vista de tal mortalidade, Senaquerib levantou o cerco e voltou apressadamente para seu país, onde foi assassinado por seus próprios filhos. Pouco tempo depois, Ezequias caiu mortalmente enfermo. Deus mandou-lhe o profeta Isaías, que disse: “Dispõe de tua casa, porque vais morrer”. Ezequias implorou ao Senhor, entre lágrimas, a prolongação da vida. Deus ouviu sua oração e Isaías voltou anunciar-lhe que sua vida seria prolongada ainda por mais 15 anos, durante os quais teria um reinado próspero e feliz. E, com efeito, assim sucedeu.

4. Manassés. - Manassés, filho de Ezequias, era um ímpio e cruel. Colocou um ídolo no templo do Senhor e derramou muito sangue inocente. Como castigo, Deus deixou-o cair nas mãos dos assírios, que o levaram preso para Babilônia. Em suas desgraças, Manassés reconheceu a punição divina, humilhou-se e fez penitência. Deus teve compaixão dele, reconduziu-o para Jerusalém e restituiu-lhe o trono. Removeu dali, então, todos os ídolos e serviu a Deus com dedicação e fidelidade.

73. O profeta Isaías

1. Vocação de Isaías. - Isaías era descendente dos reis de Judá. No ano em que faleceu o rei Ozias, O profeta viu a mansão de Deus. O Senhor estava assentado no trono e levado; serafins o rodeavam. Clamavam uns para os outros: “Santo, santo, santo é o Senhor, Deus dos exércitos; cheia está toda a terra de sua glória” (Is 6,3). Um dos serafins, que trazia nas mãos uma brasa viva, tocou com ela os lábios de Isaías. Em seguida, Deus o enviou a pregar penitência ao povo.

2. Isaías prega a penitência. - Isaías disse ao povo: “Ouvi, céus, e tu, ó terra, escuta, porque o Senhor é quem fala! criei filhos e engrandeci-os; mas eles me desprezaram. O boi conhece o seu dono e o jumento o presépio de seu Senhor; mas Israel não me conheceu” (Is 1,2-3). - Lavai-vos, purificai-vos; afastai de meus olhos a malignidade de vossos pensamentos; cessai de praticar o mal; aprender a fazer o bem, procurai o que é justo e depois vinde falar comigo. Se vossos pecados forem como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; e, se forem vermelhos como a púrpura, ficarão alvos como a lã branca (Is 1,16-19). “Acaso pode uma mãe esquecer-se do seu filho, de sorte que não tenha compaixão dele? Mas, se ela se esquecer dele, eu não me esquecerei de ti. Eis, em minhas mãos te gravarei” (Is 49, 15-16).

3. Profecias sobre o Messias

a) Descendência de Davi. - Sairá um ramo do tronco de Jessé e uma flor brotará de sua haste; descansará sobre ele o espírito do Senhor (Is 11,1-2).

b) Seu nascimento duma virgem. - Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho; ele será chamado Emanuel, Isto é, Deus conosco (Is 7,14).

c) Sua divindade. - Nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado. Repousa sobre seus ombros a soberania e chamam-no: o admirável, o conselheiro, Deus, o forte, o pai do futuro século, o príncipe da paz.

d) Seu precursor. - Voz do que clama no deserto: preparai os caminhos do Senhor, tornar direitas suas veredas. Os vales serão terraplanados, os montes e outeiros, arrasados, os caminhos tortuosos tornar-se-ão direitos e os escabrosos, planos, e toda carne verá o Salvador enviado por Deus (Is 40,3-5).

e) Adoração pelos reis do Oriente. - Levanta-te, esclarece-te, Jerusalém, porque chegou a tua luz e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Uma inundação de camelos te cobrirá, de dromedários de Madian e de Efa (Arábia); todos virão de Sabá, trazendo-te ouro e incenso e anunciando louvor ao Senhor (Is 60,1-6).

f) Seu magistério. - O espírito do Senhor repousou sobre mim, porque o Senhor me deu sua unção divina; ele me enviou para evangelizar os humildes, para curar os contritos de coração, pregar remissão aos cativos e liberdade aos encarcerados; para publicar o ano de reconciliação do Senhor e o dia da vingança de nosso Deus (Is 61,1).

g) Seus milagres. - Dizei aos que têm coração perturbado: tomai ânimo e não temais. Deus fará a vingança e a retribuição. Ele mesmo virá salvar-vos. Então os olhos dos cegos verão a luz e abrir-se-ão os ouvidos dos surdos. Saltará o coxo como um veado e desatar-se-á a língua dos mudos (Is 35,4-6).

h) Sua paixão. - Eu entregarei meu corpo aos que me feriram e as maçãs de meu rosto aos que me arrancaram os cabelos da barba: não afastarei minha face dos que me cuspiam e me afrontavam (Is 50,6). Ele não tem beleza nem graça; seu aspecto em nada nos cativa. Foi feito um objeto de desprezo e a nossos olhos pareceu o último dos homens, um homem de dores. - verdadeiramente ele tomou sobre si nossas fraquezas e as nossas dores: e nós o consideramos como um leproso, como um homem punido por Deus é humilhado. - Mas ele foi ferido por causa de nossas iniquidades, foi quebrantado por nossos crimes: o castigo, que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele e nós fomos curados graças às suas pisaduras. - todos nós andamos desgarrados como ovelhas, cada um se extraviou em seu caminho; e o senhor atraiu sobre si a iniquidade de todos nós. Foi imolado, porque ele mesmo o quis e não abriu a boca para queixar-se. Levaram-no para a morte como uma ovelha ao matadouro: e ele ficou calado como um cordeiro debaixo da mão que eu tosquia (Is 53,2-7).

i) Sua ressurreição e glória. - Todas as nações virão oferecer-lhe suas preces e seu sepulcro será glorioso (Is 11,10). Eu tenho enviei para seres a reconciliação do povo, para seres luz das gentes, para abrir os olhos aos cegos e para tirares da cadeia o preso, do cárcere aqueles que jazem nas trevas.

4. Profecia de Miquéias. - Ao mesmo tempo profetizou a respeito do Salvador o profeta Miquéias: “Tu, Belém de Éfrata, és pequenina entre as cidades de Judá; mas é de ti que há de sair aquele que deve reinar em Israel, e cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5,2).

74. Judite

1. Betúlia sitiada. - Quando o reino de Judá estava já próximo de sua ruína, foi salvo ainda uma vez pela mão de uma mulher piedosa. Holofernes, general dos assírios, veio com grande exército conquistar o reino de Judá. Já se tinha apoderado de muitas cidades e sitiou também a praça forte de Betúlia; cortou os encanamentos d’água, de sorte que os habitantes ficaram em pouco tempo reduzidos a extrema penúria. Os magistrados tinham resolvido entregar a cidade aos inimigos, se no prazo de cinco dias não receber sem algum socorro.

2. Coragem de Judite. - Então Judite recolheu-se a seu oratório, cobriu de cinza a cabeça e implorou o auxílio do Senhor. Em seguida preparou-se com vestes riquíssimas e partiu para o acampamento dos assírios, acompanhada de uma criada; as sentinelas conduziram-na imediatamente à presença de Holofernes. Este contemplou-a com benevolência e deu-lhe permissão para sair do acampamento e voltar à cidade. No quarto dia, preparou Holofernes um grande banquete, para o qual convidou também Judite. Quando a noite já ia adiantada, deitou-se Holofernes, embriagado, em seu leito e adormeceu; os outros convivas retiraram-se para suas tendas; Judite aproximou-se então da cama do general e orou entre lágrimas: “Senhor, fortalecei-me nesta hora!” E, tirando da bainha a espada de Holofernes, cortou-lhe a cabeça; a criada escondeu-a num saco e ambas, como de costume, atravessaram o acampamento e entraram na cidade. Ainda nesta mesma noite, Judite mandou reunir o povo, mostrou-lhe a cabeça de Holofernes e exortou-o: “Louvai o Senhor, que por minhas mãos matou o inimigo de seu povo; seu anjo me guardou e não permitiu que eu fosse maculada por algum pecado”. Pela manhã os judeus atacaram com grande celeuma os assírios. Estes quiseram despertar seu general; mas, quando o encontraram estendido no chão sem cabeça, o pânico invadiu suas fileiras e fugiram desordenadamente. Os guerreiros de Betúlia os perseguiram e fizeram grandes presas.

3. Glória de Judite. - O ato heróico de Judite foi celebrado em todo país. Ozias, chefe do poder, abençoou-a: “Bendita és tu, minha filha, entre todas as mulheres da terra!” O próprio sumo sacerdote Joaquim veio de Jerusalém a Betúlia, para vê-la, e exclamou: “Tu és a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra de nosso povo. Procedeste varonilmente e te fortaleceste, porque amaste a castidade. Serás bendita por toda a eternidade!”. Judite ofereceu ao Senhor, no templo de Jerusalém, todos os tesouros de Holofernes. Viveu ainda muitos anos, dedicando-se como dantes, a uma vida santa e solitária; morreu com 105 anos de idade e todo o povo pranteou sua morte.

75. O profeta Jeremias

Fim do reino de Judá

1. Jeremias prega penitência. - Os habitantes do reino de Judá entregavam-se cada vez mais a iniquidade. Deus mandou-lhes o profeta Jeremias, que empregou todos os esforços para incitar o povo à penitência. Andava entre eles com uma canga ao redor do pescoço, anunciando-lhes os castigos de Deus. Finalmente-lhes disse: “Durante 23 anos exortei-vos diariamente a fazer penitência, mas desprezastes meus conselhos; em castigo, Deus enviará contra o país Nabucodonosor, rei da Babilônia. O país tornar-se-á deserto e durante 70 anos servireis ao rei da Babilônia.

2. Destruição do reino de Judá. - No ano 597 antes de Cristo, veio Nabucodonosor com numeroso exército, conquistou Jerusalém e conduziu muitos dos mais notáveis habitantes para Babilônia. Entre estes se achava Daniel e seus amigos. Pouco tempo depois voltou apoderou-se dos tesouros do templo rei mandou transportar para Babilônia ainda maior número de moradores, entre os quais o profeta Ezequiel. Mas os judeus que tinham ficado no país promoveram sempre novas rebeliões contra o domínio estrangeiro. Nabucodonosor, então, pela terceira vez, com um grande exército enfrentou Jerusalém e sitiou-a durante dois anos; depois desse prolongado cerco, que fez os habitantes sofrerem horrorosa fome, Jerusalém e o templo ficaram completamente arrasados e entregues às chamas. Todos os tesouros da cidade e os vasos sagrados do templo foram levados para Babilônia, sendo quase todo o povo obrigado a marchar para o exílio. Na Judéia ficou apenas um número muito limitado de habitantes pobres para cultivarem a terra. A arca da aliança, o tabernáculo e o altar dos perfumes não caíram nas mãos dos inimigos, porque Jeremias os tinha escondido numa caverna do monte Horebe. Assim acabou o reino de Judá, não era de 587 antes de Jesus Cristo, após uma resistência de 387 anos.

3. Lamentações, orações e profecias de Jeremias. - Ao profeta Jeremias foi permitido permanecer em Jerusalém; sentado sobre as ruínas da cidade, consolava seus concidadãos restantes e chorava sua infeliz pátria, proferindo comovedores lamentos.

a) Lamentações de Jeremias. - Jeremias lamentou neste cântico lúgubre (cujas alíneas estão dispostas segundo as letras do alfabeto hebraico) a destruição de Jerusalém. Ao mesmo tempo anunciava a vingança do Senhor contra aqueles que se alegravam com a desgraça que caiu sobre a cidade santa; recomendava ao povo sua conversão e exortava a pedir a Deus, sem cessar, o fim de sua miséria. Dizia ele: “Como está solitária esta cidade, outrora tão populosa. Apresenta-se triste, qual viúva, a senhora dos povos, a princesa das províncias, feita tributária. Inconsolável, chorou toda a noite; e suas faces estiveram sempre banhadas de lágrimas. De todos que a amavam não sobrou uma para a consolar; seus amigos a desprezaram e voltaram-se contra ela. A filha de Judá, para libertar-se dos rigores da escravidão, deixou sua pátria; o repouso que nela não achava, foi em vão buscá-lo entre as nações; seus pais a dominaram em sua dor extrema. Choram as ruas de Sião suas solenidades; destruídas estão as suas portas; gemem seus sacerdotes; choram as donzelas; a cidade vive na amargura. Seus adversários assenhorearam-se dela; seus inimigos enriqueceram-se com seus despojos; porque o Senhor, irritado com seus crimes, a havia antes condenado; seus filhos menores foram levados ao cativeiro, arrastados pelos opressores… Todo o seu povo, reduzido a mendigar, gemia sob o peso de sua miséria e dava o que tinha de mais precioso, para comprar pão e sustentar sua vida. Olhai, Senhor, e considerei a que estado de humilhação me vejo reduzida. Ó vós todos que passais pelo caminho, atendei e vede se há dor semelhante a minha dor… “

b) Oração de Jeremias. - Lembrai-vos, Senhor, dos males que temos sofrido; dignai-vos dirigir vossa visitas sobre o opróbrio que nos rodeia. Nossa herança é presa do estrangeiro e nossas casas estão em seu poder. Vemo-nos mais abandonados que os pupilos que perderam seus pais; e a angústia de nossas mães é semelhante a das viúvas. Vendem-nos por dinheiro a água que bebemos e somos obrigados a comprar a lenha que era nossa; fomos conduzidos atados e carregados como bestas, sem se permitir repouso ou cansados e fracos. Demos a mão aos egípcios e assírios e temos mendigado e entre eles o pão para sustentar-nos. Nossos pais pecaram e já não existem; e nós sofremos a pena que eles mereceram por seus crimes. Os escravos nos dominaram, e não houve quem pensasse em quebrar nossas cadeias. Com perigo de nossas vidas, saímos ao deserto, para buscar o alimento que no povoado se nos negava. Nossa pele, enegrecida como um forno, está seca e enrugada pelo excesso da fome.

c) Profecia de Jeremias. Jeremias profetizou também sobre o Salvador vindouro, anunciando-o nestes termos: “Eis que virão os dias em que farei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Suscitarei a Davi um rebanho justo, que restabelecerá o direito e a justiça na terra. Seu nome será: O Senhor, nossa Justiça” (Jr 33,14).

PARTE VII - DO CATIVEIRO DE BABILÔNIA ATÉ A VINDA DO SALVADOR

(587 antes de Cristo até seu nascimento)

76. O profeta Ezequiel

1. Ezequiel prega penitência. - Entre os judeus cativos em Babilônia achava-se também o profeta Ezequiel. Ele expôs diante dos olhos de seus patrícios exilados a justiça do castigo divino e exortou-os a uma conversão sincera. “Juro por minha vida, diz o Senhor Deus: eu não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e viva” (Ex 33,11). Ao mesmo tempo consolou-os, dando-lhes a esperança de sua libertação. Para fortalecer-lhes ainda mais essa esperança contou-lhes sua visão em que Deus lhes revelara a reconstituição de seu povo predileto, com os israelitas disperso.

2. Visão de Ezequiel. - Ezequiel tinha sido transportado em espírito a uma planície cheia de ossos. Aí o senhor lhe disse: “Fala a esses ossos, em nome de Deus, que se tornem vivos”. Ezequiel fez o que lhe fora ordenado. Ouve logo uma esquisito sussurro; o osso aproximou-se do outro osso, e cada um de sua respectiva articulação; revestiram-se depois de nervos e de carne e por cima de tudo estendeu-se a pele. Mas faltava-lhe ainda o espírito vital. Tornou a falar então Deus ao profeta: “Dize ao espírito que sopre sobre estes mortos e os faça reviver”. Ezequiel cumpriu a ordem. Imediatamente o espírito entrou naqueles mortos, que viveram e se levantaram sobre seus pés, formando um exército numerosíssimo. Depois o Senhor acrescentou: “Esses ossos representam os israelitas. Eles dizem: Nossos ossos secaram-se, nossa esperança se desvaneceu. Mas eu lhes digo: vós sois meu povo, tornarei a introduzir-vos na terra de Israel; infundir-vos-ei meu espírito e sabereis então que sou eu o senhor!” (Ex 37,1-14).

3. Profecia de Ezequiel. - Ezequiel profetizou acerca do Redentor futuro: “Suscitarei para elas (ovelhas) um único pastor, que as apascente, meu servo Davi (isto é, Jesus Cristo), ele mesmo as apascentará e será eternamente seu pastor. Farei com elas um pacto de paz. (Ex 34,23)

77. Daniel e seus amigos

1. Sua Piedade. - Nabucodonosor escolheu entre as famílias nobres dos israelitas alguns moços hábeis e bem educados para servirem em seu palácio. Antes de serem admitidos, deviam preparar-se durante três anos. Mandou ensinar-lhes a escrita e a língua dos caldeus e quis que fossem servidos das iguarias e do vinho de sua própria mesa. Entre estes jovens escolhidos, encontrava-se Daniel com três amigos, Ananias, Misael e Azarias. Daniel, porém, tinha resolvido, em seu coração, cumprir a lei de Deus e não pecar pelo uso de alimentos proibidos. Pediu ao mordomo, por isso, que permitisse a ele e a seus amigos o uso exclusivo de água e legumes. O mordomo respondeu: “Tenho receio do rei; pois, se ele vir que vossos rostos estão mais magros do que os dos outros moços, poderá isto custar-me a vida”. Daniel replicou: “Experimenta somente durante dez dias; verás depois quem tem melhor feição - nós ou os outros moços; e procederás então como melhor te aprouver”.

2. Deus recompensa esses moços virtuosos. - No fim de dez dias, Daniel e seus três amigos tinham rostos mas formosos e mais corados que os outros jovens. Por isso, o mordomo continuou a servir-lhes apenas água e legumes. Deus deu-lhes notável ciência e grande sabedoria, conferindo também a Daniel o dom de explicar visões e sonhos. Decorridos três anos, os moços foram apresentados ao rei. Este conversou com eles e achou os quatro moços hebreus mas que instruídos e mais nutridos que todos os outros; satisfeito por isso, admitiu-os a seu serviço particular.

78. A casta Suzana

1. Sua constância. - Entre os judeus cativos em Babilônia vivia um homem rico e estimado, de nome Joaquim. Tinha uma mulher muito piedosa, chamada Suzana. Os judeus costumavam reunir-se em sua casa, onde tinham estabelecido o seu tribunal. Dois anciãos foram escolhidos para juízes, porque o povo os julgava homens retos; eram, porém, perversos. Contíguo à casa achava-se um pomar ajardinado. Susana tinha o costume de passear nele diariamente, durante as horas de maior calma; os dois juízes sabiam disto e tomaram a resolução de seduzir Susana ao pecado. Esconderam-se um dia no jardim; Susana entrou, sem de nada suspeitar, e fechou as portas, porque que desejava estar só. Os dois malvados aproximaram-se dela, dizendo: “as portas estão fechadas, ninguém nos vê; faze o que desejamos. Se não consentires, diremos que te surpreendemos numa ação criminosa”. Então Suzana suspirou e disse: “Prefiro cair em vossas mãos, sem ter cometido o mal, a pecar na presença do Senhor”. Depois gritou por socorro em alta voz. Os anciãos gritaram também e, diante das pessoas que acorreram, apresentaram sua falsa acusação contra Suzana.

2. Sua vocação. - Em caminho para o suplício, Deus inspirou o jovem Daniel, que gritou em alta voz, no meio do povo: “Eu sou inocente do sangue desta mulher; julgai-a outra vez, porque os juízes prestaram falso testemunho contra ela”. O povo voltou ao tribunal. Daniel mandou separar os juízes. Depois perguntou ao primeiro: “Debaixo de que árvore viste pecar esta mulher?” Ele respondeu: “Debaixo de um lentisco”. Daniel replicou: “É uma solene mentira, que pagarás conta a cabeça”. Em seguida mandou vir também o outro ancião, e perguntou-lhe: “Debaixo de que árvore a viste pecar?” Ele respondeu: “debaixo dum carvalho”. Reconheceu então o povo que a acusação contra Susana não tinha fundamento; todos louvaram a Deus, que sempre salva aqueles que nele confiam. O povo conduziu depois os dois criminosos para fora da cidade e os apedrejou. A partir desse dia, Daniel começou a ser muito considerado.

79. Sonho de Nabucodonosor

1. O sonho. - Certa vez, Nabucodonosor teve um sonho que muito o inquietou. Quando acordou, não se recordava do que tinha visto no sonho; convocou então todos os magos e adivinhos de Babilônia, exigindo que lhe dissessem o sonho que tinha tido e ao mesmo tempo a explicação. Os adivinhos de disseram: “não há no mundo homem algum que possa cumprir teu preceito; conta-nos tua visão e nós a explicaremos”. Esta resposta irritou o rei, que mandou matar todos os magos e adivinhos do império. Daniel e seus três amigos também deviam morrer; eles recorreram à oração e de noite Deus fez conhecer a Daniel a visão misteriosa. Daniel foi imediatamente a presença do rei e disse-lhe: “Há um Deus no céu que revela os mistérios e que te mostrou naquele sonho as coisas que hão de acontecer. Viste, ó rei, quando estava dormindo, uma grande estátua: a cabeça era de ouro; o peito e os braços de prata; o ventre e as coxas, de bronze; as pernas, de ferro; e os pés, parte de ferro e parte de barro. Uma pequena pedra, desprendida da montanha vizinha, sem que interviessem mãos humanas, rolou e foi esbarrar nos pés da estátua. O colosso se partiu e ficou reduzido a pó, ao passo que a pequena pedra cresceu até uma montanha grande, que ocupou toda a terra”.

2. Explicação do sonho. - Em seguida revelou Daniel ao rei a significação do sonho, dizendo: “O Deus do céu te concedeu o reino, o poder e a glória: és, portanto, a cabeça de ouro. Depois de ti virá outro reino menor que o teu: um reino de prata. O terceiro reino será de bronze e dominará toda a terra. O quarto reino, semelhante ao ferro, há de quebrar esmagar os outros reinos; mas será fraco ao mesmo tempo, e é por isso que viste metade dos pés de ferro metade de barro. Finalmente, o próprio Deus suscitará um império que devastará todos os reinos da terra e substituirá eternamente”. Nabucodonosor, então, prostrando-se em terra, disse: “Na verdade, vosso Deus é o Deus dos deuses e o rei de todos os reis!” Deu a Daniel magníficos presentes e o elevou à dignidade de príncipe de todos os países da Babilônia.

80. Os três jovens na fornalha ardente

1. Sua Constância. - Algum tempo depois, Nabucodonosor mandou erigir uma estátua de ouro. Para sua inauguração reuniu todos os príncipes do reino, é um arauto proclamou: “Logo que ouvirdes o som da trombeta, prostrai-vos por terra, para adorar a estátua. Quem não se prostrar e não adorar, será atirado, no mesmo instante, numa fornalha acesa”. Quando ressoou o toque das trombetas, todos obedeceram; somente Os três amigos de Daniel se conservaram de pé. Daniel mesmo não estava presente à festa. O rei encolerizou-se e disse: “Adorai a estátua, senão sereis lançados dentro do forno aceso! Quem é o Deus que vos poderá livrar da minha mão? Os jovens responderam: “nosso Deus pode salvar-nos da fornalha ardente e livrai-nos de tua mão! E, se ele não o quiser fazer, fica sabendo que, mesmo assim, não adoraremos nunca a estátua!” Ordenou então o rei que se aquecesse o forno com um fogo sete vezes mais forte que o de costume. Os três moços foram amarrados e atirados ao fogo com seus vestidos.

2. Sua salvação. - Um anjo do Senhor, porém, desceu imediatamente à fornalha e expeliu as chamas, de modo que abrasaram e mataram os homens que tinham arrojado ao forno os três jovens. No interior da fornalha o anjo introduziu uma temperatura fresca, como quando sopra a brisa da tarde; o fogo não tocou em nenhum dos moços; queimou apenas as cordas com que estavam amarrados e eles passeavam com o anjo no meio das chamas, cantando e louvando a Deus. Quando o rei olhou para dentro do forno, encheu-se de espanto e perguntou: “Não atiramos à fornalha três homens atados? Como é que vejo lá dentro quatro soltos, a passear, ilesos, entre as chamas? E o quarto é como um filho de Deus!” o rei aproximou-se então da fornalha e gritou: “Saí, servos de Deus altíssimo!” Os jovens saíram e todos viram que nem sequer um cabelo da cabeça estava chamuscado. Nabucodonosor exclamou: “Bendito seja o Deus deles, que enviou um anjo para salvar seus servos; quem blasfemar contra esse Deus, será punido de morte, pois não há Deus algum que assim possa Salvar”.

81. O ímpio Rei Baltazar

1. Profanação dos vasos sagrados. - Baltazar, o neto de Nabucodonosor, foi o último rei de Babilônia. Em certa ocasião, apesar de seus inimigos já estarem as portas da cidade, mandou preparar um lauto banquete, para os grandes do reino. Excitado pela embriaguez do vinho, ordenou que lhe trouxessem os vasos sagrados, tirados por Nabucodonosor do templo de Jerusalém, e serviu-se deles para beber com seus hóspedes. No mesmo instante, porém, apareceu na parede da sala uma misteriosa mão e ali escreveu algumas palavras; o rei empalideceu e tremia-lhe todo o corpo. Mandou chamar todos os sábios de sua corte, mas nenhum pode decifrar a escritura, nem interpretá-la.

2. Explicação da escrita. - Mandou então chamar Daniel, que ele disse com toda a franqueza: “Tu te levantas-te, ó rei, contra o Senhor do céu e profanaste os vasos sagrados de seu tempo. Por isso mandou Deus escrever na parede estas palavras: Mané, Tecel, Fares - Isto é: contado, pesado, dividido. A significação é esta: Deus contou os dias de teu reinado e lhe pôs termo; tu foste pesado na balança da justiça e achou que eras leve; teu reino será dividido e dado aos medos e persas.

3. Castigo de Baltazar. - Ainda na mesma noite, Baltazar foi assassinado em seu palácio; os medos e persas conquistaram o país. Algum tempo depois conseguiu Ciro, rei dos persas, apoderar-se de todo o reino de Babilônia.

82. O ídolo Belo e o dragão

1. Daniel defende intrepidamente sua fé. - Os babilônios adoravam um deus chamado Belo. Ofereciam-lhe todos os dias trigo, vinho e muitas ovelhas. Ciro, rei dos persas, perguntou a Daniel: “Por que não adoras a Belo?” Daniel respondeu: “Eu adoro o Deus vivo, aquele que fez o céu e a terra”. O rei objetou: “Então pensas tu que Belo não é um deus vivo? Não vês quanto come e bebe todos os dias?” Daniel sorriu e disse: “Não te deixes enganar, ó rei! Esse Belo, feito de barro por dentro e de bronze por fora, nunca comeu coisa alguma”. Daniel procurou convencer o rei, e por isso, levou ao templo. Em sua presença, as iguarias foram colocadas sobre o altar, diante de Belo. Daniel espalhou depois cinza bem peneirada sobre todo o pavimento. Em seguida saíram e selaram a porta com o selo real. De manhã cedo, o rei voltou ao templo com Daniel: o selo estava intacto. Abriram a porta e, olhando para o altar, viram que as iguarias já não estavam lá. O rei exclamou logo: “Tu és grande, ó Belo, e nenhum engano há em ti” - Daniel sorriu, deteve O rei e apontou-lhe o chão. O rei, admirado, disse: “Vejo pegadas de homens, mulheres e crianças”. Examinando bem os lugares, deram com uma porta secreta, por onde os sacerdotes entravam de noite com suas mulheres e filhos para comer as ofertas. O rei, muito irado com esse embuste, mandou matar os sacerdotes pagãos e consentiu que Daniel destruísse o ídolo e seu templo.

2. Daniel mata o dragão. - Os habitantes de Babilônia adoravam também um grande dragão. O rei perguntou um dia a Daniel: “Afirmarás também que aquele não é um Deus vivo?” Daniel respondeu: “Dá-me consentimento que matarei o dragão sem pau nem espada”. O rei permitiu. Daniel pôs a ferver alcatrão, gordura e pêlos. Desta massa formou bolas e atiro-as à goela do Dragão, que morreu envenenado. Daniel disse: “Eis aqui o Deus que adoravas!”

83. Daniel na cova dos leões

1. O povo rebela-se contra Daniel. - Babilônia em peso se revolucionou ao saber dessa notícia. A multidão disse ao rei: “Entrega-nos Daniel, senão matar-te-emos e a toda a tua família”. O reis cedeu à violência e entregou-lhes Daniel; o profeta foi arremessado em uma caverna em que havia sete leões furiosos, aos quais se davam todos os dias corpos humanos e duas ovelhas. Nessa ocasião, de propósito, não lhe deram comida alguma, para que com maior voracidade devorassem Daniel, mas os leões o deixaram ileso; ficou Daniel seis dias na cova dos leões e já sentia fome. Nessa época vivia na Judéia um profeta chamado Habacuc. Ia ele ao campo levar o jantar a seus ceifeiros; apareceu-lhe um anjo do Senhor lhe disse: “Leva essa comida a Daniel, que está em Babilônia, na caverna dos leões”. Habacuc respondeu: “Senhor, eu nunca vi Babilônia, nem sei onde está a caverna”. Tomou-o então o anjo e o levou num instante a beira da cova. Habacuc gritou: “Daniel, servo de Deus, toma o jantar que o Senhor te envia!” Daniel, cheio de gratidão, respondeu “Ó meu Deus, vós vos lembrastes de mim! Só não abandonais quem vos ama”. Depois levantou-se e comeu. O anjo reconduziu logo Habacuc a sua casa.

2. Salvação de Daniel. - No sétimo dia, o rei veio em pessoa a caverna dos leões para chorar Daniel. Olhando para dentro, viu o profeta ileso e sentado no meio dos leões. Muito admirado, exclamou: “Como sois grande, Senhor Deus de Daniel!” Mandou imediatamente tirar Daniel da cova e atirar nela os inimigos do profeta. Estes foram num relance dilacerados e devorados pelas feras. O rei, ainda mais admirado, ordenou: “Temam todos o Deus de Daniel, porque ele é o Salvador, que opera milagres sobre a terra!”
84. Profecias de Daniel
Um dia, pedia Daniel a Deus a liberdade para seu povo e a reedificação de Jerusalém e seu templo. Apareceu o anjo Gabriel anunciou-lhe que sua oração fora ouvida.

1. Profecias sobre o Redentor. - Ao mesmo tempo o anjo disse-lhe: “Desde o tempo em que se expediu ordem para Jerusalém ser edificada pela segunda vez até ao Cristo chefe, passarão 7 semanas (de anos) e 62 semanas: e segunda vez serão edificadas as ruas e os muros na angústia dos tempos. Cessarão então as prevaricações: o pecado terá fim; a iniquidade será expiada; virá a justiça eterna; as visões e as profecias serão cumpridas. Depois de 62 semanas será morto o Cristo; e o povo que o há de negar não será mais seu povo” (Dn 9,23).

2. Profecia sobre a destruição de Jerusalém. - “Um povo estranho virá com seu capitão e arrasará completamente a cidade e o santuário; e a desolação a que ela foi condenada lhe virá após o fim da guerra. O Cristo, porém, afirmará a muitos sua aliança, numa semana, e no meio da semana faltarão a hóstia e o sacrifício. Ver-se-á no templo a abominação da desolação e a desolação há de perdurar até a consumação e até ao fim” (Dn 9,24-27).

85. Os judeus voltam do cativeiro

1. A volta. - No 70º do cativeiro mandou o Ciro, rei dos persas, anunciar em todo o reino: “Todo aquele que pertencer ao povo de Deus volte para Jerusalém e reedifique o templo do Senhor!” mais de 40.000 israelitas saíram de Babilônia e se dirigiram para Jerusalém. À sua frente achavam-se o príncipe Zorobabel, da tribo de Davi, e o sumo sacerdote Josué. Ciro entregou-lhes também os vasos de ouro e de prata que Nabucodonosor tinha retirado do templo. Depois de sua volta erigiram em primeiro lugar o altar dos holocaustos, para oferecer desde logo os sacrifícios prescritos pela lei. Em seguida lançaram os alicerces do Novo Tempo. Quando se levantou o edifício, o povo manifestou sua alegria. Os anciãos, porém, que ainda tinha o visto o antigo Templo de Salomão, choravam em altos queixumes, por que o novo templo era muito inferior ao antigo em grandeza e esplendor. Para consolá-los e aumentar o zelo do povo pela edificação do templo, Deus enviou-lhes os profetas Ageu e Zacarias.

2. Ageu e Zacarias. - Ambos predisseram que o Redentor entraria no templo novo e na cidade nova. Ageu disse: “Pouco tempo ainda e eu comoverei o céu e a terra, o mar e todo o universo. Moverei todas as nações e virá o desejado de todos os povos e eu encherei de glória esta casa. A glória desta segunda casa será maior do que a da primeira” (2,7-10). Zacarias disse:

a) “Estremece de alegria, filha de Sião! Eis teu rei, que vem a ti, justo salvador. É pobre e monta um jumento e uma jumentinha” (9,9).

b) Predisse também a traição de Judas: “Pesaram meu salário de pastor trinta moedas de prata. E o Senhor me disse: Atira ao estatutário (oleiro) esse dinheiro, essa bela soma que eles creram que eu valia, quando me puseram a preço. Eu tomei as 30 moedas de prata e a tirei as na casa do Senhor, para o estatutário” (9,12).

c) Sobre a paixão falou nestes termos: “Volveram os olhos para mim, a quem traspassaram” (12,10).

3. Esdras e Neemias. - Oitenta anos mais tarde, o sacerdote Esdras reconduziu do exílio um número maior de israelitas. Seguiu-lhe (450 antes de Cristo) Neemias, o copeiro do rei da Pérsia, que obteve do soberano a licença de reconstruir também as muralhas de Jerusalém. Os samaritanos procuravam impedir a reconstrução, mas os judeus trabalhavam com uma das mãos e com a outra repeliam o inimigo. Deste modo as portas e torreões foram construídos em 52 dias. Depois celebraram os judeus com grande entusiasmo a festa dos tabernáculos. Esdras leu diante do povo reunido a lei de Moisés e todos renovaram a aliança que o Senhor fizera com seus pais.

4. Malaquias, o último profeta. - Em breve, porém, os judeus voltaram a praticar atos proibidos pela lei e até os sacerdotes se tornaram negligentes no serviço sagrado. Enviou então Deus, pelo ano 400, o profeta Malaquias, que reprovou a infidelidade do povo e disse aos sacerdotes: “Nenhum prazer mais acho em vós, diz o Senhor dos exércitos; não aceito oblação alguma de vossas mãos, porque desde o nascente do sol ao poente será meu nome glorioso entre os povos e em todo o lugar há de ser sacrificada e oferecida a meu nome uma oblação pura (1,10,11). Malaquias profetizou também sobre o precursor do Salvador: “Eis que mando meu anjo, a fim de que ele me prepare o caminho. E logo o Dominador que vós buscais e o anjo do testamento que vós desejais virão ao templo” (3,1). Desde então, Deus não tornou a enviar profetas a seu povo. Providenciou, porém, para que os livros dos profetas e outros livros santos fossem traduzidos da língua hebraica para língua grega. Assim também os gentios obtiveram um meio de conhecer a religião dos judeus e profecias acerca do Redentor.

86. Ester

1. Mardoqueu e Ester. - Entre os judeus que preferiram ficar no reino dos persas, vivia um homem muito considerado, da tribo de Benjamim, chamado Mardoqueu. Tinha adotado e criado uma filha de seu irmão, chamada Ester. Esta agradou tanto ao rei Assuero que a recebeu por sua esposa e a proclamou rainha. Mardoqueu, porém, não deixou de dispensar seus cuidados à filha adotiva e todos os dias vinha ao palácio a fim de obter notícias dela.

2. Orgulho e crueldade de Amã. - Algum tempo depois, Amã foi elevado a primeiro-ministro do reino. Orgulhoso exigia que todos os súditos se ajoelhassem diante dele, quando aparecer em público. O piedoso Mardoqueu, porém, não o fez, porque não quis prestar a um homem a honra devida unicamente a Deus. Amã se irritou muito com isso e jurou aniquilá-los, a ele e a todos os judeus do Império persa. Persuadiu, por isso, o rei de que os judeus estavam maquinando uma revolta contra as leis do país. O rei, acreditando em sua falsa denúncia, disse-lhe: “Fase desse povo que te aprouver!” Amã mandou logo expedir, em nome do rei, ordem para matar, num dia determinado, todos os judeus do império.

3. Ester na presença do rei. - Mardoqueu participou a Ester o perigo que se aproximava e pediu que ela se apresentasse ao rei, a fim de interceder por seu povo. Entre os persas, porém, era proibido, sob pena de morte, aparecer diante do rei, sem ser chamado. Por isso, pediu Ester e Mardoqueu: “Orai e jejuai comigo durante três dias; depois, apresentar-me-ei ao rei, arriscando minha vida”. No terceiro dia Ester se dirigiu a presença do rei. Vendo-a chegar, os olhos do monarca cintilaram de furor e Ester caiu desmaiada. Deus comoveu, então, o coração do rei, que disse: “Não temas, Ester, não morrerás. A lei foi feita para todos os outros, mas não atingirá a ti. Qual é teu desejo?” Ester respondeu: “Digne-se o rei vir amanhã, em companhia de Amã, ao banquete que preparei; manifestarei então meu desejo!” O rei lho prometeu. Amã saiu satisfeito do palácio real, mas, à porta, encontrou Mardoqueu, que nem sequer se levantou à sua presença. Encolerizou-se Amã e mandou erguer uma forca de 50 côvados de altura, paralela enforcar Mardoqueu.

4. O rei honra Mardoqueu. - Nessa noite o rei não pôde dormir. Para distrair-se, mandou ler os anais do reino; tendo ouvido ler que outrora Mardoqueu salvara a vida do rei, indagou: “Que recompensa recebeu esse homem por sua fidelidade?” Disseram-lhe: “Nenhuma”. Neste momento Amã acabava de entrar na sala das audiências, a fim de apresentar ao rei seu requerimento para enforcar Mardoqueu. O rei chamou-o à sua presença e perguntou-lhe: “Como deverá o rei tratar um homem a quem queira honrar?” Amã, pensando que se tratava de uma pessoa, respondeu: “Deverá vestir esse homem com vestes reais, fazê-lo montar no cavalo do próprio rei e pôr-lhe na cabeça a coroa real. O primeiro dos príncipes levará o cavalo pelas rédeas e clamará adiante dele, pelas ruas da cidade: Assim será honrado a quem o rei quer honrar”. O rei recomendou a Amã: “Vai depressa e faze ao judeu Mardoqueu tudo o que disseste”. Amã executou a ordem do rei e voltou depois acabrunhado para casa.

5. Ester salva os judeus. - Quando Amã regressava para casa, chegaram os mensageiros do rei, que o convidavam a ir ao banquete da rainha. Durante o banquete perguntou ao rei: “Qual é teu desejo Ester? Ainda que me peças a metade do meu reino, dar-to-ei”. Ester respondeu: “Grande rei, achei graça diante de teus olhos! Concede a vida a mim e a meu povo, pois está decretado que nos matarão, a todos, no mesmo dia”. Inquiriu então o rei: “Quem ousa fazer isto?” Ester respondeu: “Nosso perseguidor e cruel inimigo é Amã”. O rei levantou-se, irado, e saiu para o jardim. Um de seus camaristas disse; “Em frente da casa de Amã levanta-se uma forca de altura de 50 côvados. Ele a mandou preparar para Mardoqueu”. O rei decidiu: “Pois enforcai nela o próprio Amã!” No mesmo dia Mardoqueu foi elevado a primeiro-ministro do rei, em substituição a Amã. Novas ordens do rei revogaram o edito de extermínio. Os judeus, cheios de contentamento e gratidão, instituíram uma festa especial, para comemorar essa libertação.

87. Heliodoro tenta roubar o tesouro do templo - Martírio de Eleazar

1. Os judeus sob o domínio de vários povos. - Os judeus, que tinham regressado para sua pátria, viveram 200 anos em paz e sossego, sob o domínio dos persas. Alexandre Magno, rei da Macedônia, conquistou depois o reino dos persas. Também ele se mostrou favorável aos judeus, oferecendo até sacrifícios no templo de Jerusalém. Logo que Alexandre faleceu, desmembrou-se seu grande império, e os judeus, durante cem anos, ficaram sujeitos ao domínio pacífico dos reis do Egito. No ano 200 antes de Cristo, caíram em poder dos reis da Síria, que os sobrecarregaram de pesados impostos e os perseguiram cruelmente.

2. O roubo de Heliodoro. - Um dos reis da Síria ouviu falar das grandes riquezas do templo e que seria fácil apossar-se delas. Enviou, por isso, Heliodoro, seu primeiro ministro, a Jerusalém, para trazer o tesouro. O sumo pontífice Onias objetou-lhe, porém, que o dinheiro depositado no templo era destinado à manutenção das viúvas e dos órfãos. Heliodoro, assim, exigiu que todo o dinheiro lhe fosse entregue e dirigiu-se com seus soldados à sala do tesouro. Mas, nesse momento, aproximou-se um cavaleiro, montado em um cavalo magnificamente ajaezado, que os encheu de assombro e os estarreceu. O cavalo atirou-se contra Heliodoro e escoiceou-o; ao mesmo tempo, dois jovens de grande beleza puseram-se a flagelar o intruso. Heliodoro caiu e foi levado como morto, em uma rede, para fora do templo. Onias intercedeu por ele junto do altissimo, a fim de que lhe poupasse a vida. Heliodoro voltou a sí e ofereceu a Deus um sacrifício fazendo votos importantíssimos. Voltou depois com seu exército, atestando a todos a obra do grande Deus que vira com seus próprios olhos. Ao rei ele disse: “Quando tiverdes um inimigo, mandai-o lá, que ele, se voltar, virá rudemente castigado. O grande Deus que mora no céu vela em pessoa sobre aquele lugar e o protege”.

3. Firmeza de Eleazar. - O pior dos reis da Síria foi o orgulhoso e cruel Antíoco. Saqueou ele o templo de Jerusalém e mandou erigir nele um ídolo; proibiu, sob pena de morte, que se observasse a lei de Moisés e prescreveu o culto dos ídolos. Muitos judeus tiveram a desgraça de se tornar infiéis à sua crença; outros, porém, preferiram morrer e renegar sua fé e ofender a Deus. No número desses achava-se o venerando Eleazar, ancião de 90. Quiseram obrigá-lo também a comer carne de porco, que era proibida pela lei de Moisés; quando o submeteram a torturam, seus amigos quiseram, por falsa compaixão, trazer-lhe às escondidas carne permitida, a fim de fazer acreditar aos soldados do rei que ele comia carne de porco. Desse modo queriam salvá-lo da morte, mas o velho respondeu: “Esse fingimento é indigno da minha idade avançada. Muitos dentre os moços poderiam pensar que Eleazar, aos 90 anos de idade, se fez pagão, e, talvez, fossem tentados a imitar-me; atrairia assim sobre minha velhice a maldição e a vergonha. Do que me serviria evitar agora o martírio preparado pelos homens? Eu não poderia escapar da mão do Altíssimo, nem vivo nem morto; é pior isso que o bom grado quero morrer em defesa das nossas santas leis, deixando à mocidade um exemplo de firmeza”. Depois destas palavras, arrastaram-no ao suplício; já próximo a expirar, suspirou: “Senhor, eu sofro estas dores cruéis em meu corpo, mas na alma sinto alegria de morrer cumprindo vossos mandamentos”. Assim faleceu Eleazar, deixando, não só à mocidade, mas também a toda a sua nação, um admirável exemplo de firmeza e fidelidade ao serviço de Deus.

88. Martírio dos irmãos macabeus

1. Martírio do filho mais velho. - Antíoco intimou também uma mãe com sete filhos e mandou que comessem carne de porco. Quando se recusaram, foram açoitados com chicotes e azorragues. O mais velho dos irmãos disse corajosamente ao rei: “Preferimos morrer a desrespeitar a lei de Deus!” Cheio de raiva, mandou cortar-lhe a língua, arrancar-lhe a pele da cabeça, decepar-lhe as mãos e os pés e atirá-lo, ainda respirando, num braseiro. A mãe e os irmãos, que assistia ao suplício, animavam-se a igual coragem.

2. Martírio dos cinco irmãos seguintes. - Morto o primeiro, os algozes levaram o segundo para ser martirizado. Arrancaram-lhe a pele da cabeça e perguntaram-lhe se queria comer carne de porco. Respondeu resoluto: “Não o farei”. Sofreu, por isso, o mesmo martírio que seu irmão. Nos últimos momentos, disse ao rei: “Tu, ó rei malvado, nos tiras agora a vida presente, mas o Rei do céu e da terra nos há de ressuscitar um dia, para a vida eterna!” O terceiro estendeu voluntariamente as mãos, dizendo: “De Deus as recebi e dele espero tornar a recebê-las um dia”. Morreu como o primeiro e o segundo. Foram martirizados em seguida o quarto, o quinto e o sexto dos irmãos. Todos morreram com igual heroicidade, a ponto de o rei e sua gente pasmarem diante de tal constância.

3. Martírio do filho mais moço e sua mãe. - Quando chegou a vez do mais moço, Antíoco prometeu fazê-lo rico e feliz, se ele abandonasse a lei de seus pais; mas o jovem não fez caso dessa promessa. O rei chamou então a mãe para que persuadisse o filho a salvar a vida. A mãe aproximou-se do filho e, apertando-o contra o coração, falou-lhe na língua pátria que o rei não entendia: “Peço-te, meu filho, a que contemples o céu, a terra e tudo quanto neles se contém; lembra-te que foi Deus quem fez tudo do nada; não temas, portanto, o verdugo e aceita de bom grado a morte, a fim de que eu te encontre com teus irmãos na vida eterna!” Enquanto ela ainda falava, o menino disse aos algozes: “Que esperais ainda? Não obedecerei às ordens do rei; mas, sim, às leis de Deus!” Voltou-se então para o rei e exclamou: “Nós sofremos por causa de nossos pecados, porém em breve, o Senhor tornará a reconciliar-se conosco; mais tu, homem ímpio e perverso, não escaparás ao juízo de Deus; teu orgulho será castigado”. O rei, exasperado de raiva, mandou atormentá-lo ainda com mais crueldade do que a seus irmãos. Por fim também a mãe sofreu o martírio.

89. O sacerdote Matatias. Morte de Antíoco

1. O sacerdote Matatias. - Com crueldade cada vez maior, Antíoco perseguia os costumes judaicos. Mandou emissários a todas as cidades, com ordem de forçarem os judeus a apostasia. Na cidade de Modim, vivia o sacerdote Matatias, com seus cinco filhos. Apresentou-se-lhe um emissário; matatias e seus filhos não se abalaram. Quando um judeu se adiantou para o altar, a fim de se sacrificar aos ídolos na presença do povo, Matatias atirou-se contra ele e o prostrou morto, no mesmo lugar; matou também o enviado de Antíoco. Depois disso, percorreu a cidade, clamando em alta voz: “Quem tiver zelo pela lei, siga-me!” Em breve reuniram-se os judeus fiéis e, guiados por Matatias, derrotaram as tropas do rei e destruíram todos os altares dos ídolos, matando os idólatras.

2. Morte de Antíoco. - Sabendo da resistência dos judeus, quis vingar-se. Meteu-se a caminho para a cidade de Jerusalém, a fim de torná-la sepulcro de todos os judeus. Deus feriu-o, porém, de uma doença incurável; todavia, Antíoco não quis renunciar à viagem e instiou com o ficheiro para que marcasse o mais rapidamente possível. Caiu então do carro, ficando gravemente confundido; saiam-lhe vermes do corpo e a carne caia-lhe de podre, exalando cheiro tão mal que ninguém ou podia suportar. Em sua infelicidade, arrependeu-se de seus crimes, orou a Deus e prometeu oferecer presentes valiosos ao templo de Jerusalém; seu arrependimento, porém, não era sincero e apenas fazia essa promessa por medo da morte. Por isso Deus não o ouviu e deixou morrer esse assassino blasfemador no meio de terríveis sofrimentos.

90. Judas Macabeu

1. Sua confiança em Deus. - Quando Matatias faleceu, seu filho Judas tomou o comando do exército dos judeus contra os sírios. Por causa de sua valentia, recebeu o apelido de Macabeu, que significa martelador. Os inimigos contra quem Judas tinha de lutar eram muito numerosos, mas ele pôs toda a confiança em Deus e alcançou grandes vitórias. Em certa ocasião, Judas enfrentava um exército de 40 mil sírios. A pequena força que comandava, amedrontada, quis fugir; mas Judas os animou: “Não temas: o próprio Deus os esmagará a nossa vista”. Cheio de fé, precipitou-se sobre os inimigos e os desbaratou.

2. Nova dedicação do templo. - Depois de outras vitórias, Judas conduziu seu exército à Jerusalém, e libertou a cidade e o templo das mãos dos gentios. O Santuário estava devastado, e o mato crescia no átrio. Judas ordenou o primeiro um grande luto: depois desalojou da cidade todos os sírios, purificou o lugar santo profanado, construiu um novo altar de holocaustos e mandou fazer um novo mobiliário sagrado. Festejaram durante 7 dias a dedicação do altar e ofereceram muitos sacrifícios. Para fortificar a montanha de Sião, Judas mandou construir um recinto de altas muralhas, guarnecidas de torres fortes.

3. Proteção dos anjos. - Passado algum tempo, os sírios reapareceram, com um grande exército, para subjugar os judeus. Judas e seus companheiros invocaram a proteção de Deus e, assim fortificados, marcharam para o combate. Quando ia mais renhida a peleja, viram-se descer do céu cinco moços brilhantes, montados em cavalos com freios de ouro; dois deles colocaram-se aos lados de Judas, cobrindo-o com suas armas. Os outros três arremessavam dardos e relâmpagos contra os inimigos. Estabeleceu-se a desordem entre os sírios e mais de 20 mil homens perecerão.

4. Sacrifício pelos defuntos. - Noutra batalha ganha contra os sírios, muitos judeus caíram mortos no campo da luta. Quando, no dia seguinte, Judas e seus soldados vieram para sepultados, encontraram em suas vestes muitos objetos consagrados aos ídolos e que a lei mosaica proibia trazer consigo. Todos viram então claramente a causa da morte de tantos patrícios; pediram a Deus que lhes perdoasse o pecado. Judas organizou uma subscrição, que rendeu 12000 dracmas de prata, e mandou-as a Jerusalém, para que se oferecessem sacrifícios pelos mortos; pois dizia ele: “é um santo e salutar pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres de seus pecados”.

5. A visão de Judas. - Pouco tempo depois, o general sírio Nicanor investiu, com poderoso exército, contra Jerusalém. Judas tinha apenas 30000 homens para a defesa; durante a noite que precedeu a batalha, foi confortado por uma visão. Viu o falecido pontífice Onias estender-lhe as mãos e orar pelo povo judaico. Logo depois, apareceu-lhe outro homem, cercado por uma auréola de grande glória. Onias disse: “Este é Jeremias, o profeta de Deus, que tantas vezes orou por seu povo e pela cidade santa”. Jeremias deu a Judas uma espada de ouro, dizendo: “Recebe a espada de Deus, com a qual vencerás os inimigos de meu povo!” Judas comprou este sonho aos seus, que, cheios de confiança, mancharam para o combate. Rezando, combatia os inimigos e sob seus golpes caíram mortos 35000 homens; o resto do exército sírio fugiu.

6. Morte heróica de Judas. - Assim Judas, ajudado por Deus, ia vencendo todos os inimigos de Israel. Antes da última batalha, grande parte dos judeus, levados pelo medo, abandonaram seu chefe; somente 800 homens lhe ficaram fiéis. Também alguns destes lhe aconselhavam a retirada. Judas, porém, protestou: “Deus nos livre de fugir! Se for chegada a nossa hora, morramos corajosamente por nossos irmãos, mas não manchemos nossa honra”. Dizendo isto, atacou o inimigo; mas pereceu, depois de forte resistência (160 antes de Cristo); todo o povo deplorou por muito tempo sua morte.

91. Últimos tempos antes de Cristo

1. Realizasse a profecia de Jacó. - depois da Morte de Judas, foram escolhidos sucessivamente seus dois irmãos, Jônatas e Simão, para chefes do povo. Também estes praticaram obras valiosas e libertaram o país completamente do domínio dos sírios. Mais tarde, porém, começou para a família dos Macabeus uma decadência profunda, porque seus sucessores disputavam entre si a coroa. De comum acordo, tomaram Roma por árbitro. Pompeu,entrou, por isso, na Judéia, à frente do exército romano, apoderou-se de Jerusalém e nomeou governador da Judéia o idumeu Antipater (40 antes de Cristo); seu filho Herodes conseguiu de Roma a dignidade de rei dos Judeus. Para conciliar a submissão do projeto, mandou construir, pouco a pouco, em proporções grandiosas, o templo de Zorobabel. Este terceiro templo foi que presenciou mais tarde a entrada triunfal do divino Salvador. Estava então realizada a profecia do patriarca Jacó: O cerco será tirado de Judá. Aproximava-se, portanto, o tempo marcado para vinda do Salvador.

2. Decadência do judaísmo. - Os judeus, em virtude de diversos castigos com que Deus os visitou, renunciaram finalmente, para sempre, à idolatria; nos últimos tempos perseveraram na crença de um Deus verdadeiro. Todavia a maior parte só o servia pelas obras exteriores do culto religioso, enquanto seu coração recaía mais e mais em pecados e vícios. O mal era fomentado pelas seitas dos fariseus e saduceus, que abafavam totalmente o sentimento religioso ainda existentes no povo. Os fariseus observavam os mandamentos de Deus só segundo a letra. ostentavam pontualidade meticulosa em pagar o dízimo, guardar o sábado, cumprir o jejum e usar as abluções. Acrescentavam, porém, às ordens de Deus, práticas vãs e superstições. Gozavam, por isso, junto ao povo, de alta consideração que aproveitavam-se desta para fins políticos. Essas aparências de virtude, porém, ocultavam uma corrupção profunda; eles não passavam de vis hipócritas. Esperavam o Messias, mas só como o rei poderoso que libertasse o povo judaico do domínio dos romanos. Os saduceus negavam a imortalidade da alma, a ressurreição da carne e a recompensa após a morte. procuravam, por isso, sua felicidade no gozo dos bens deste mundo e passavam uma vida pecaminosa. Contudo existia um certo número de judeus verdadeiramente piedosos, que esperava com ansiedade a vinda do Salvador prometido. Com o profeta Isaías rezavam: “Ó céus, deixai cair vosso orvalho; que as nuvens chovam o justo. Abra-se a terra e germine o Salvador” (Is 45,8).

3. A corrupção entre os gentios. - Mais triste ainda era a condição dos gentios, submergidos em vícios hediondos e em profunda miséria. Por intermédio dos judeus que viviam no meio deles, obtiveram conhecimento das profecias a respeito do Salvador esperado e muitos deles desejavam também sua linda. Por desígnio da Divina Providência, todas as nações conhecidas achavam-se naquele tempo sob o domínio dos romanos. Portanto, nem a variedade da linguagem, nem os diferentes limites, impediram a difusão da doutrina de Jesus Cristo. Os romanos haviam conquistado praticamente todo o mundo conhecido de então. Tinha chegado a plenitude dos tempos e com ela devia aparecer na terra aquele que já no paraíso fora prometido: o Salvador dos homens - Jesus Cristo, Filho de Deus, bendito e louvado para sempre.

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